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sábado, 16 de maio de 2026

O entendimento da potência ao ato

Quando o ouvir é potência e o entender é ato

1. Sobre Aristóteles[i]. Aristóteles pertenceu à tradição da filosofia grega clássica e se distingue de seu mestre Platão por fundamentar o conhecimento na investigação das causas imanentes às coisas. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, ambos são considerados os maiores filósofos de todos os tempos. Além disso, a obra aristotélica abrange uma impressionante variedade de áreas, desde a lógica, metafísica, ética, política, retórica, estética e até biologia empírica. Assim estabelece métodos e conceitos fundamentais que estimularam debates filosóficos por mais de dois milênios.

2. Aristóteles no blog[ii]. Aparece como o fundador da lógica e da metafísica, tendo sistematizado o pensamento ocidental por meio do silogismo e da doutrina das quatro causas (material, formal, eficiente e final) para explicar a origem e o propósito de todos os seres. Ele definiu a substância (ousia) como a categoria primordial do ser e o sujeito último de toda predicação, defendendo que a forma é imanente aos objetos físicos e não transcendente como em Platão.          

Na sua filosofia natural, descreveu a alma como a "forma" que faz o corpo orgânico funcionar, dividindo-a em faculdades vegetativa, sensitiva e racional, sendo esta última a base para a ética da virtude e, em seu horizonte mais elevado, a busca da felicidade (eudaimonia) através da atividade contemplativa. Além disso, sua epistemologia distingue episteme (conhecimento teórico da natureza ou physis) e techne (saber prático e produtivo), influenciando o desenvolvimento científico até a modernidade.Parte superior do formulárioParte inferior do formulário

3. Aristóteles na perspectiva da nossa série[iii]. Aristóteles dialoga com os autores da série efevmo-me ao fundamentar o entendimento na relação entre a alma racional (nous) e a realidade concreta, recusando o dualismo de Descartes ao defender que a alma é a "forma" imanente do corpo e não um "fantasma na máquina"[iv]. Enquanto Kant desloca a lógica para o sujeito transcendental e a síntese das representações como condições de possibilidade do conhecer, Aristóteles a mantém ancorada na estrutura do ser para descrever suas propriedades em caminho oposto. Sistematicamente, em Aristóteles do ser ao pensamento e, em Kant, do pensamento ao fenômeno (a famosa revolução copernicana).

Em contraste com o materialismo de Marx, que vê a consciência como produto das condições materiais de existência, e a razão comunicativa de Habermas, que busca o entendimento no espaço público intersubjetivo, Aristóteles foca na virtude e na atividade contemplativa como caminho para a felicidade (eudaimonia). Por fim, sua divisão ontológica das faculdades da alma oferece um paralelo estrutural da divisão de Sellars entre senciência e sapiência (sentir x saber) que serve de base para o ingresso normativo no "espaço das razões" linguisticamente construído. Ressaltando que o nous, uma das faculdades da alma aristotélica, não é apenas uma construção linguística, mas uma faculdade que capta a essência real das coisas.

4. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Aristóteles[v]. Pela lente de Aristóteles, a máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?” tocaria diretamente o núcleo da teoria aristotélica do logos, do significado e da comunicação. A resposta aristotélica seria, em linhas gerais, que ouvir não é ainda entender e que entender exige uma partilha de formas inteligíveis.

5. Som (phone) e logos (λόγος). No Da Interpretação (Peri Hermeneias), Aristóteles trata de sons vocais como símbolos das afecções da alma, e as letras símbolos dos sons. Então, há um som qualquer, mas há um som que significa algo por convenção, aí temos um nome e só depois teremos logos, um enunciado que já está chegando no discurso apofântico, que pode ser verdadeiro ou falso, ao contrário de ordens, perguntas e desejos. São enunciados que afirmam ou negam coisas sobre o mundo.

Já na Política, Aristóteles indica que a phoné está associada aos animais, por exemplo, um grunhido que expressa um prazer. O ser humano, possui logos que expressa o bem e mal, faz julgamentos. Vamos lembrar que o ser humano é tido com um animal mais político que abelhas ou outros gregários, pelo fato de logos, discussão de valores e isso se dá na polis.

