terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Colocando água no capital cultural*

  A água tem três estados: líquido, gasoso e sólido, assim como o capital cultural também tem três estados: incorporado, objetivado e institucionalizado.

  A água é perene em seu estado líquido, porque está dentro das condições de temperatura presentes em grande parte (e tempo) do mundo humanamente habitável. O capital cultural perene é o incorporado porque está na pessoa, desde seu nascimento, no ar que ela respira, em tudo que ela vê, toca, sente e se relaciona - é o habitus. É não perceptível, sua transmissão acontece dissimulada e sorrateiramente. Vem de berço e se perpetua no convívio social. Faz parte de cada um: "é um ter que virou ser".

  Mas, se aquecida, a água evapora. Não se perdeu, está por aí, mas somente conseguimos pensar na água "evaporada" se nos referenciarmos à água líquida. Da mesma forma é o capital cultural objetivado: são os bens culturais. Bens culturais somente fazem sentido se alguém os entende, ou seja, se este capital cultural objetivado está incorporado em alguém. Ele objetivado tem valor econômico, mas tem valor simbólico quando incorporado.

  Por outro lado, em que momento conseguimos "agarrar" a água, senti-la integralmente? De fato, é quando vira gelo. Assim como o capital cultural que se institucionaliza sob a forma dos certificados escolares, dos diplomas. É aí que o capital cultural é, é quando tem valor e está garantido, não há necessidade de se demonstrar que se tem o capital cultural incorporado porque ele está objetivado institucionalmente naquele objeto que já responde por si só, autonomamente.

Capital cultural: semente da desigualdade de desempenho escolar entre crianças de diferentes classes sociais.

  Não podemos pensar que o desempenho escolar depende estritamente de aptidões ou dons naturais. Nem das teorias de capital humano que exploram o viés econômico sem observarem o capital cultural prévio, difícil de ser medido em termos quantitativos. O capital cultural é a linguagem de cada família, quanto mais capital cultural, mais cultura, mais contato com as classes cultas, mais usufruto. É o capital cultural que precisa ser investigado ao se tratar dos investimentos em educação, porque a as classes dominantes já o herdam e nele seus filhos investem, buscando o resultado financeiro que é o diploma que vale os melhores empregos. Perpetua-se o capital cultural, perpetua-se a ideologia de dominação, assim como a escola chancela o capital cultural e reproduz as estruturas da sociedade. 

  Do que mesmo depende o sucesso escolar? (...)
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* Os três estados do capital cultural - Pierre Bourdieu

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