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terça-feira, 21 de abril de 2026

Racionalidade, verdade e justificação

Apresenta a abordagem pragmática de Habermas sobre verdade e justificação, além de destacar os diferentes tipos de racionalidade[i]

Em Verdade e Justificação (1999), Habermas trata de verdade e justificação de maneira pragmática, ante a pressupostos fundacionalistas e escapando de uma visão realista. A sua epistemologia, conforme Araújo, passa pelos tipos de racionalidade, uma abordagem pós giro linguístico e pragmático[ii] e, por fim, verdade e justificação.

* * * Os tipos de racionalidade * * *

A racionalidade reflexiva está relacionada às convicções que as pessoas expressam e na liberdade de escolha. A racionalidade epistêmica está ligada aos nossos juízos e pretensão de verdade, onde há necessidade de justificação e aceitação racional por uma terceira pessoa e por um saber que pode ser testado. Já a racionalidade teleológica é atividade que busca fins e se orienta pelo êxito e as sentenças intencionais não se furtam a fatores psicológicos.

Por fim, a racionalidade comunicativa se diferencia porque produz entendimento[iii] guiado por processos intersubjetivos situados no mundo da vida. Conforme cita Araújo, a fórmula é “entender-se com alguém, a respeito de algo” (p. 117), isto é, significado + uso. O ato de fala tem como objetivo ilocucionário ser compreensível pelo ouvinte na medida em que sua verdade pode ser justificada por argumentação racional[iv].

Pela TAC, por um lado, objetivos ilocucionários levam ao entendimento e, por outro, intervenções no mundo tem efeitos perlocucionários[v], quais sejam, tem influência causal[vi]. Se os usos teleológico e epistemológico não pautam a interação e vida em sociedade, os atos de fala levam o outro a se posicionar e é no telos da linguagem que o entendimento habita.

Em um diálogo, se afirmo “que p”, a respeito de um estado de coisas, não preciso argumentar porque a verdade reside na representação daquele estado (uso epistemológico). Porém se afirmo “que p” visando concordância o ato de fala deve ser assertórico, deve ser reconhecido como verdadeiro. Tudo isso dentro da linguagem e da prática discursiva que considera o contexto do mundo da vida e das práticas inerentes a ele, como tradições, costumes e meios técnicos que conduzem a nossa capacidade de solucionar por problemas e, por consequência, formar crenças e agir.

* * * Verdade e justificação * * *

Para Habermas, a verdade é testada no discurso, mas pretende valer além dele. Em Habermas, conforme Araújo, os enunciados verdadeiros situam-se numa tensão entre a justificação discursiva e a pretensão de validade que transcende os contextos. A verdade é construída linguisticamente, mas aponta para a realidade, sendo sustentada por pretensões de validade como sinceridade, publicidade e equidade, que são testadas e revistas em processos de aprendizagem histórica, e não fundadas em princípios a priori.

Justificamos no discurso, mas ainda buscamos uma verdade que dependa do mundo. Então, a verdade [pretendida] é examinada por meio do discurso intersubjetivo, no qual enunciados falíveis são justificados publicamente. Porém, surge o problema de como a verdade pode ajustar-se aos fatos, se, como observa Wittgenstein, não podemos duvidar de tudo e partimos de certezas do mundo da vida, enquanto os enunciados se constituem dentro de contextos linguísticos e crenças compartilhadas que não se reduzem ao contextualismo, como em Rorty.

O discurso justifica entre nós, mas a verdade aponta para o mundo. Há tanto processos de justificação quanto a pretensão de verdade voltada ao mundo objetivo. Os conteúdos veritativos referem-se aos fatos por meio de recursos semânticos, constituindo as duas faces de Jano após a virada pragmática: de um lado, a justificação discursiva; de outro, a referência à realidade, ambas necessárias para a ação comunicativa e para que o discurso contraia laços com o mundo.

Habermas tenta salvar a modernidade sem voltar aos fundamentos absolutos nem cair no relativismo. De acordo com Araújo, Habermas assume uma posição intermediária que tenta salvar o projeto moderno. Ele reafirma o compromisso com os ideais da modernidade, mas evita tanto o idealismo subjetivo quanto o realismo empírico de base analítica, criticando também o contextualismo radical, o ceticismo e o relativismo das concepções pós-modernas[vii].

