Apresenta a abordagem pragmática de Habermas sobre
verdade e justificação, além de destacar os diferentes tipos de racionalidade[i]
Em
Verdade e Justificação (1999), Habermas trata de verdade e justificação de
maneira pragmática, ante a pressupostos fundacionalistas e escapando de uma
visão realista. A sua epistemologia, conforme Araújo, passa pelos tipos de
racionalidade, uma abordagem pós giro linguístico e pragmático[ii] e, por
fim, verdade e justificação.
* * * Os tipos de
racionalidade * * *
A
racionalidade reflexiva está relacionada às convicções que as pessoas expressam
e na liberdade de escolha. A racionalidade epistêmica está ligada aos nossos juízos
e pretensão de verdade, onde há necessidade de justificação e aceitação racional
por uma terceira pessoa e por um saber que pode ser testado. Já a racionalidade
teleológica é atividade que busca fins e se orienta pelo êxito e as sentenças
intencionais não se furtam a fatores psicológicos.
Por
fim, a racionalidade comunicativa se diferencia porque produz entendimento[iii] guiado
por processos intersubjetivos situados no mundo da vida.
Conforme cita Araújo, a fórmula é “entender-se com alguém, a respeito de algo”
(p. 117), isto é, significado + uso. O ato de fala tem como objetivo
ilocucionário ser compreensível pelo ouvinte na medida em que sua verdade pode
ser justificada por argumentação racional[iv].
Pela TAC, por um lado, objetivos ilocucionários levam ao entendimento e, por outro, intervenções no mundo tem efeitos perlocucionários[v], quais sejam, tem influência causal[vi]. Se os usos teleológico e epistemológico não pautam a interação e vida em sociedade, os atos de fala levam o outro a se posicionar e é no telos da linguagem que o entendimento habita.
Em
um diálogo, se afirmo “que p”, a respeito de um estado de coisas, não preciso
argumentar porque a verdade reside na representação daquele estado (uso
epistemológico). Porém se afirmo “que p” visando concordância o ato de fala
deve ser assertórico, deve ser reconhecido como verdadeiro. Tudo isso dentro da
linguagem e da prática discursiva que considera o contexto do mundo da vida e
das práticas inerentes a ele, como tradições, costumes e meios técnicos que
conduzem a nossa capacidade de solucionar por problemas e, por consequência, formar
crenças e agir.
* * * Verdade e
justificação * * *
Para Habermas, a verdade é testada no discurso, mas
pretende valer além dele. Em Habermas,
conforme Araújo, os enunciados verdadeiros situam-se numa tensão entre a
justificação discursiva e a pretensão de validade que transcende os contextos.
A verdade é construída linguisticamente, mas aponta para a realidade,
sendo sustentada por pretensões de validade como sinceridade, publicidade e
equidade, que são testadas e revistas em processos de aprendizagem histórica, e
não fundadas em princípios a priori.
Justificamos no discurso, mas ainda buscamos uma
verdade que dependa do mundo.
Então, a verdade [pretendida] é examinada por meio do discurso intersubjetivo,
no qual enunciados falíveis são justificados publicamente. Porém, surge o
problema de como a verdade pode ajustar-se aos fatos, se, como observa
Wittgenstein, não podemos duvidar de tudo e partimos de certezas do mundo da
vida, enquanto os enunciados se constituem dentro de contextos linguísticos e
crenças compartilhadas que não se reduzem ao contextualismo, como em Rorty.
O discurso justifica entre nós, mas a verdade aponta
para o mundo. Há tanto processos
de justificação quanto a pretensão de verdade voltada ao mundo
objetivo. Os conteúdos veritativos referem-se aos fatos por meio de
recursos semânticos, constituindo as duas faces de Jano após a virada
pragmática: de um lado, a justificação discursiva; de outro, a referência à
realidade, ambas necessárias para a ação comunicativa e para que o discurso
contraia laços com o mundo.
Habermas tenta salvar a modernidade sem voltar aos
fundamentos absolutos nem cair no relativismo. De acordo com Araújo, Habermas assume uma posição
intermediária que tenta salvar o projeto moderno. Ele reafirma o compromisso
com os ideais da modernidade, mas evita tanto o idealismo subjetivo quanto o
realismo empírico de base analítica, criticando também o contextualismo
radical, o ceticismo e o relativismo das concepções pós-modernas[vii].