Assim, em “Eu falo e você me ouve” isso ainda está no nível da phoné. E quando surge a pergunta “mas entende?” indica-se que nem todo som ouvido é apreendido como portador de sentido.

6. Significar é evocar uma forma na alma. Aristóteles afirma que as palavras são símbolos das afecções da alma, e que essas afecções são semelhanças (homoiómata) das próprias coisas. Ou seja, poderíamos inferir que entender não é apenas ouvir um som, mas atualizar na alma a mesma forma inteligível que o falante pretende significar. Se o som chega ao ouvido, mas não desperta a forma correta no intelecto, não há entendimento.

7. Entender exige um koinón (algo comum[vi]). Para Aristóteles, a comunicação só funciona porque há uma natureza humana compartilhada, formas inteligíveis comuns, hábitos linguísticos e conceituais partilhados. A nossa máxima poderia ser lida, aristotelicamente, como a constatação de que o lógos só se completa quando há comunhão de formas, não apenas transmissão de sons. Sem esse koinón, a fala falha enquanto lógos, mesmo que funcione como som.

8. A ambiguidade e o equívoco. Aristóteles também enfatiza que palavras são convencionais, o mesmo som pode significar coisas diferentes, o equívoco é estrutural à linguagem. Assim, você pode ouvir perfeitamente e ainda assim apreender outra forma, outro sentido, ou nenhum sentido[vii]. Então, nossa máxima captura exatamente essa possibilidade permanente de desalinhamento semântico.

9. O papel do intelecto ativo. No De Anima, Aristóteles distingue o intelecto passivo, aquele que recebe, do intelecto ativo, aquele que atualiza. Ouvir pertence ao nível sensível. Entender pertence ao nível intelectual. Portanto, nossa pergunta final “mas entende?” seria, para Aristóteles, uma pergunta que busca saber se o seu intelecto passou da potência ao ato, não obstante a obscuridade dessa passagem.

10. Formulação aristotélica para a nossa máxima. Se Aristóteles reescrevesse nossa frase, ela poderia soar assim: “Proferi sons significativos; teus sentidos os receberam. Mas a forma que atualizaste na alma é a mesma que intencionei?”. Em termos aristotélicos, nossa máxima expressa que falar é diferente de significar com sucesso e ouvir é diferente de compreender. Se a compreensão exige comunhão de formas inteligíveis, então a falha comunicativa não é acidental, mas estrutural.

Etimologias

Phone: φωνή (phōnē): voz, som, tom ou linguagem.

Logos: λόγος (logos): palavra, discurso, razão, argumento ou ordem cósmica.

Homoiómata: ὁμοιώματα: semelhanças, figuras, formas ou aparências.

Koinon: coisa comum, público ou partilha. Koinonia (comunhão).



[ii] Com base no histórico do Blog, entre outras: Lógica Aristotélica (2025): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2025/11/logica-aristotelica.html, Alma feliz (2024): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/11/alma-feliz.html, A primeira doutrina da substância (2016): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2016/03/a-primeira-doutrina-da-substancia.html, Teologia aristotélica (2016): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2016/06/teologia-aristotelica.html, Causalidade, acaso e necessidade em Aristóteles (2021): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/04/causalidade-acaso-e-necessidade-em.html e Sobre a evolução científica da antiguidade ao renascimento (2021): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/07/sobre-evolucao-cientifica-da.html.

[iv] Expressão de Ryle, usada aqui para nomear o dualismo cartesiano que Aristóteles antecipadamente recusaria.

[v] Conforme temos dito, para a série EFEVMO-ME temos usado o ChatGPT para gerar o conteúdo de resposta do filósofo para a nossa máxima e fazemos uma revisão. São dois objetivos: o primeiro é escrutinar a máxima do ponto de vista do filósofo e o segundo é fazer uma aproximação conceitual do filósofo, de maneira geral. Mostrando postagens com marcador efevmo-me: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/search/label/efevmo-me. No Canal: https://youtube.com/playlist?list=PLnDky5U6KdTn7T-fRc3YWlosgMpPVzH9k&si=I2HECee5weE_WO13 - FEVMO-ME, por Luís Quissak, Playlist, Público, 6 vídeos, 44 visualizações “Eu falo e você me ouve, mas entende?”.