O discurso nos aproxima da verdade, mas a verdade não se reduz ao consenso. Habermas procura evitar que a assertibilidade racional sob condições ideais seja confundida com o conceito de verdade. Embora o acesso à verdade permaneça discursivo, um enunciado deve satisfazer uma propriedade de verdade que vai além da justificação. O discurso funciona como filtro para examinar pretensões de validade e estabelecer condições de verdade para crenças empíricas, que, no mundo da vida, servem de base segura para a ação.

Primeiro agimos com certezas; quando elas falham, começamos a discutir. Cabe notar que, no trato cotidiano com o mundo, formamos expectativas e só debatemos a validade dos enunciados quando essas crenças falham. Assim, a distinção entre verdade e justificação atribui funções diferentes à ação e ao discurso: a ação depende de crenças tidas como verdadeiras, enquanto o discurso examina criticamente pretensões de verdade.

A verdade transcende a justificação, mas só acessamos a verdade pela justificação. Como no discurso os falantes pretendem uma verdade que transcende a justificação, o exame da verdade ou falsidade dos enunciados aproxima o conceito de verdade da aceitabilidade racional. Surge então o impasse entre aceitar a pretensão de verdade de “p”, bem justificada, ou a própria verdade de “p”, impasse que se resolve pelo modo como o discurso é usado para examinar criticamente essas pretensões.

Quando a prática falha, discutimos; quando aprendemos, voltamos a agir — mas agora com saber falível. No uso cotidiano, quando as práticas fracassam, recorre-se ao discurso para examinar crenças e produzir razões que permitam retomar a ação com confiança. Nesse processo há aprendizagem, mas o saber resultante permanece falível e revisável, ao contrário das crenças, que produzem certeza para a ação[viii].

A verdade surge quando crenças, mediadas pela linguagem, aprendem com a resistência do mundo. Habermas supera o mito do dado, rejeitando a ideia de um enunciado que confronta diretamente a realidade. A verdade, no pragmatismo formal, depende de aprendizado constante em uma teia holista de crenças mediadas pela linguagem. Contudo, isso não implica mera coerência entre crenças, nem correspondência direta com o mundo. A verdade envolve referência ao mundo independente, mas mediada linguisticamente, e exige que os enunciados possam ser criticados e eventualmente refutados.

A verdade não nasce da linguagem, mas só pode ser alcançada por práticas linguísticas que aprendem com um mundo independente. Para Habermas, a verdade não é metafísica, mas deflacionada e ligada às práticas linguísticas intersubjetivas, que permitem justificar crenças sobre um mundo objetivo independente. A verdade não se reduz à justificação, mas só pode ser acessada por ela, superando o dualismo entre interior e exterior dentro de um realismo pragmático moderado.

A verdade não está apenas nas sentenças, mas na cooperação discursiva que sustenta a ação no mundo. Habermas supera o conceito neopositivista de significado como verdade, incorporando a ideia de significado como uso. No realismo moderado, a verdade não é apenas uma propriedade semântica da sentença, mas também desempenha papel pragmático ligado à ação e à assertibilidade justificada no discurso. Já na Teoria da Ação Comunicativa, a verdade é buscada cooperativamente, por meio do exame argumentativo de pretensões de verdade que orientam a ação.

Falar com validade não é apenas convencer, mas reivindicar uma verdade que deve resistir ao melhor argumento livre e público. Para Habermas, o valor ilocucionário de uma afirmação não se sustenta apenas em certezas práticas ou justificações, mas exige um conceito epistêmico de verdade, estruturado pragmaticamente por condições como participação pública, ausência de coação e sinceridade, ainda que difíceis de alcançar.

A verdade é aquilo que orienta a ação como incondicional, embora permaneça sempre aberta à revisão pelo discurso. Araújo conclui que, na teoria discursiva da verdade, esta não se reduz à reprodução de fatos nem à mera aceitabilidade epistêmica, mas resulta da interpretação discursiva de argumentos com pretensão de verdade. Inserida no mundo da vida, a verdade orienta a ação por meio de proposições tomadas como incondicionalmente verdadeiras, embora sempre revisáveis, reflexivamente. Citando, por fim: “O nexo interno entre verdade e justificação se coloca nesse nível, reflexivo. A resposta a este problema vem da relação entre ação e discurso”.

* * * Resumo Storytelling por IA * * *

1. Saindo do relativismo: a verdade é testada no discurso, mas aponta para além do contexto. Habermas propõe um realismo pós-metafísico em que a verdade não depende de fundamentos absolutos, mas também não se dissolve no relativismo contextual.

