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sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Teses quineanas

Visa passar pelas principais teses de Quine contra o modelo canônico[i]

O modelo padrão estabelecido é conhecido por tratar o conhecimento como crença verdadeira justificada. Quine o critica porque há dificuldade na justificação racional de crenças, o conceito de verdade é um problema e por suas posições fundacionalistas e normativistas. Como alternativa surge a proposta de uma epistemologia naturalizada[ii] que vê a ciência como um tipo de conhecimento que pode ser descrito em seu processo de constituição, que afasta a necessidade de ser justificada para ter “status” de conhecimento, por ser uma epistemologia que é vista como um capítulo das ciências naturais e, por isso, não normativa e, por fim, por se ater a uma explicação holística do conhecimento.

De acordo com Conserva e a literatura, o modelo padrão remonta a Platão (diálogos Mênon e Teeteto) através de teses como conhecimento proposicional e universalidade. Porém não obstante seu predomínio, o modelo padrão de conhecimento é motivo de muitas interpretações, embora haja a seguinte teoria firmada:

a)     Conhecimento é X.

b)    X deve ser algo informativo.

c)     As nossas intuições (crenças) são tomadas como ponto de partida: pensamos que uma crença X é um caso de conhecimento, que uma crença Y não é o caso de conhecimento.

d)    Desenvolvemos os esforços para justificar os casos de X como conhecimento e os casos de não X como não conhecimento.

Portanto, o que queremos dizer com conhecimento? Bem, o conhecimento se dá pela noção de significado, então procuramos estabelecer o significado dos conceitos como crença, verdade e justificação e saber como aplicá-los por meio de uma definição operativa que permite decidir sobre os casos. E isso é um critério normativo.

A reação quineana ao modelo padrão. Quine não se detém à análise do significado dos conceitos do modelo padrão, porém busca descrever como os indivíduos adquirem determinadas crenças principalmente as que falam sobre estados de coisas do mundo. Ao invés do conceito foca-se no fenômeno natural. Analisa-se o processo de constituição de crenças racionais e por qual razão é a Ciência o caminho mais confiável em uma crítica ao modelo padrão mais sólida que a de Gettier.

O problema relacionado com a justificação de crenças. Gettier já alertava que mesmo uma crença bem justificada pode não ser verdadeira. Isso porque se exemplifica conhecimento por sentenças declarativas representadas pela fórmula: P sabe que S. Porém, “sabe” depende das noções de crença e justificação tornando o argumento circular. O ponto de Gettier é a justificação e Quine concorda com ele porque uma crença verdadeira pode estar assentada em conjecturas e aí não seria conhecimento. Justificação e verdade se distinguem: pode haver crença verdadeira sem ser justificada ou crença justificada que não seja verdadeira.

Conserva ressalta que a crença pode decorrer mais de uma empatia, ligada a uma disposição psicológica, do que de justificação, de um assentimento intelectual que poderia alçar determinada realidade a um status do conhecimento. Gettier bem demonstrou que um indivíduo pode ter uma crença P falsa que foi bem justificada e o ludibriou, dado o caráter de disposição psicológica de tendencia a concordar com ela, não obstante esteja racionalmente fundamentada.

Mas Quine, que refuta o normativismo, não pretende analisar critérios de justificação. Sua epistemologia pretende descrever o processo de aquisição das crenças por meio de uma psicologia empírica baseada no behaviorismo. Para Quine, nossas intuições dependem de esquemas linguísticos que podem ser verificados por meio de uma teoria do aprendizado linguístico e da naturalização da epistemologia. A formação de crenças vai depender de um sistema linguístico e de evidências empíricas que, juntos, formarão uma rede dentro da qual sentenças podem ser consideradas verdadeiras ou falsas. Devemos levar em conta também a realidade em relação ao conhecimento geral e ao científico em particular, associado a uma referência e ontologia.

É através desses pressupostos que se pode criar uma representação racional da realidade tomando como exemplo as Ciências empíricas e o conjunto de crenças a ela associada. Essas crenças constituem uma teia com algumas mais resistentes e outras podendo ser rejeitadas e a rede se reajusta, por meio de uma teoria holística. Mas as alterações devem ser feitas com simplicidade e sem que a teia seja mutilada.

Cabe ao epistemólogo escolher um esquema conveniente superando até uma possível correspondência aos fatos. É por meio do pragmatismo que o fundacionalismo e o normativismo podem ser contornados. E a crítica de Quine vai abranger a Epistemologia, tido como Filosofia primeira e a Teoria do conhecimento que se pretende normativa. Evitando a necessidade de justificação recusa-se uma hierarquia epistemológica abrindo espaço para outro recorte teórico.

A consequência fundacionalistas na tradição filosófica e no empirismo lógico. De acordo com Conserva, o fundacionalismo epistemológico se inicia com Descartes, pois funda no sujeito o ponto indubitável de conhecimento, anterior ao empírico. Nessa visão, há uma hierarquia que se funda na Epistemologia que precede a Ciência e por ela formamos crenças racionalmente. Inclusive Rorty afirma que a filosofia analítica é oriunda desse projeto buscando terreno firme na análise linguística por meio de uma linguagem universal que permitisse explicitar toda a significação e ali fincando toda a teoria do conhecimento. Ocorre que Quine irá se opor ao empirismo lógico que resguarda as verdades analíticas e contestará a dualidade analítico-sintética chegando a analisar a epistemologia empiricamente.

