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quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Eu, aqui, agora

Uma introdução aos termos indexicais[i]

Eu, aqui, agora, ele, ontem: termos indexicais geralmente são termos singulares que nos ajudam a identificar particulares e, assim, fazem com que a linguagem toque a realidade. Eles possuem duas espécies de significado: por um lado há um significado linguístico dado por sua função lexical (“eu” é um pronome pessoal, todos sabemos) e por outro há o sentido, quando se fala do conteúdo semântico (eu quem, cara pálida?).

Função Lexical. É o sentido literal do termo e não varia com o contexto do proferimento, que pode envolver o falante, um auditório, um objeto referido, um local e tempo. O contexto do proferimento se divide no contexto de ocorrência (quando sentenciado) e no contexto de avaliação, quando se dá o fato ou evento e se pode determinar seu valor de verdade (“Amanhã vai chover” – dito hoje e verificado amanhã).

Há regras das funções lexicais chamadas de originárias (ou standard – conforme a classificação de Cláudio Costa) que são genéticas, isto é, são regras que nos são apresentadas desde logo quando começamos o processo de aprendizado da linguagem. E podemos investigar a semântica dos termos indexicais por meio de como eles são usados em situações dialógicas na linguagem natural. Costa propõe regras A:

A1. Demonstrativo este: objeto próximo do falante apontado por um gesto de ostensão.

A2. Demonstrativo aquele: objeto distante do falante apontado por um gesto de ostensão.

A3. Pronome pessoal eu: quem profere. “Aplicamos o pronome pessoal ‘eu’ para indicar quem o está proferindo no momento em que o profere”.

A4. Pronome pessoal nós: falantes e ouvintes.

A5. Pronomes pessoais tu, você, ela: auditório.

A6. Advérbios aqui e agora: lugar, momento de lugar.

A7. Advérbios de tempo hoje, ontem: dia do proferimento, dia anterior. Etc.

Conteúdo semântico. A função lexical standard é invariante e se aplica a contextos ilimitados, já que “eu” sempre se refere a pessoa que o proferir no momento que profere[ii]. Entretanto ela é insuficiente quando há significação, por exemplo, “Eu estou com dor de cabeça” é um proferimento que pode ser verdadeiro ou falso quando dito por pessoas diferentes. O conteúdo semântico se liga a uma situação real de fala e muda conforme o objeto ou contexto de proferimento.

O proferimento “Eu estou aqui” permite a identificação física, a pessoa em carne e osso que se auto refere, mas o “Eu estou aqui” pode ter mais riqueza, uma intencionalidade que vai além da representação espaciotemporal. O “Eu estou aqui”, ouvido por um doente que recebe a visita de um ente querido, pode identificar elementos submersos na referência e que são compartilhados entre falante e ouvinte e a história compartilhada por eles.

Sentido fregeano. Não obstante o uso standard do “eu”, de autorreferência, já que poderiam haver usos impessoais, Costa sublinha que há mais do que o conteúdo semântico ser o próprio objeto “eu”, como sugerido pela teoria da referência direta - é preciso dar um sentido a esse objeto. De acordo com Costa, é um erro pensar que o caráter proposto por Kaplan ou o papel proposto por Perry, que seriam o sentido lexical, pudessem se igualar ao sentido fregeano (Sinn), já que o sentido lexical permanece o mesmo, sabendo que o Sinn é múltiplo, são os modos de apresentação da referência (“pegue aquele comprimido” – o maior, “pegue aquele comprimido” – o azul). Para os indexicais então, Costa sugere um retorno ao Sinn para dar conta do conteúdo semântico, como o valor cognitivo de cada modo de apresentação e não da própria referência e, aí, por uma regra de identificação semântica-cognitiva.

A pessoa do eu[iii]. Costa argumenta que, antes de abordarmos pronomes pessoais, precisamos entender o que é uma pessoa qualquer e depois situá-la em um contexto, adicionar o sexo, etc. Parte-se do eu associado a uma regra de identificação e depois se aplica em um contexto espaciotemporal. O objeto real de referência do pronome pessoal “eu” é uma certa pessoa composta de uma mente humana e um corpo biofísico conforme proposto por Strawson. Mais do que o eu humiano, fluxo de sensações, trata-se de um eu empírico, espaciotemporal e psicológico.