2. Justificamos publicamente, mas ainda buscamos algo chamado verdade. A intersubjetividade nasce do mundo compartilhado, porém surge a tensão: se só temos justificações discursivas, como a verdade ainda pode corresponder aos fatos?

3. Duas faces da verdade: justificar entre nós e referir-se ao mundo. Habermas distingue entre processos de justificação discursiva e a verdade voltada à realidade objetiva - como uma "face dupla" da linguagem.

4. Uma modernidade sem absolutismos nem relativismos. Essa virada semântica reafirma o projeto moderno, evitando tanto o idealismo subjetivo quanto o relativismo pós-moderno.

5. Aceitabilidade racional não é o mesmo que verdade. Habermas mantém o discurso como caminho para a verdade, mas insiste que verdade não se reduz ao que é racionalmente aceito.

6. Agimos com crenças confiáveis, discutimos quando elas falham. No cotidiano, assumimos crenças como verdadeiras; o discurso surge apenas quando essas certezas entram em crise.

7. A verdade é pretendida além das justificações. Mesmo justificando discursivamente, os falantes continuam pretendendo uma verdade que transcenda essas justificações.

8. Do debate de volta à ação: quando a confiança retorna. O discurso restaura a confiança nas crenças e permite que voltemos à ação direta no mundo.

9. Aprender com o mundo: verdade como processo falível e progressivo: A verdade surge de aprendizado contínuo, onde crenças são revistas à luz da experiência.

10. Sem fundamentos absolutos: verdade dentro da rede de crenças. Habermas adota um antifundacionalismo em que verdade e justificação dependem de redes holistas de crenças.

11. Sem justificativa não há verdade, mas justificativa não basta. A verdade não se reduz à justificação, mas só pode ser afirmada por meio dela.

12. Significado no uso: a verdade como prática social. A verdade deixa de ser apenas propriedade semântica e passa a ter função pragmática na ação e no discurso.

13. Agir exige verdades confiáveis. Sem aceitar algumas verdades como confiáveis, não seria possível agir nem tomar decisões.

14. A verdade exige condições ideais de argumentação. A validade das afirmações depende de condições discursivas como sinceridade, abertura e ausência de coerção.

15. Verdade como resistência à refutação. Um enunciado é verdadeiro quando pode resistir a todas as tentativas de refutação em um discurso racional.

16. Entre ação e discurso: o nexo reflexivo entre verdade e justificação. A verdade é sempre revisável, mas necessária para a ação — e é nesse equilíbrio que Habermas encerra sua teoria.



[i] Notas resumo de Habermas e a questão epistemológica, terceiro tópico de “A natureza do conhecimento após a virada linguístico-pragmática” em  https://periodicos.pucpr.br/aurora/article/view/1483/1414. De autoria de Inês Lacerda Araújo.

[iii] Efevmo-me? https://bit.ly/efevmo-me-blog

[iv] Isso é possível? As pessoas estão dispostas a aceitar argumentos racionais?

[v] Conforme Austin https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/09/por-este-meio.html: Ilocução é o ato realizado ao dizer algo (como prometer, aconselhar ou ordenar), enquanto perlocução é o efeito produzido no ouvinte (como convencer, irritar ou enganar)..

[vi] Interessante que o papel perlocutório tem, sim, influência.

[vii] Seria (ChatGPT): Immanuel Kant → modernidade, G. W. F. Hegel → idealismo, Richard Rorty → contextualismo, Michel Foucault → crítica pós-moderna.

[viii] Três níveis: crença (certeza prática), discurso (justificação), saber (falível e revisável). 

terça-feira, 17 de março de 2026

O entendimento contra o dado

Quando entender passa por assumir compromissos

1. Sobre Sellars[i]. Wilfrid Sellars foi um dos mais importantes filósofos do movimento da filosofia analítica do século XX, integrando e reformulando tradições como o realismo crítico[ii], a epistemologia naturalista e a crítica ao fundacionalismo dentro desse quadro analítico[iii], em oposição ao “mito do dado” e à ideia de conhecimento imediato[iv]. Sellars tornou-se proeminente por sua crítica sistemática à noção de dados epistemológicos não inferenciais[v], pela distinção entre a imagem manifesta e a imagem científica do mundo[vi] e por articular uma forma inovadora de semântica funcional/inferencialista[vii], influenciando debates em epistemologia, filosofia da mente e da linguagem no pós-guerra.