O discurso nos aproxima da verdade, mas a verdade não
se reduz ao consenso. Habermas procura
evitar que a assertibilidade racional sob condições ideais seja confundida com
o conceito de verdade. Embora o acesso à verdade permaneça discursivo, um
enunciado deve satisfazer uma propriedade de verdade que vai além da
justificação. O discurso funciona como filtro para examinar pretensões de
validade e estabelecer condições de verdade para crenças empíricas, que, no
mundo da vida, servem de base segura para a ação.
Primeiro agimos com certezas; quando elas falham,
começamos a discutir. Cabe notar que, no
trato cotidiano com o mundo, formamos expectativas e só debatemos a validade
dos enunciados quando essas crenças falham. Assim, a distinção entre verdade e
justificação atribui funções diferentes à ação e ao discurso: a ação depende de
crenças tidas como verdadeiras, enquanto o discurso examina criticamente
pretensões de verdade.
A verdade transcende a justificação, mas só acessamos
a verdade pela justificação. Como no discurso
os falantes pretendem uma verdade que transcende a justificação, o exame da
verdade ou falsidade dos enunciados aproxima o conceito de verdade da
aceitabilidade racional. Surge então o impasse entre aceitar a pretensão de
verdade de “p”, bem justificada, ou a própria verdade de “p”, impasse que se
resolve pelo modo como o discurso é usado para examinar criticamente essas
pretensões.
Quando a prática falha, discutimos; quando aprendemos,
voltamos a agir — mas agora com saber falível.
No uso cotidiano, quando as práticas fracassam, recorre-se ao discurso para
examinar crenças e produzir razões que permitam retomar a ação com confiança.
Nesse processo há aprendizagem, mas o saber resultante permanece falível e
revisável, ao contrário das crenças, que produzem certeza para a ação[viii].
A verdade surge quando crenças, mediadas pela
linguagem, aprendem com a resistência do mundo. Habermas supera o mito do dado, rejeitando a ideia
de um enunciado que confronta diretamente a realidade. A verdade, no
pragmatismo formal, depende de aprendizado constante em uma teia holista de
crenças mediadas pela linguagem. Contudo, isso não implica mera coerência entre
crenças, nem correspondência direta com o mundo. A verdade envolve referência
ao mundo independente, mas mediada linguisticamente, e exige que os enunciados
possam ser criticados e eventualmente refutados.
A
verdade não nasce da linguagem, mas só pode ser alcançada por práticas
linguísticas que aprendem com um mundo independente. Para Habermas, a verdade não é metafísica, mas
deflacionada e ligada às práticas linguísticas intersubjetivas, que permitem
justificar crenças sobre um mundo objetivo independente. A verdade não se reduz
à justificação, mas só pode ser acessada por ela, superando o dualismo entre
interior e exterior dentro de um realismo pragmático moderado.
A
verdade não está apenas nas sentenças, mas na cooperação discursiva que
sustenta a ação no mundo. Habermas supera
o conceito neopositivista de significado como verdade, incorporando a ideia de
significado como uso. No realismo moderado, a verdade não é apenas uma
propriedade semântica da sentença, mas também desempenha papel pragmático
ligado à ação e à assertibilidade justificada no discurso. Já na Teoria da Ação
Comunicativa, a verdade é buscada cooperativamente, por meio do exame
argumentativo de pretensões de verdade que orientam a ação.
Falar com validade não é apenas convencer, mas
reivindicar uma verdade que deve resistir ao melhor argumento livre e público. Para Habermas, o valor ilocucionário de uma
afirmação não se sustenta apenas em certezas práticas ou justificações, mas
exige um conceito epistêmico de verdade, estruturado pragmaticamente por
condições como participação pública, ausência de coação e sinceridade, ainda
que difíceis de alcançar.
A verdade é aquilo que orienta a ação como
incondicional, embora permaneça sempre aberta à revisão pelo discurso. Araújo conclui que, na teoria discursiva da verdade,
esta não se reduz à reprodução de fatos nem à mera aceitabilidade epistêmica,
mas resulta da interpretação discursiva de argumentos com pretensão de verdade.
Inserida no mundo da vida, a verdade orienta a ação por meio de proposições
tomadas como incondicionalmente verdadeiras, embora sempre revisáveis, reflexivamente.