O “eu” é nossa auto imagem possui ideias, memórias e convicções, constituição egóica psicológica acessível por partes, mas transcendental se considerado no todo. Se não é uma totalidade já que não pode ser observado e observador ao mesmo tempo, ele pode formar uma ideia de si mesmo no decorrer do tempo. Citando Costa:

“Quando penso em meu próprio eu, porém, é naquilo que sou e no que poderíamos chamar uma constituição egóica subjetiva pertencente à minha pessoa e que sou capaz de experienciar diretamente como um todo, mas do qual formo uma ideia com base em estados mentais que se reiteram, que são mais ou menos interrelacionados, que por vezes vêm à mente e aos quais posso me referir”. (COSTA, 2022, p. 32)

Como não temos acesso direto cognitivo, construímos uma teoria indiretamente a partir do fluxo humiano, construção ideativa que supomos corresponder ao real.

A instanciação da regra lexical.[iv] Costa ressalta que A3 corresponde a uma constituição egóica subjetiva, mas não pessoa particular e encerra o significado linguístico da palavra “eu”. Já o conteúdo semântico é dado por A3s, que é a instanciação de A3, assim enunciado:

“O pronome pessoal ‘eu’ tem a função de indicar uma pessoa formada pela constituição egóica X do indivíduo físico-biológico Y que o está proferindo em um momento T em um lugar L e em circunstâncias C de nosso mundo real, tal como ele é capaz de ser pensado pelo falante e pelo auditório na interação comunicativa”.

Assim, preenchendo as variáveis temos a pessoa particular, mas que não é a referência direta ao eu pessoal. Trata-se do eu pensável, constituição espaciotemporalmente localizável conhecida por falante e auditório, conteúdo semântico cognitivo pensado em A3s que espelha a referência enquanto tal, eu empírico no contexto concreto.

Distinção tríade. Se A3s é o ato de referência indexical, existe A3r que é da pessoa real correspondente, quando as variáveis são preenchidas por elementos do mundo objetivo; A3s: pensado, A3r: fato no mundo. Há aqui um representacionismo defendido por Costa com base em evidências de Bold fMRI, pois é o conteúdo semântico cognitivo que permite o compartilhamento dos “sense data”, já que se pode comunicar sensação de fome não tem fome em si. A Distinção triádica fica assim:

SIGNIFICADO LEXICAL DO INDEXICAL

V

CONTEÚDO SEMÂNTICO COGNITIVO DO INDEXICAL

V

REFERÊNCIA DO INDEXICAL

A3s é a maneira fregeana, o modo de apresentação do objeto (interno, por pensamentos) e A3r o objeto no mundo, sua constituição egóica. Costa faz o mesmo procedimento com relação ao demonstrativo “este” (A1), tomando por base a ontologia de tropos que não cabe retomar aqui.[v] De qualquer forma, entre a função léxica de A1 e o mundo (A1r) há o conteúdo semântico cognitivo A1s do objeto pensado que corresponde a A1r. Na verdade, há intermediários A1s que seriam capazes de explicar imagens alucinadas que não teriam correspondentes no mundo.

Conforme Costa, “A satisfação de A1r costuma conduzir causalmente à satisfação de A1s, que por sua vez nos permite a cognição oferecer-nos um conteúdo cognitivo que é, no final das contas, o modo como a referência nos é apresentada” (p. 38). Mantém-se o espelhamento dos fatos empíricos (o sol nascer) em estados fenomenais (círculo luminoso no olho), contudo baseado em critérios de realidade externa (CRE), que são: 1.) independência da vontade, 2.) máxima intensidade sensorial, 3.) possível intersubjetividade, 4.) seguimento de leis naturais e 5.) adequações ao contexto esperado.

Investigação dos indexicais. Concluiremos essa introdução apontando para o que se seguirá no capítulo 2. Definiram-se tanto regras para A1s (semântico-cognitivas – tropos internos) quanto para A1r (aplicação nas referências – tropos externos). O mesmo pode ser feito de A1 a A7, embora a passagem à referência requeira CRE e consenso interpessoal. Mas Costa investigará na continuidade as concepções sobre a natureza do conteúdo semântico do indexical, tanto pela referência direta (miliana): abordagem de Kaplan que iguala conteúdo e referência e cognitivista (neofregeana): conteúdo é cognitivo, modo de apresentação fregeano (Michael Dummett, Tugendhat) que aplica regra criterial identificadora do objeto particular. Notadamente, são ideias passíveis de uma leitura ontológica em termos de tropos.