Breves notas[viii]. Cabe ressaltar que há vários tipos de dados: dado epistêmico, categorial, etc. Há várias camadas que um iniciante em Sellars ainda não consegue explorar. Um ponto importante sobre o espaço das razões e o Inferencialismo, no caso uma teoria coerentista, é não ficar preso nos pressupostos conceituais, como sair de lá? Por fim, curiosidade: haveria sellarsianos de esquerda e de direita, conforme as imagens do mundo, normativa e social ou científica e copiando os hegelianos de direita e de esquerda.

2. Sellars no blog[ix]. Podemos agregar sobre sua crítica ao empirismo e o "Mito do Dado" que as experiências sensoriais, por si só, não constituem conhecimento, pois percepções podem ocorrer causalmente, mas só contam como conhecimento quando inseridas em uma prática conceitual e inferencial. Ele desenvolveu uma teoria inferencial do significado, na qual o ato de inferir é tratado como um ato social regido por regras de prática comunitária, opondo-se à ideia de que frases são apenas entidades abstratas e inertes.

3. Sellars na perspectiva da nossa série[x]. Ele se opõe ao empirismo ao criticar projetos fundacionalistas como o do Aufbau de Carnap, que buscava reconstruir o conhecimento a partir de experiências elementares. Embora compartilhe com Quine o holismo e a crítica aos dogmas tradicionais, Sellars se distingue pelo seu nominalismo psicológico, que versa que já há papel da linguagem mesmo nos níveis primeiros do conhecimento.

4. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Sellars[xi]. A nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?” cai muito bem dentro do projeto filosófico de Wilfrid Sellars, sobretudo na crítica ao Mito do Dado e na sua concepção inferencialista do significado e do entendimento. Vejamos.

5. Ouvir não seria entender: contra o “dado” linguístico. Podemos entender que, para Sellars, não existiria algo como um entendimento imediato, dado simplesmente pela audição de sons ou pela recepção passiva de estímulos linguísticos. Ouvir sons não seria compreender um enunciado. A nossa máxima poderia ser reformulada assim: “O fato de você receber um estímulo linguístico não implica que você esteja já no espaço do entendimento”.

Isso seria uma extensão direta da crítica ao Mito do Dado, já que não haveria conteúdos epistemicamente ou semanticamente autoritativos que se imporiam por si mesmos; nem percepção, nem linguagem “entrariam” prontas na mente.

6. Entender seria estar no “espaço das razões”. O ponto central de Sellars parece ser que entender uma fala é estar apto a justificar, inferir, corrigir e responder normativamente a ela. Assim, quando eu digo “eu falo e você me ouve”, você pode estar apenas no espaço das causas, onde sons causam estados auditivos, mas não necessariamente no espaço das razões, onde fazemos perguntas como: “O que segue disso?”, “O que conta a favor?” e “O que seria um erro aqui?”. Logo, o “mas entende?” marca exatamente a passagem problemática entre esses dois espaços.

7. O significado não seria algo que se recebe, mas algo que se exerce[xii]. Para Sellars, compreender uma expressão não seria ter uma imagem mental, nem seria associar um som a um objeto, mas seria dominar um papel funcional-inferencial dentro de uma prática linguística. Entender “p” seria, em parte, saber que outras proposições seguem de “p”; que evidências contariam a favor ou contra “p”; em que circunstâncias “p” deveria ou não ser afirmado. Assim, nossa máxima expressaria uma tese sellarsiana: A comunicação falha não por déficit acústico, mas por déficit de inserção inferencial.

8. Linguagem como prática normativa, não como transmissão. Ao contrário de um modelo “telegráfico” da linguagem (mensagem → receptor → significado), Sellars sustentaria que quando eu falo eu assumo compromissos; quando você ouve e entende, você reconhece e pode avaliar esses compromissos[xiii]. Portanto, quando eu pergunto “mas entende?”, a questão real é saber se você reconhece quais compromissos eu assumi ao dizer isso e quais compromissos isso impõe a você. Se não, houve som, mas não houve entendimento.

9. Uma formulação sellarsiana da nossa máxima. Em linguagem sellarsiana, ela poderia ser reescrita assim: “Eu produzo um evento sonoro linguisticamente articulado; você o recebe causalmente - mas você ingressou no espaço normativo das razões que lhe dá significado?” Ou, mais curto: “A audição é causal; o entendimento é inferencial.”