[vi] https://www.youtube.com/shorts/LJenjUkW6bQ no contexto político.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Racionalidade, verdade e justificação

Apresenta a abordagem pragmática de Habermas sobre verdade e justificação, além de destacar os diferentes tipos de racionalidade[i]

Em Verdade e Justificação (1999), Habermas trata de verdade e justificação de maneira pragmática, ante a pressupostos fundacionalistas e escapando de uma visão realista. A sua epistemologia, conforme Araújo, passa pelos tipos de racionalidade, uma abordagem pós giro linguístico e pragmático[ii] e, por fim, verdade e justificação.

* * * Os tipos de racionalidade * * *

A racionalidade reflexiva está relacionada às convicções que as pessoas expressam e na liberdade de escolha. A racionalidade epistêmica está ligada aos nossos juízos e pretensão de verdade, onde há necessidade de justificação e aceitação racional por uma terceira pessoa e por um saber que pode ser testado. Já a racionalidade teleológica é atividade que busca fins e se orienta pelo êxito e as sentenças intencionais não se furtam a fatores psicológicos.

Por fim, a racionalidade comunicativa se diferencia porque produz entendimento[iii] guiado por processos intersubjetivos situados no mundo da vida. Conforme cita Araújo, a fórmula é “entender-se com alguém, a respeito de algo” (p. 117), isto é, significado + uso. O ato de fala tem como objetivo ilocucionário ser compreensível pelo ouvinte na medida em que sua verdade pode ser justificada por argumentação racional[iv].

Pela TAC, por um lado, objetivos ilocucionários levam ao entendimento e, por outro, intervenções no mundo tem efeitos perlocucionários[v], quais sejam, tem influência causal[vi]. Se os usos teleológico e epistemológico não pautam a interação e vida em sociedade, os atos de fala levam o outro a se posicionar e é no telos da linguagem que o entendimento habita.

Em um diálogo, se afirmo “que p”, a respeito de um estado de coisas, não preciso argumentar porque a verdade reside na representação daquele estado (uso epistemológico). Porém se afirmo “que p” visando concordância o ato de fala deve ser assertórico, deve ser reconhecido como verdadeiro. Tudo isso dentro da linguagem e da prática discursiva que considera o contexto do mundo da vida e das práticas inerentes a ele, como tradições, costumes e meios técnicos que conduzem a nossa capacidade de solucionar por problemas e, por consequência, formar crenças e agir.

* * * Verdade e justificação * * *

Para Habermas, a verdade é testada no discurso, mas pretende valer além dele. Em Habermas, conforme Araújo, os enunciados verdadeiros situam-se numa tensão entre a justificação discursiva e a pretensão de validade que transcende os contextos. A verdade é construída linguisticamente, mas aponta para a realidade, sendo sustentada por pretensões de validade como sinceridade, publicidade e equidade, que são testadas e revistas em processos de aprendizagem histórica, e não fundadas em princípios a priori.

Justificamos no discurso, mas ainda buscamos uma verdade que dependa do mundo. Então, a verdade [pretendida] é examinada por meio do discurso intersubjetivo, no qual enunciados falíveis são justificados publicamente. Porém, surge o problema de como a verdade pode ajustar-se aos fatos, se, como observa Wittgenstein, não podemos duvidar de tudo e partimos de certezas do mundo da vida, enquanto os enunciados se constituem dentro de contextos linguísticos e crenças compartilhadas que não se reduzem ao contextualismo, como em Rorty.

O discurso justifica entre nós, mas a verdade aponta para o mundo. Há tanto processos de justificação quanto a pretensão de verdade voltada ao mundo objetivo. Os conteúdos veritativos referem-se aos fatos por meio de recursos semânticos, constituindo as duas faces de Jano após a virada pragmática: de um lado, a justificação discursiva; de outro, a referência à realidade, ambas necessárias para a ação comunicativa e para que o discurso contraia laços com o mundo.