[i] Fichamento do capítulo 2. Termos Indexicais. COSTA, C. Cognitivismo Semântico: Filosofia Da Linguagem Sob Nova Chave. Curitiba: Editora Appris, 2022.

[ii] Referência.

[iii] Aqui Costa traz uma análise ontológica e também evoca a metafísica descritiva de Strawson.

[iv] Uma vez mostrada a regra léxica e definido o “eu”, já se pode instanciá-lo pela linguagem.

[v] Ontologia de tropos é proposta de Donald Williams e permite localizar propriedades espaciotemporalmente, superando as ideias platônicas. Então, temos propriedades-t mentais e físicas aliadas à localização para podermos falar de A1 em termos mentais-representacionais, em termos de A1s.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Introdução à intencionalidade em Searle[i]

Na sua teoria da mente, como já vimos nesse espaço, Searle nega tanto dualismo como monismo alegando a influência cartesiana anacrônica em ambas as visões e propondo uma abordagem que trate a consciência, ao mesmo tempo irredutível, como fenômeno biológico natural. Entretanto esse fenômeno se naturaliza pelo fisicalismo reduzindo o mental a processos físicos, depreciando o estudo da consciência e não levando em conta o aspecto subjetivo.
Nesse sentido, há uma profunda divergência entre Searle e Dennett no tratamento da mente conforme o “senso comum”, pois “para Dennett há uma extravagância metafísica na ontologia subjetiva de Searle”. Dennett trabalha com a visão objetiva de ciência na qual o tratamento da consciência não se enquadra, pois não permite verificação “de terceiros”.
Por seu lado, para Searle a mente é um objeto existente e deve ser investigada cientificamente, pois que pessoas sintam dores, por exemplo, é um fato objetivo, embora ontologicamente subjetivo e deveríamos buscar uma explicação neurobiológica da causação dos estados conscientes pelos processos cerebrais.
Em Searle opera papel fundamental a intencionalidade, produto biológico evolutivo, que faz com que nos conectemos com o mundo através de estados intencionais com certas caraterísticas: veracidade (o objeto deve existir), direção (mente-mundo; mundo-mente), um determinado conteúdo e o modo psicológico: uma crença, desejo, etc.
Duas são as formas biológicas mais básicas de intencionalidade: o ato perceptivo, que traz consigo um “background” de significados com que nos relacionamos com os objetos e a ação intencional, que é a condição de satisfação de uma intenção, seja uma intenção prévia e as não-intencionais, porém com intenção em ação e que até possa resultar em acidentes.
Tanto na percepção, como na ação, há uma relação causal não como lei universal, mas relação lógica de causação intencional onde o conteúdo intencional é satisfeito. Além disso, não há teoria da intencionalidade sem o background de crenças, desejos e demais estados psicológicos, ou seja, “conjunto de capacidades mentais não-representacionais que permite a ocorrência de toda representação”. Portanto, o background é o elo de nossa parte subjetiva com os fatores externos de estímulo.
Embora a posição de Searle possa equivaler a um realismo ingênuo, acredita-se que a neurociência abrirá caminhos para o estudo dos aspectos empíricos da consciência e não haveria contradição entre uma abordagem de senso comum e a ciência. Para Searle, vencer o vocabulário tradicional é pode tratar da mente e não separá-la. É tratar cérebro e mente como duas coisas distintas, porém físicas.



[i] Fichamento de “Subjetividade e intencionalidade: Searle crítico de Dennett”, acessado no endereço:  https://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasEletronicas/FILOGENESE/pauloejonas.pdf, em 24/04/2020.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Investigação da mente: evolução e intencionalidade[i]

Trata-se de mostrar a contribuição metodológica de Dennett pelo aspecto evolutivo, utilizando-se de Darwin, porém com as limitações do aspecto intencional. De toda forma, abre-se uma perspectiva explicativa para nos tirar da zona de conforto do dogmatismo de acreditarmos que somos seres superiores.

