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terça-feira, 30 de setembro de 2025

Homeomerias

Verifica se a neve é preta[i]

Resumo: O texto aborda as ideias filosóficas de Anaxágoras, um filósofo pré-socrático que influenciou Sócrates. Anaxágoras é conhecido por sua teoria de que todas as matérias contêm sementes de todas as outras matérias, e que a matéria pode ser dividida infinitamente (tudo está em tudo). Ele também introduziu o conceito de "nous" (espírito), que é a única substância pura e responsável pelo movimento e organização do universo.

<<O tempo estimado para leitura é de ~ 6 minutos e vale a pena pois oferece a visão inovadora de Anaxágoras sobre a matéria e o espírito>>

Anaxágoras, que passou pela Grécia no chamado século de ouro[ii] e foi acusado de impiedade[iii], é conhecido por ter levado a filosofia para Atenas e influenciado Sócrates. Ele é um dos filósofos da natureza (filósofos físicos) e se pergunta como a carne pode vir da não carne, isto é, do pão. Ora, somos feitos de carne e ossos, mas não comemos carne e ossos, comemos pão e bebemos água. A partir disso, ele acreditava que um elemento não pode ser transformado em outro, então nos alimentos deveria haver partes que produzem sangue e tendões, por exemplo.

Para ele, em cada porção de matéria, seja pão ou ferro, haveria pequenas sementes de todas as outras matérias, pedacinhos pequenos de carne, osso, ferro, sangue e assim por diante. E isso, para ele, era uma necessidade lógica. Havia infinitas coisas e infinitamente minúsculas em cada matéria, por menor que fosse ainda haveria infinitas partículas. Tudo infinitamente misturado e indistinto, todas as coisas contidas em tudo. Assim, não há vazio, há um todo pleno, mas misturado, já que em uma mínima partícula de ferro haveria infinitas incontáveis partículas de tudo[iv].

Dessa maneira, Anaxágoras rompe com o pensamento de haver um, dois ou quatro elementos, vigente na época[v]. Os elementos de Empédocles, conforme citação de Aristóteles em “Do Céu”, ar ou fogo, já seriam uma combinação de partículas que o estagirita chamou de homeomerias[vi], coisas homogêneas em si[vii]. Importa ressaltar, como Fontes nos lembra, que hoje sabemos que há em torno de cem elementos na natureza (os elementos químicos), isto é, nem tão pouco e nem infinitos.

Na discussão da época, Demócrito e Leucipo pensavam que um objeto seria dividido até o ponto do átomo porque o ser deveria ser indivisível, já Anaxágoras planteou que a matéria poderia ser dividida infinitamente. De outro lado, também não há limite de grandeza. E a matéria sempre permanece quando um corpo nasce ou morre: nada se cria ou se perde, ao contrário, se une ou se separa (conforme nota 4).

Porém, há um princípio movente, o espírito que existe sozinho, de per si. A única coisa pura, o nous, é um tipo de matéria que não se mistura e, assim, age de modo livre e dirige a vida. O nous é sutil e beira o imaterial, ele tudo permeia. Foi ele que deu o impulso inicial, como um turbilhão, movimento rotatório que vai movendo e expandindo e notamos aqui, como ressalta Fontes, a base física [dos filósofos físicos] da cosmologia de Anaxágoras. O espírito faz a matéria se mover de forma rotatória, circular e que tem a capacidade de continuar indefinidamente, aí até chegar na revolução dos astros[viii].

Diferentemente, então, das outras substâncias nas quais tudo está misturado (homeomerias), mas uma coisa se destaca por exemplo, no algodão há mais predominância de algodão, o espírito é todo igual. E é eterno, presente em tudo e transformando tudo. Segundo a interpretação de Teofrasto, haveria apenas dois primeiros princípios presentes na visão de Anaxágoras: a substância do infinito e o Espírito. Um dualista: matéria misturada [passiva] e o princípio movente indistinto.

Para Aristóteles, na Física, a visão infinita de Anaxágoras adviria de que nada nasce do não-ser, as coisas nascem a partir de mudanças qualitativas; de um contrário provem o outro sem mudar em si, apenas “mostrando outra face”, poderíamos dizer. Essa é uma visão física que se aproxima da de Parmênides, na medida que nega o não-ser, as coisas nascem do que já existe, coisas muito pequenas que nos são imperceptíveis, mas cada coisa já contém tudo, tudo já está lá. Fontes cita uma crítica jocosa de que, para Anaxágoras, a neve até poderia ser preta, porque todas as cores estariam presentes em todas as coisas, embora o branco se destaque (tudo em tudo e nada vem do nada).