Habermas tenta salvar a modernidade sem voltar aos fundamentos absolutos nem cair no relativismo. De acordo com Araújo, Habermas assume uma posição intermediária que tenta salvar o projeto moderno. Ele reafirma o compromisso com os ideais da modernidade, mas evita tanto o idealismo subjetivo quanto o realismo empírico de base analítica, criticando também o contextualismo radical, o ceticismo e o relativismo das concepções pós-modernas[vii].

O discurso nos aproxima da verdade, mas a verdade não se reduz ao consenso. Habermas procura evitar que a assertibilidade racional sob condições ideais seja confundida com o conceito de verdade. Embora o acesso à verdade permaneça discursivo, um enunciado deve satisfazer uma propriedade de verdade que vai além da justificação. O discurso funciona como filtro para examinar pretensões de validade e estabelecer condições de verdade para crenças empíricas, que, no mundo da vida, servem de base segura para a ação.

Primeiro agimos com certezas; quando elas falham, começamos a discutir. Cabe notar que, no trato cotidiano com o mundo, formamos expectativas e só debatemos a validade dos enunciados quando essas crenças falham. Assim, a distinção entre verdade e justificação atribui funções diferentes à ação e ao discurso: a ação depende de crenças tidas como verdadeiras, enquanto o discurso examina criticamente pretensões de verdade.

A verdade transcende a justificação, mas só acessamos a verdade pela justificação. Como no discurso os falantes pretendem uma verdade que transcende a justificação, o exame da verdade ou falsidade dos enunciados aproxima o conceito de verdade da aceitabilidade racional. Surge então o impasse entre aceitar a pretensão de verdade de “p”, bem justificada, ou a própria verdade de “p”, impasse que se resolve pelo modo como o discurso é usado para examinar criticamente essas pretensões.

Quando a prática falha, discutimos; quando aprendemos, voltamos a agir — mas agora com saber falível. No uso cotidiano, quando as práticas fracassam, recorre-se ao discurso para examinar crenças e produzir razões que permitam retomar a ação com confiança. Nesse processo há aprendizagem, mas o saber resultante permanece falível e revisável, ao contrário das crenças, que produzem certeza para a ação[viii].

A verdade surge quando crenças, mediadas pela linguagem, aprendem com a resistência do mundo. Habermas supera o mito do dado, rejeitando a ideia de um enunciado que confronta diretamente a realidade. A verdade, no pragmatismo formal, depende de aprendizado constante em uma teia holista de crenças mediadas pela linguagem. Contudo, isso não implica mera coerência entre crenças, nem correspondência direta com o mundo. A verdade envolve referência ao mundo independente, mas mediada linguisticamente, e exige que os enunciados possam ser criticados e eventualmente refutados.

A verdade não nasce da linguagem, mas só pode ser alcançada por práticas linguísticas que aprendem com um mundo independente. Para Habermas, a verdade não é metafísica, mas deflacionada e ligada às práticas linguísticas intersubjetivas, que permitem justificar crenças sobre um mundo objetivo independente. A verdade não se reduz à justificação, mas só pode ser acessada por ela, superando o dualismo entre interior e exterior dentro de um realismo pragmático moderado.

A verdade não está apenas nas sentenças, mas na cooperação discursiva que sustenta a ação no mundo. Habermas supera o conceito neopositivista de significado como verdade, incorporando a ideia de significado como uso. No realismo moderado, a verdade não é apenas uma propriedade semântica da sentença, mas também desempenha papel pragmático ligado à ação e à assertibilidade justificada no discurso. Já na Teoria da Ação Comunicativa, a verdade é buscada cooperativamente, por meio do exame argumentativo de pretensões de verdade que orientam a ação.

Falar com validade não é apenas convencer, mas reivindicar uma verdade que deve resistir ao melhor argumento livre e público. Para Habermas, o valor ilocucionário de uma afirmação não se sustenta apenas em certezas práticas ou justificações, mas exige um conceito epistêmico de verdade, estruturado pragmaticamente por condições como participação pública, ausência de coação e sinceridade, ainda que difíceis de alcançar.