Introdução. Gildeon localiza o funcionalismo como uma teoria fiscalista não reducionista, ou seja, fisicalismo que, entretanto, aceita a irredutibilidade do mental ao físico, mas não como sendo um dualismo de substância e sim tratando os estados mentais como propriedades físicas[ii]. No funcionalismo os estados mentais executam funções que não são idênticas ao cérebro e, dessa forma, se alinha ao uso de inteligência artificial equiparando corpo e mente a hardware e software e abrindo caminho para a realização de estados mentais em robôs.
Gildeon classifica Daniel Dennett como um funcionalista materialista, pois considera a função uma mera abstração e também naturalista, pois trata o mental como produto da evolução e então aborda os primeiros capítulos da obra Tipos de Mentes[iii]. A partir de Wrigley[iv], Gildeon ressalta dois problemas materialistas que são tratados por Dennett: consciência e intencionalidade. Sobre a consciência, Dennett ressalta o papel fundamental da linguagem como elemento responsável por nossa ação, capacidade exclusiva humana e alcançada pela evolução. Sobre a intencionalidade, como evento físico no cérebro representando estados externos, Dennett aponta que isso também ocorre em animais mais primitivos que, ao representarem o ambiente em que estão inseridos, guiam suas ações de sobrevivência[v].
Outro ponto que Gildeon destaca é a rejeição de Dennett ao hard problem, elaborado por Chalmers[vi], já que para Dennett não há estado subjetivo independente e ele considera o “eu” uma ficção, como a gravidade na física, abrindo espaço para a análise da mente a partir da terceira pessoa, como ciência.

A perspectiva evolutiva. O primeiro alerta de Dennett, segundo Gildeon, é o de procurar abordagens que transponham as tradições superando os mistérios da mente por uma metodologia um pouco tateante no ir e vir da mente humana e de outros animais numa perspectiva evolutiva que não se da em linha reta. Em busca dessas diferenças, há questões de natureza ontológica “Que tipos de mentes existem?” e epistemológica “Como sabemos?”, porém evitando a tradição que parte da nossa capacidade de conhecer as realidades existentes (ressalta-se a oposição conhecer e ser).
Embora sabendo da dificuldade em se conhecer a mente, é preciso desassociá-la do incognoscível, afinal sabemos que temos uma mente e um cérebro, mas não os conhecemos do mesmo modo, já que a primeira conhecemos internamente, entretanto não caímos no solipsismo porque sabemos que os outros homens também têm a sua mente.  Para Dennett, conforme Gildeon, sabemos que temos uma mente principalmente pelo pronome “você” e pela linguagem que permite compartilhar nosso mundo subjetivo, embora seres sem linguagem ou fala também possam ter uma mente (ausência de fala não é ausência de mente).
Comparando a linguagem à impressora de um computador, Dennett argumenta que ele pode existir sem ela, ou mesmo realizar coisas sem pensar, inconscientemente. Ou seja, aquelas criaturas sem linguagem poderiam realizar as coisas automaticamente, como nós, reduzindo nossa fronteira para com eles. De modo a fugir de questões insolúveis, Dennett propõe o esforço investigativo frente à mera imaginação, baseado em hipóteses como saber se a linguagem é de fato periférica ou se há mesmo criaturas com uma mente. Dennett aponta para a investigação histórica de que evoluímos de seres com mentes mais simples ou sem mente, como caminho para obter respostas. E na atitude interpretativa da mente, no seu aspecto intencional.