Citando, por fim: “O nexo interno entre verdade e justificação se coloca nesse
nível, reflexivo. A resposta a este problema vem da relação entre ação e
discurso”.
* * * Resumo Storytelling por IA * * *
1.
Saindo do relativismo: a verdade é testada no discurso, mas aponta para além do
contexto. Habermas propõe um realismo pós-metafísico em que a verdade não
depende de fundamentos absolutos, mas também não se dissolve no relativismo
contextual.
2.
Justificamos publicamente, mas ainda buscamos algo chamado verdade. A
intersubjetividade nasce do mundo compartilhado, porém surge a tensão: se só
temos justificações discursivas, como a verdade ainda pode corresponder aos
fatos?
3.
Duas faces da verdade: justificar entre nós e referir-se ao mundo. Habermas
distingue entre processos de justificação discursiva e a verdade voltada à
realidade objetiva - como uma "face dupla" da linguagem.
4.
Uma modernidade sem absolutismos nem relativismos. Essa virada semântica
reafirma o projeto moderno, evitando tanto o idealismo subjetivo quanto o
relativismo pós-moderno.
5.
Aceitabilidade racional não é o mesmo que verdade. Habermas mantém o discurso
como caminho para a verdade, mas insiste que verdade não se reduz ao que é
racionalmente aceito.
6.
Agimos com crenças confiáveis, discutimos quando elas falham. No cotidiano,
assumimos crenças como verdadeiras; o discurso surge apenas quando essas
certezas entram em crise.
7.
A verdade é pretendida além das justificações. Mesmo justificando
discursivamente, os falantes continuam pretendendo uma verdade que transcenda
essas justificações.
8.
Do debate de volta à ação: quando a confiança retorna. O discurso restaura a
confiança nas crenças e permite que voltemos à ação direta no mundo.
9.
Aprender com o mundo: verdade como processo falível e progressivo: A verdade
surge de aprendizado contínuo, onde crenças são revistas à luz da experiência.
10.
Sem fundamentos absolutos: verdade dentro da rede de crenças. Habermas adota um
antifundacionalismo em que verdade e justificação dependem de redes holistas de
crenças.
11.
Sem justificativa não há verdade, mas justificativa não basta. A verdade não
se reduz à justificação, mas só pode ser afirmada por meio dela.
12.
Significado no uso: a verdade como prática social. A verdade deixa de ser
apenas propriedade semântica e passa a ter função pragmática na ação e no
discurso.
13.
Agir exige verdades confiáveis. Sem aceitar algumas verdades como confiáveis,
não seria possível agir nem tomar decisões.
14.
A verdade exige condições ideais de argumentação. A validade das afirmações
depende de condições discursivas como sinceridade, abertura e ausência de
coerção.
15.
Verdade como resistência à refutação. Um enunciado é verdadeiro quando pode
resistir a todas as tentativas de refutação em um discurso racional.
16.
Entre ação e discurso: o nexo reflexivo entre verdade e justificação. A verdade
é sempre revisável, mas necessária para a ação — e é nesse equilíbrio que
Habermas encerra sua teoria.
[i] Notas resumo de Habermas
e a questão epistemológica, terceiro tópico de “A natureza do conhecimento
após a virada linguístico-pragmática” em
https://periodicos.pucpr.br/aurora/article/view/1483/1414. De autoria de
Inês Lacerda Araújo.
[ii] Essa abordagem
foi tratada aqui: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/habermas-e-epistemologia-apos-o-giro.html
[iii] Efevmo-me? https://bit.ly/efevmo-me-blog.
[iv] Isso é possível? As pessoas estão dispostas a aceitar argumentos racionais?
[v] Conforme Austin https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/09/por-este-meio.html: Ilocução é o ato realizado ao dizer algo (como prometer, aconselhar ou ordenar), enquanto perlocução é o efeito produzido no ouvinte (como convencer, irritar ou enganar)..
[vi] Interessante que
o papel perlocutório tem, sim, influência.
[vii] Seria (ChatGPT): Immanuel
Kant → modernidade, G. W. F. Hegel → idealismo, Richard Rorty → contextualismo,
Michel Foucault → crítica pós-moderna.
[viii] Três níveis: crença (certeza prática), discurso (justificação), saber (falível e revisável).
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