A verdade é aquilo que orienta a ação como incondicional, embora permaneça sempre aberta à revisão pelo discurso. Araújo conclui que, na teoria discursiva da verdade, esta não se reduz à reprodução de fatos nem à mera aceitabilidade epistêmica, mas resulta da interpretação discursiva de argumentos com pretensão de verdade. Inserida no mundo da vida, a verdade orienta a ação por meio de proposições tomadas como incondicionalmente verdadeiras, embora sempre revisáveis, reflexivamente. Citando, por fim: “O nexo interno entre verdade e justificação se coloca nesse nível, reflexivo. A resposta a este problema vem da relação entre ação e discurso”.

* * * Resumo Storytelling por IA * * *

1. Saindo do relativismo: a verdade é testada no discurso, mas aponta para além do contexto. Habermas propõe um realismo pós-metafísico em que a verdade não depende de fundamentos absolutos, mas também não se dissolve no relativismo contextual.

2. Justificamos publicamente, mas ainda buscamos algo chamado verdade. A intersubjetividade nasce do mundo compartilhado, porém surge a tensão: se só temos justificações discursivas, como a verdade ainda pode corresponder aos fatos?

3. Duas faces da verdade: justificar entre nós e referir-se ao mundo. Habermas distingue entre processos de justificação discursiva e a verdade voltada à realidade objetiva - como uma "face dupla" da linguagem.

4. Uma modernidade sem absolutismos nem relativismos. Essa virada semântica reafirma o projeto moderno, evitando tanto o idealismo subjetivo quanto o relativismo pós-moderno.

5. Aceitabilidade racional não é o mesmo que verdade. Habermas mantém o discurso como caminho para a verdade, mas insiste que verdade não se reduz ao que é racionalmente aceito.

6. Agimos com crenças confiáveis, discutimos quando elas falham. No cotidiano, assumimos crenças como verdadeiras; o discurso surge apenas quando essas certezas entram em crise.

7. A verdade é pretendida além das justificações. Mesmo justificando discursivamente, os falantes continuam pretendendo uma verdade que transcenda essas justificações.

8. Do debate de volta à ação: quando a confiança retorna. O discurso restaura a confiança nas crenças e permite que voltemos à ação direta no mundo.

9. Aprender com o mundo: verdade como processo falível e progressivo: A verdade surge de aprendizado contínuo, onde crenças são revistas à luz da experiência.

10. Sem fundamentos absolutos: verdade dentro da rede de crenças. Habermas adota um antifundacionalismo em que verdade e justificação dependem de redes holistas de crenças.

11. Sem justificativa não há verdade, mas justificativa não basta. A verdade não se reduz à justificação, mas só pode ser afirmada por meio dela.

12. Significado no uso: a verdade como prática social. A verdade deixa de ser apenas propriedade semântica e passa a ter função pragmática na ação e no discurso.

13. Agir exige verdades confiáveis. Sem aceitar algumas verdades como confiáveis, não seria possível agir nem tomar decisões.

14. A verdade exige condições ideais de argumentação. A validade das afirmações depende de condições discursivas como sinceridade, abertura e ausência de coerção.

15. Verdade como resistência à refutação. Um enunciado é verdadeiro quando pode resistir a todas as tentativas de refutação em um discurso racional.

16. Entre ação e discurso: o nexo reflexivo entre verdade e justificação. A verdade é sempre revisável, mas necessária para a ação — e é nesse equilíbrio que Habermas encerra sua teoria.



[i] Notas resumo de Habermas e a questão epistemológica, terceiro tópico de “A natureza do conhecimento após a virada linguístico-pragmática” em  https://periodicos.pucpr.br/aurora/article/view/1483/1414. De autoria de Inês Lacerda Araújo.

[iii] Efevmo-me? https://bit.ly/efevmo-me-blog

[iv] Isso é possível? As pessoas estão dispostas a aceitar argumentos racionais?

[v] Conforme Austin https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/09/por-este-meio.html: Ilocução é o ato realizado ao dizer algo (como prometer, aconselhar ou ordenar), enquanto perlocução é o efeito produzido no ouvinte (como convencer, irritar ou enganar)..