Fontes nos lembra uma crítica socrática, também, de que o espírito em Anaxágoras não é um princípio inteligente porque ele age somente no início fazendo com que as coisas se separem e se consolidem: a terra se solidifica, a água se separa das nuvens, mas de forma “cega”, sem um princípio racional. O espírito, assim como a matéria, é infinito e poderia haver outros lugares como o nosso, que tenham sofrido o mesmo processo de separação, que tenham um sol, uma lua e pessoas vivendo do modo como vivemos[ix].

Por outro lado, ele acreditava que a terra era plana, já que a ideia pitagórica de que a terra é redonda ainda não tinha sido difundida. Ela flutuaria no ar, infinito, que a seguraria. Anaxágoras enfatiza o ar e o éter, que circundam o mundo[x]. Há teorizações sobre as estrelas, eclipse e outras proposições como os animais tendo surgido da umidade, ainda arcaicas dado o desenvolvimento embrionário da ciência, mas já próximas do que postula o conhecimento científico atual. Por fim, fontes ressalta que os pré-socráticos são considerados dogmáticos porque afirmam suas ideias e, nesse sentido, são pouco influenciados pelo ceticismo, embora Anaxágoras já tenha produzido uma teoria da percepção e deficiência dos sentidos.



[i] Fichamento-resumo de Anaxágoras – Espírito e Matéria: https://www.youtube.com/watch?v=FhhKDAiv4jk, canal Filosofia Clássica. Vale ver a aula para conferir as citações e sua parte visual – professor Fabrício Fontes - https://www.escavador.com/sobre/4764661/fabricio-soares-santos-fontes.

[ii] Atenas do século V, entre 480 e 404 a.C., ficou conhecida como a Era de Ouro de Atenas, sendo a última parte a Era de Péricles, foi impulsionada pela hegemonia política, crescimento econômico e florescimento cultural.

[iii] Por ter negado a divindade do Sol, pois o via como uma pedra incandescente.

[iv] A única resposta logicamente satisfatória para ele era: o pão já deveria conter sementes (ou "homeomerias") de carne, osso e sangue em quantidades muito pequenas. O processo de nutrição e crescimento seria apenas o isolamento e a organização dessas sementes que já estavam lá. Em essência, ele resolveu o problema da mudança: a mudança não é a criação de algo novo do nada, mas sim a reorganização de elementos que já existiam na mistura. (Gemini https://g.co/gemini/share/d8f7d7fd858b)

[v] Ruptura com a Tradição Elementar. Anaxágoras é classificado como um filósofo pluralista, e sua ruptura se deu contra as escolas monistas (Um Elemento): Filósofos como Tales (água), Anaxímenes (ar) e Heráclito (fogo) buscavam a Arché (princípio originário) em um único elemento e dualistas/pluralistas Limitados (Dois ou Quatro Elementos): Empédocles, por exemplo, estabeleceu os famosos quatro elementos (terra, água, ar e fogo) como os princípios básicos imutáveis da realidade. Anaxágoras, ao postular que a matéria não se resume a quatro elementos, mas sim a uma infinidade de sementes com diferentes qualidades (haveria sementes de ouro, sementes de pedra, sementes de carne, e assim por diante), introduziu um grau de pluralismo qualitativo muito mais radical. Para ele, os elementos de Empédocles eram apenas substâncias complexas e perceptíveis, e não os verdadeiros constituintes últimos e eternos da realidade. (Gemini https://g.co/gemini/share/d8f7d7fd858b)

[vi] Anaxágoras chamava essas substâncias de sementes ou espermata.

[vii] Uma homeomeria (omoioméreia) é toda parte elementar igual ao conjunto que com outras partes conforma, em onde o todo composto pelas partes é similar às partes mais elementares e indivisíveis da matéria (https://pt.wikipedia.org/wiki/Homeomeria).

[viii] Cabe ressaltar que esse movimento rotatório se expande indefinidamente e, através da força centrífuga, começa a separar e ordenar a matéria. Onde antes havia apenas a mistura, agora a matéria mais densa e pesada é jogada para o centro (formando a Terra), e a mais sutil e leve é expelida para a periferia (formando o ar, o éter e os astros). (Gemini https://g.co/gemini/share/d8f7d7fd858b)

[ix] A possibilidade de outros lugares iguais ao nosso também estaria presente na teoria de Anaximandro, conforme o autor.