10. Conexão com nossa sequência até agora. No arco que vimos traçando, Sellars ocupa um lugar decisivo, já que, contra Carnap, as regras não são meramente formais e contra Quine, o normativo não se reduz ao comportamento. A máxima é, nesse sentido, uma frase anti-mitológica: ela recusa a ideia de que compreender seja algo dado, imediato ou automático. Em suma, para Sellars, nossa máxima exprime uma verdade central da filosofia da linguagem:  entre falar e entender há uma diferença normativa fundamental, não apenas um canal de transmissão de informação.



[ii] Para o realista, o mundo existe independentemente da nossa mente, porém nosso conhecimento sobre ele é mediado. Podemos consultar os idealistas: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/01/breves-ideias-sobre-locke-berkeley.html.

[iii] A epistemologia naturalista é uma reação ao fundacionalismo clássico e ganha força com Quine, que propôs naturalizar a epistemologia, transformando-a em parte da psicologia empírica. Assim, o estudo do conhecimento se dá em continuidade com as ciências empíricas, especialmente a psicologia e as ciências cognitivas e não deve ser feito a partir de fundamentos puramente a priori ou “transcendentais”. Então, ao invés de perguntamos “Quais são as condições filosóficas últimas que justificam o conhecimento?”, a epistemologia naturalista pergunta “Como, de fato, os seres humanos formam crenças e quais mecanismos tornam essas crenças confiáveis?”

[iv] Não há “dados puros” dados à consciência. Ou, o “Mito do Dado” é a crença de que existiriam conteúdos imediatamente dados à mente que já teriam autoridade epistemológica por si mesmos, como “Vejo vermelho, logo tenho conhecimento direto de vermelho”. Na empiria clássica, haveria um nível básico de conhecimento não inferencial que serviria de fundamento para todo o resto. Há sensação no espaço das causas, mas para que algo conte como conhecimento, é necessário que esteja inserido no espaço das razões.

[v] Não há um estágio epistemicamente autônomo de “crença não inferencial” que fundamente o resto. Mesmo crenças perceptivas “básicas” (como “isso é vermelho”) só contam como crenças porque já pertencem a uma prática linguística normativa. Elas podem ser não inferidas, mas não são pré-conceituais nem independentes do domínio inferencial

[vi] A imagem manifesta do mundo, isto é, tal como aparece na experiência comum pode ser integrada (ou reinterpretada) à luz da imagem científica do mundo, descrito pelas ciências.

[vii] Em vez de dizer que as palavras são etiquetas coladas nas coisas, Sellars diz que a linguagem é um sistema de regras. Ter um conceito ou saber um significado é como saber "conduzir-se" dentro do espaço das razões: é saber quais conclusões você pode tirar de uma frase e quais frases justificam o que você está dizendo. Portanto, o significado é o papel funcional que uma expressão ocupa dentro de uma vasta rede de inferências e usos sociais

[viii] EP. 70 - Hegel, Sellars, Filosofia Analítica e História da Filosofia: https://www.youtube.com/watch?v=mgY0X8ywoOo, Neste episódio, conversamos com J.-P. Caron (UFRJ) sobre a relação de Hegel com a filosofia analítica, sua influência sobre Wilfrid Sellars e a chamada Escola de Pittsburgh e uma forma global de se enxergar a filosofia. Caron trata também dos pressupostos metodológicos dominantes, aspectos descritivos e normativos do fazer filosófico e seus desdobramentos políticos. Por fim, ele discute a relação entre passado e presente: como utilizar frutiferamente o pensamento de grandes filósofos de outras épocas para compreendermos aspectos contemporâneos sem distorcer aquilo que falaram.

[x] Idem.

[xi] Conforme temos dito, para a série EFEVMO-ME temos usado o ChatGPT para gerar o conteúdo de resposta do filósofo para a nossa máxima e fazemos uma revisão. São dois objetivos: o primeiro é escrutinar a máxima do ponto de vista do filósofo e o segundo é fazer uma aproximação conceitual do filósofo, de maneira geral. Mostrando postagens com marcador efevmo-me: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/search/label/efevmo-me. No Canal: https://youtube.com/playlist?list=PLnDky5U6KdTn7T-fRc3YWlosgMpPVzH9k&si=I2HECee5weE_WO13 - FEVMO-ME, por Luís Quissak, Playlist, Público, 6 vídeos, 44 visualizações “Eu falo e você me ouve, mas entende?”.

[xii] Aqui é pura semântica e depois podemos explorar dot-quotation.

[xiii] Aqui pode ser que já estejamos transicionando para Robert Brandom: https://www.youtube.com/@BobBrandomPitt.