A postura intencional. Dennett trata a postura intencional como um comportamento que governa as ações se baseando em crenças e desejos, aproximando-se da “psicologia popular”. Dennett visa a postura intencional a outros seres, no sentido de uma antropomorfização que conduza descoberta de diferenças para com os nossos ancestrais e demais espécies. Assim o fenômeno da mente leva a uma ancestralidade comum.
Citando o exemplo de um vírus que toma inúmeras ações automáticas e detalhadas para se reproduzir, Dennett busca mostrar, segundo Gildeon, que há uma predição das ações e movimentos dessa entidade, mesmo que não consciente de razões, porém como um agente de ação, não passivo.
Dennett estabelece uma hierarquia de estratégias de predição, primeiro uma postura física, baseada em leis que guiam o movimento dos corpos, depois a postura de planejamento, quando algo é planejado para funcionar de determinado modo, como o avião, por exemplo, mas que pode ter sido mal projetado e não funcionar corretamente. Por fim, a postura intencional que, além de planejada, ainda seguiria pela busca do próprio bem (no caso do vírus, buscando sobreviver).
Sobre a racionalidade e a busca do próprio bem se configura a função como respostas certas a evolução natural. Então, utiliza-se a postura intencional para se verificar qual poderia ser a escolha racional de agentes supostamente inteligentes para satisfazer suas necessidades. Aqui o alerta e limitação de não se imputar atributos enganosos às entidades investigadas.
Gildeon finaliza com a distinção do uso da intencionalidade nesse contexto, não como voluntariedade, mas no sentido de destinar-se a algo em um modelo chave e fechadura. Mesmo que “involuntária e automaticamente”. E, sobre a metodologia, Gildeon ser pergunta se essa metodologia harmoniosa "evolução intenção" se aplicaria além dos limites do funcionalismo.



[i] Conforme “Daniel Dennett: uma perspectiva evolutiva da mente”. De Gildeon Oliveira do Vale, acessado em http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/bauman/article/view/9507, 11/04/2020. Cadernos Zygmunt Bauman, Universidade Federal do Maranhão.
[ii] Referência a VIANA, Wellistony C. “Hans Jonas e a filosofia da mente”.
[iii] DENNETT, Daniel. Tipos de mentes – rumo a uma compreensão da consciência. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
[iv] WRIGLEY, Michael, O seu tataravô era um robô, FSP, 11 de julho de 1998. Em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1998/7/11/caderno_especial/10.html., acessado em 12 de abril de 2020.
[v] Importante ponto ressaltado por Wrigley é a diferença de abordagem da intencionalidade entre Searle, que considera haver mais de uma e Dennett considerando apenas uma.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

A consciência subjetiva é parte da realidade*


Introdução. Candiotto insere Searle na tradição da filosofia analítica do Círculo de Viena, porém mais voltado ao campo da filosofia da linguagem na construção de uma concepção de verdade e enfatizando suas preocupações na filosofia de mente referentes ao dualismo e monismo. Observando questões como subjetividade, consciência, realidade e racionalidade, para Searle nem dualismo e nem materialismo são respostas para a filosofia da mente devido a seus problemas epistemológicos.

A irredutibilidade da compreensão da realidade. Candiotto inicia pela posição de Searle sobre o materialismo mostrando que essa filosofia não consegue se livrar das referências ao mental. Se o materialismo coloca dualismo ou misticismo como suas objeções, ao tentar negá-los acaba por aderir ao vocabulário dualista. Então, o termo materialismo traz associado o mentalismo, assim como objetividade evoca subjetividade.

O materialismo se caracteriza pela aversão ao conceito de consciência tratando-a como espaço de subjetividade fechado em si. Porém Searle mostra que a característica principal da consciência é a intencionalidade, ou seja, sua relação com o mundo. Para Searle a ciência se valeu da separação entre mente e matéria ocorrida no século XVII para progredir se baseando em fenômenos mensuráveis, entretanto essa visão torna-se obstáculo para o tratamento da mente cientificamente, no século XX, como um fenômeno biológico (como a fotossíntese ou a digestão, por exemplo).

Searle mostra que o modelo moderno de compreensão da realidade ao pressupor a objetividade tenta afastar a subjetividade. Porém, para ele, a subjetividade faz parte da realidade e, portanto, a consciência que aí é fenômeno biológico natural. Ora só temos acesso à realidade pela nossa subjetividade e mais do que isso, ela é um fato científico, uma verdade objetiva, também.

Baseado no modelo moderno que reduz a realidade observada a leis e fórmulas, o materialismo [reducionista], ao descrever a mente de forma objetiva e material, elimina a subjetividade e, portanto, o essencial da consciência.  Ora, isso não é possível, pois a subjetividade é irredutível, ela é um aspecto da realidade!

Remontando o problema da separação entre mente e matéria a Descartes (res cogitans versus res extensa), Searle trata essa suposição como obstáculo ao estudo do cérebro, já que a teoria dominante nas ciências é a materialista embora ele a classifique como uma variação de dualismo, pois mantém essa separação.