[vi] Interessante que o papel perlocutório tem, sim, influência.

[vii] Seria (ChatGPT): Immanuel Kant → modernidade, G. W. F. Hegel → idealismo, Richard Rorty → contextualismo, Michel Foucault → crítica pós-moderna.

[viii] Três níveis: crença (certeza prática), discurso (justificação), saber (falível e revisável). 

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Putnam e a objetividade do conhecimento

Passa pelas fases realistas de Putnam[i]

Putnam se filia ao realismo que ganha força na década de 70 impulsionado por Kripke e a teoria causal da referência, cuja proposta é estabelecer uma relação direta entre o referido e o termo, perpassando o significado. Se Kripke trata dos nomes próprios, Putnam aborda as espécies naturais (água, ouro, tigre...) que compõem o mundo. Em sua primeira fase, que poderia ser chamada de realismo metafísico, subentende-se que há no mundo uma totalidade fixa de objetos que são independentes da mente, mundo exterior existente e livre de nossas teorias. Além disso, é possível supor uma descrição completa e perfeita de como o mundo é, trazendo uma noção de verdade como correspondência entre as palavras e coisas externas. Essa é a perspectiva externalista, o chamado ponto de vista do olho divino.

Há uma ontologia externalista que prevê o mundo externo e a semântica da verdade com referência externalista baseada no realismo científico que nos dá acesso epistêmico ao mundo, evitando o ceticismo, mesmo que falível e aproximado (i.e., realismo convergente).  A ciência segue o ideal de busca da verdade, de um conhecimento verdadeiro do mundo, mas postula entidades inobserváveis em suas previsões e, assim, deixa questões problemáticas para os realistas, como uso de genes, átomos e outros. Ora, se não existem essas entidades, como seria possível explicar o êxito da ciência? É o argumento do milagre: sem essas explicações, como mostrar que tudo funciona adequadamente? Nesse caso, a melhor concepção é o realismo científico.

Plastino destaca que, por mais que haja teorias a respeito do átomo, a referência a ele permanece e busca-se por explicações a seu respeito, trazendo uma estabilidade referencial. As crenças mudam, o objeto não, o conhecimento avança cumulativamente incorporando teorias anteriores. Pode haver mudanças semânticas, de sentido, mas a referência continua, assim como na Terra Gêmea há uma substância chamada água que tem outra composição química: XYZ. Ou seja, o sentido de água não está em nossa cabeça, dado que XYZ não é água, pois a referência faz parte do significado, mesmo que semelhante em aparência. É a extensão do termo que determina o significado.

Porém, Putnam começa a rever sua posição externalista ao perceber que poderia haver vários mapeamentos da linguagem com o mundo, colocando em dúvida a fixação da referência e da verdade dada a multiplicidade de correspondências[ii]. Então ele se questiona sobre nossa capacidade de chegar ao conhecimento (concepção epistêmica de verdade), já que a correspondência é não epistêmica, independente de nossa capacidade cognitiva, embora para o realista há verdades que não dependem de nós.

Para o realista metafísico, uma teoria poderia satisfazer todos os critérios epistêmicos (coerência, previsão, explicação) e ainda ser falsa, não corresponder à realidade, já que pertencendo ao ser humano e enfatizando uma dicotomia entre realidade e teoria. Então ele questionará tal divisão entre mundo e conceito propondo que o que vale é o esquema conceitual que estamos utilizando e não devemos falar da coisa em si. Putnam já está negando o realismo metafísico em prol de um realismo interno que traz a relatividade conceitual dependente de perspectivas. Como pode haver teorias verdadeiras e equivalentes do mundo, a ideia de “Mundo” em si se esvai. O acesso a ele é feito por um esquema conceitual no qual colocamos os objetos, dentro de uma certa descrição. Sobre o sol, por exemplo, podemos falar dentro de um esquema conceitual, embora o sol não dependa desse esquema.