[x] Ar e éter remetem diretamente à forma como Anaxágoras descreveu o resultado do grande turbilhão cósmico iniciado pelo Nous. Em sua cosmogonia, o ar e o éter surgem como as substâncias que foram separadas da mistura primordial: a Matéria Pesada (Terra): durante o movimento rotatório, a matéria densa e úmida foi forçada para o centro, resultando na formação da Terra. O Ar e o Éter, matérias mais leves e sutis (que eram originalmente "quentes, secos, brilhantes e tênues") foram expelidas para a periferia pelo movimento giratório. Essa matéria leve deu origem ao Ar (a camada mais próxima da Terra) a ao Éter (a camada mais externa e rarefeita, onde os corpos celestes se formaram). Para Anaxágoras, os astros (como o Sol e a Lua) eram pedras incandescentes que foram arrancadas da Terra e, graças ao movimento acelerado do éter, foram arremessadas para o espaço. O calor dos astros vinha da velocidade do movimento e da fricção com o éter. Portanto, o ar e o éter são elementos cruciais na física de Anaxágoras, pois representam as porções mais leves e quentes da matéria que foram separadas para formar o cosmos ordenado. Gemini https://g.co/gemini/share/d8f7d7fd858b)

domingo, 15 de setembro de 2019

Criticismo Filosófico [i]