O dualismo considera a mente algo diferente, mas não a procura definir. As ciências causais não acham espaço para a complexidade do subjetivo que se expressam em primeira pessoa. Por exemplo, a dor é algo subjetivo, fenômeno mental e impossível de ser reduzida. Mesmo que se explique somente a própria pessoa sente. Ou seja, o explicar rejeita o aspecto subjetivo. E, se tentarmos evitar os aspectos mentais, não negaremos que “há um componente físico irredutivelmente subjetivo como componente da realidade física”.[i] Componente misterioso? Para o dualismo e materialismo sim, pois suprimem a subjetividade.

Portanto a irredutibilidade da compreensão da realidade, em nosso entendimento, significa que reduzimos o físico, mas não conseguimos reduzir o mental, ainda. E Searle a confirma, pois ao eliminar a consciência, as teorias negam fatos evidentes como nossas dores, alegrias e percepções. E isso o materialismo não pode fazer, pois a consciência é tanto um fenômeno mental, qualitativo e subjetivo, quanto uma parte natural do mundo físico; e, por ser subjetiva, a consciência é irredutível.

Pano de fundo da compreensão da realidade. Searle mostra o papel fundamental da filosofia da linguagem quando diz que para formar a concepção de o quer que seja no valemos de pressupostos que são o nosso Pano de Fundo. São pressupostos que no mais das vezes não questionamos assim como dualismo e materialismo e seus pressupostos epistemológicos de objetivo e subjetivo que, entretanto podem ter outro sentido, como por exemplo, o sentido ontológico.

Sentidos ontológico e epistemológico das palavras objetivo e subjetivo. Aqui se trata da distinção entre epistemologicamente subjetivo, epistemologicamente objetivo, ontologicamente subjetivo e ontologicamente objetivo. Episteme é conhecimento de algo, ontologia é existência de algo. Algo pode existir independentemente do sujeito, de modo objetivo: as árvores, o mar ou devido à nossa experiência, de modo subjetivo: as dores, sentimentos. Do mesmo modo, há um conhecimento, uma afirmação objetiva independente do sujeito: “Marx escreveu O Capital no século XIX” e a subjetiva: “as obras de Marx têm um estilo melhor que as de Weber”.

Portanto, se por um lado a consciência é subjetiva, é uma ontologia da primeira pessoa, por outro a episteme científica é objetiva. Mas, essa comparação não é equivalente, senão incoerente. O fato de a ciência buscar verdades epistemologicamente objetivas não impede uma investigação ontologicamente subjetiva. Candiotto ressalta que a distinção epistêmica corpo-mente inaugurada gerou, equivocada e inadvertidamente, a distinção ontológica entre corpo e mente. E esse é o ponto de Searle, o problema está na má compreensão da linguagem e nas divergências do uso dos termos.

O dualismo e o materialismo: a incoerência conceitual dos termos objetivo e subjetivo. Então cada uma das correntes tem influenciado a filosofia da mente com suas posições padrão: para o dualismo o indivíduo é corpo e mente (irredutibilidade do mental), mas distintos e para o materialismo há um mundo apenas físico (consciência deve ser redutível). Ou seja, para Searle, ambas não abordam a mente como aspecto do real e suas posições devem ser revistas.

Concluímos com as indicações de Searle, tomadas por Candiotto, de que devemos superar o problema metafisico corpo-mente tratando a consciência como resultado de processos cerebrais e abandonar aquele vocabulário obsoleto. Segundo Searle, é preciso buscar alternativas para rejeitar as pressuposições categoriais de corpo-mente, matéria-consciência e compreender a consciência como fenômeno biológico baseado em uma ontologia subjetiva. Somente transpondo certos compromissos filosóficos podemos avançar em um novo rumo na filosofia da mente.


Conforme “JOHN R. SEARLE e os impasses epistemológicos das argumentações do dualismo e do materialismo monista referentes à Filosofia da Mente.” Por Kleber Bez B. Candiotto, publicado na Revista de Filosofia Aurora, PUCPR. Acessado em 04/abril/2020: https://periodicos.pucpr.br/index.php/aurora/article/view/2116.

[i] Dado o padrão atual de redução em voga na realidade.