Ocorre que, inviabilizando a noção de verdade por correspondência propalada pelo realismo metafísico, Putnam proporá uma noção epistêmica em que associa a verdade à justificação e que evita mapear o mundo pela linguagem. Por exemplo, pelo verificacionismo fundado na evidência dos enunciados, nas condições de verdade que dependem de nossa capacidade cognitiva. Mas o verificacionismo pode levar ao relativismo cognitivo, já que pode haver mudanças de justificação pelo surgimento de evidências. Ora, a verdade não deveria ter essa oscilação, então, conforme Peirce, a justificação se daria ao longo do tempo, dentro do processo científico, em seu limite. Esse realismo com face humana de Putnam, traz a verdade de um enunciado como podendo ser justificado, algo aceitável racionalmente, mas não aqui e agora, mas idealmente. A verdade é um ideal regulador, que norteia a busca das condições epistêmicas e é vista como questão objetiva em que enunciados são melhores que outros independente do contexto histórico e cultural.

Mas também haverá dificuldade nessa nova “situação ideal”, se antes era a correspondência agora é a episteme, levando-o a uma nova autocrítica. A verdade, dependente de fatores humanos, poderia se manter estável? Como usar o papel da verdade na prática? Essa ideia estaria muito próxima de uma situação ideal difícil de ser encontrada na prática, de acordo Rorty. Se humano, esse ideal é suscetível a erros e mesmo uma investigação ideal pode ter proposições com conceitos vagos ou subdeterminados. Ou como distinguir melhores situações epistêmicas? Sabe-se que as avaliações epistemológicas variam com o tempo e pressuposições.

Então surge o realismo natural (direto ou pragmático) que descarta a linguagem como espelhamento da realidade, mas propõe que nossas crenças e enunciados devam ser responsáveis pela realidade (cognitivamente dar uma resposta ao mundo e ao outro, evitando o idealismo). Ele diz que observamos as próprias coisas diretamente pela percepção e não pela intermediação dos dados sensíveis, que são imagens delas e das quais falaríamos. Ora, o mundo que conhecemos não é produto de nossa mente, ele é independente de nós e de nossos artefatos e nos restringe forçando determinada resposta a ele. Mundo objetivo que limita nossas crenças. Então, o realismo não necessita de uma teoria epistêmica da verdade, já que fala sobre o mundo.

Sobre o pragmatismo, importa a crítica à dicotomia fato valor[iii]. Há valores cognitivos epistêmicos (predição, confiabilidade) que norteiam a teoria que versa sobre o mundo, então o fato é pautado por esses valores “embutidos”, assim como no discurso cotidiano. Há valor embutido na ciência: os fatos se dissolvem em valores (objetivos). Importa a noção pragmática de objetividade que visa superar cada cultura. Mesmo dentro de um falibilismo que não cai em ceticismo. Ele ressalta também que devemos estar abertos a várias descrições acerca do mundo, não devemos bloquear a investigação e não há um “a priori” universal e independente.

Associando os valores cognitivos da ciência e os valores éticos, pode haver comunhão ou competição entre os pesquisadores, mas sempre com interação mútua que influencia o conhecimento do mundo.  O dogmático não baseia suas crenças na experiência, elas são independente do que ocorre, disse Peirce, mas o que altera suas crenças são outras pessoas com outras crenças diferentes das dele gerando uma pressão social que o faça mudá-las. O realismo permite responder ao outro e ao mundo. Porém, Putnam discorda dos pragmatistas com relação as teorias da verdade que associam justificação e verdade levando ao relativismo[iv].



[i] Fichamento UNIVESP https://www.youtube.com/playlist?list=PLxI8Can9yAHcC9hEv4oAnMT5GI1zGRW1_  Empirismo e Pragmatismo Contemporâneos - Putnam e a objetividade do conhecimento. Prof. Caetano Plastino.

[ii] De acordo com Plastino, o Teorema de Löwenheim–Skolem.

[iii] Estão intrinsicamente ligados e ambos merecem interpretação objetiva. Já falamos do tema brevemente: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2013/12/possibilidade-possibilidade-reside.html

[iv] Plastino ressalta a dificuldade com a noção de verdade que aparecerá também em Rorty.