A Ideia Absoluta de Hegel. Russell diz que é prática comum na filosofia o uso de um raciocínio metafísico a priori para tratar de dogmas da religião, universo, matéria, etc., que, porém, não sobreviveria a um escrutínio crítico. Para ele, o representante desse pensamento é Hegel, que estabelece que o todo é composto por partes fragmentárias incapazes de existirem sem o resto do mundo.  Nesse sentido, o filósofo, a partir de qualquer amostra de realidade pode ver o todo, como se cada pedaço fosse enganchado com o próximo e assim por diante. Russell diz que, de acordo com Hegel, essa incompletude aparece tanto no mundo das coisas quanto no dos pensamentos, composto por ideias enganchadas que, através da contradição, uma ideia se transforma em antítese para daí virar síntese que, ainda incompleta, inicia um novo ciclo e, sucessivamente, avança até a "Ideia Absoluta".[ii] Essa ideia absoluta descreve a realidade absoluta que seria o que Deus vê: uma unidade espiritual imutável, perfeita e eterna.
Os problemas com a Ideia Absoluta. Russell argumenta que, apesar de parecerem sublimes, ao serem investigados os argumentos são confusos. Hegel diz que o que é incompleto não subsiste por si só e depende de relações com outras coisas que fazem parte de sua natureza. Por natureza de uma coisa, Russell entende que seja “all the truths about the thing”. Se parece claro que a verdade que liga uma coisa à outra não subsiste se a outra coisa não subsiste, essa verdade não é parte da coisa, mas, segundo Hegel, é parte da natureza da coisa. Russell, então, enfatiza a confusão da natureza entre conhecimento de coisas e conhecimento de verdades. Se assumirmos que a natureza da coisa consiste nas verdades da coisa, deveríamos conhecer todas as relações da coisa com todo o universo, porém isso não é possível e ainda assim conhecemos a coisa, mesmo quando sua natureza não é completa. Conhecemos uma coisa por familiaridade até mesmo sem conhecer nenhuma proposição da coisa. Ou seja, conhecer uma coisa não requer conhecimento da natureza da coisa, conforme acima, embora esse conhecimento esteja envolvido no conhecimento de qualquer proposição da coisa[iii]. Russell diz que o fato de uma coisa ter relações não quer dizer que elas sejam logicamente necessárias já que não podemos deduzir suas relações, somente o faríamos depois de conhecê-las. Ou seja, não podemos provar que o universo forma um todo como queria Hegel, e o que se seguiria disso: a irrealidade do espaço, tempo, matéria, etc. O resultado é a inviabilidade de uma análise sistêmica e a filosofia segue a análise indutiva e científica.
Argumentação Metafísica. Segundo Russell, o trabalho metafísico se assentou em provar que as características do mundo eram autocontraditórias e por isso não reais. Porém, os modernos vão no sentido de mostrar que essas contradições eram ilusórias e que muito pouco pode ser provado a priori de considerações do que deve ser. Por exemplo, espaço e tempo parecem ser infinitos em extensão, por mais que tentemos não achamos um fim. Por menor que seja um espaço ou tempo sempre podemos dividi-los novamente e assim sucessivamente até o infinito. Porém, contra esses fatos aparentes, filósofos argumentaram que não haveriam coleções infinitas de coisas. Daí surge uma contradição entre a aparente natureza do espaço e do tempo e a suposta impossibilidade de coleções infinitas. Quando Kant enfatizou essa contradição deduzida da impossibilidade do tempo e do espaço declarados por ele subjetivos, os filósofos trataram tempo espaço como sendo aparentes e não fazendo parte do mundo real, como ele é.
Contribuição da Lógica. Porém o trabalho de matemáticos, principalmente Cantor, mostrou que a impossibilidade de coleções infinitas era um erro, invalidando uma das grandes construções metafísicas. Conforme Russell: "They are not in fact self-contradictory, but only contradictory of certain rather obstinate mental prejudices". Os matemáticos não só mostraram que o espaço como se supõe ser é possível, como também que outras formas de espaço são possíveis como a lógica pode mostrar. Por exemplo, alguns axiomas de Euclides que influenciaram filósofos retiraram sua aparente necessidade de nossa familiaridade com o espaço atual conhecido e não com alguma fundação lógica a priori. Imaginando mundos em que esses axiomas fossem falsos, os matemáticos criaram espaços diferentes do nosso e mesmo colocando em dúvida se nosso espaço é estritamente euclidiano. Até então a experiência descrevia uma possibilidade de espaço que a lógica mostrou impossível, agora a lógica mostra muitos espaços possíveis que a experiência apenas parcialmente decide entre eles. Russell abre o mundo para enormes possibilidades onde pouco é conhecido: "Thus, while our knowledge of what is has become less than it was formerly supposed to be, our knowledge of what may be is enormously increased". A lógica, então, torna-se a grande libertadora da imaginação apresentando inúmeras alternativas para a experiência decidir, quando possível, entre os mundos oferecidos.
Criticismo Filosófico. O conhecimento, não fica limitado à experiência atual, mas ao que podemos aprender da experiência, conforme o conhecimento por descrição, que não se prende a uma experiência direta. Nesse tipo de conhecimento, porém, precisamos de uma "conexão de universais" que nos permite inferir um objeto de um dado. É a conexão de universais que nos permite extrair dados-dos-sentidos de objetos físicos, ou seja, dá munição para a experiência, assim como da lei da causalidade para lei da gravitação. A lei de gravitação, segundo Russell, é uma combinação da experiência com um princípio a priori como o princípio de indução.[iv] O conhecimento filosófico é um tipo de conhecimento científico, a diferença é o criticismo que procura inconsistências nos conhecimentos científicos e da vida diária. Embora a investigação de Russell tenha refutado, criticamente, um sistema metafísico como não estando a altura da ciência, ao contrário, a crítica filosófica corrobora em muito o conhecimento empreendido pela humanidade. Porém, Russell impõe um certo limite na crítica já que um ceticismo absoluto (blank doubt) impede qualquer tipo de conhecimento tornando-se destrutivo. A essência da crítica, para Russell, é a dúvida metodológica cartesiana, analisando cada aspecto do conhecimento, como feito nessa investigação com os dados-dos-sentidos que pareciam indubitáveis e levaram a rejeitar uma semelhança direta com o objeto físico. A filosofia não rejeitaria um conhecimento impassível de objeção. O criticismo filosófico analisa cada parte aparente de conhecimento em seu mérito e retém o que se mostra ser de fato um conhecimento, admitido o erro proveniente da falibilidade humana. Ocorre que a filosofia reduz a chance desse erro tornando-o às vezes irrisório, mais do que isso não é prudente esperar.




[i] Bertrand Russell, Problems of Philosophy. THE LIMITS OF PHILOSOPHICAL KNOWLEDGE. Acessado em 18/7/2019: http://www.ditext.com/russell/rus14.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/08/conhecimento-erro-e-opiniao-provavel.html.
[ii] Ideia absoluta que “has no incompleteness, no opposite, and no need of further development”.
[iii] Hence, (1) acquaintance with a thing does not logically involve a knowledge of its relations, and (2) a knowledge of some of its relations does not involve a knowledge of all of its relations nor a knowledge of its 'nature' in the above sense.
[iv] Thus our intuitive knowledge, which is the source of all our other knowledge of truths, is of two sorts: pure empirical knowledge, which tells us of the existence and some of the properties of particular things with which we are acquainted, and pure a priori knowledge, which gives us connexions between universals, and enables us to draw inferences from the particular facts given in empirical knowledge. Our derivative knowledge always depends upon some pure a priori knowledge and usually also depends upon some pure empirical knowledge.