A opção por descrever processos de conhecimento: saber como e saber que. Quine contesta termos como certeza e conhecimento como sendo vagos no campo científico e, por isso, não se utilizará de conceitos e definições, mas das noções pragmáticas “saber que” e “saber como”. Conceitos pertencem à esfera da semântica internalista e não permitem uma descrição comportamental – observacional e científica. Já a semântica extensionalista se afastará do vínculo entre conhecimento e entidades ou proposições. Quine se fiará na descrição empírica das crenças e, se afastando da linguagem pura pretendida pelo empirismo lógico, se voltará para a linguagem ordinária.

Ora, há um saber (o científico) e a Filosofia busca descobrir como a Ciência se desenvolve e é apreendida, mesmo que ainda suscetível a constante aperfeiçoamento. Já que o modelo fundacionalista cartesiano não deu conta de justificar logicamente a Ciência, Quine procurará descrever como ela é possível sendo instrumento de análise e objeto a ser analisado. Portanto, se filosofa pelo próprio método científico, que é o esquema conceitual vigente.

A recepção da condição de verdade no pensamento quineano. Conserva mostra que o modelo canônico tem por fim a obtenção da verdade por meio da justificação epistêmica. A verdade é obtida através de representação, dentro de uma perspectiva realista, mas sabemos que nossa representação é parcial e sempre superada por novos instrumentos. Porém, o modelo quineano não toma um mundo a ser conhecido, ao contrário, mundo, referência e ontologia são partes acessadas por nós por uma estrutura lógica e linguística. Compreensão de mundo e aprendizado da linguagem são dois lados da mesma moeda[iii].

Além do mais, o modelo padrão utiliza uma justificação apriorística, herança da epistemologia platônico-aristotélica fundada no discurso predicativo e proposicional, base da verdade. Para Quine, a construção do conhecimento vem do uso social da linguagem e não de uma relação representativa palavra-objeto. O conhecimento se constrói eventualmente revisando sentenças antes verdadeiras e como estamos cindidos da referência, a representação é colocada em xeque.

A relação entre sujeito e mundo (representação?) se dá pelo aprendizado da linguagem; cada linguagem tem a sua ontologia, sua teoria de mundo empírica que se afasta do modelo padrão de crença verdadeira justificada.



[i] Fichamento do primeiro capítulo do livro Quine: Linguagem e Epistemologia naturalizada, de José Nilton Conserva. Curitiba, Appris, 2019. Primeira Parte: conhecimento para além do modelo padrão: esboço das teses quineanas. As referências ao longo do fichamento não são citadas e devem ser procuradas no texto original.

[ii] Naturalizada porque se debruça sobre nosso processo natural de aprendizado.

[iii] Representação: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/07/representacao-e-correspondencia.html

sábado, 23 de setembro de 2023

Gavagai

Observações iniciais informais sobre a indeterminação da tradução e congêneres[i]

O experimento da indeterminação da tradução da Quine é muito importante porque já quebra barreiras dogmáticas de abordagens nascituras da Filosofia da Linguagem, especialmente visões oriundas do Círculo de Viena. Imaginemos um linguista que vai a campo criar um manual de tradução da linguagem usada por uma tribo indígena isolada e ele faz uma primeira observação de um falante que aponta para um coelho e diz para seu acompanhante: “Gavagai!”. O linguista anota essa cena e se pergunta, sobre gavagai: “Seria o coelho ou uma parte do coelho? Seria comida, almoço? Seria animal?”.

Esse breve excerto serve para mostrar que o trabalho de rotulagem das coisas pela linguagem depende do contexto e é arbitrário, ou seja, ele é relativo ao que ocorre. Assim, o manual criado pelo linguista deverá ser construído mediante as observações empíricas e serve como uma forma de refutar possíveis enunciados puramente analíticos, isto é, que são verdadeiros em si, independentemente da experiência. Na realidade, talvez se criem enunciados analíticos, mas eles poderiam ser formados por abstração e a posteriori.

Então, o experimento condiciona a linguagem ao contexto de uso referido, mas ele também mostra que, se um outro linguista que se aventurasse nessa mesma tarefa de confecção do manual, criaria um manual diferente do anterior, em virtude daquelas perguntas iniciais que seriam respondidas de inúmeras formas por inúmeros linguistas. Nesse sentido, a tradução se indetermina pelas inúmeras abordagens que podem a ser construídas pelas diferentes observações empíricas de uso e revela, também, a inescrutabilidade[ii] da referência, já que gavagai poderia ser o coelho ou a perna do coelho. 

Teremos que fazer o escrutínio desse didático livro de Conserva por meio de fichamentos, mas de antemão teremos material para aprofundar em sua denúncia dos dois dogmas do empirismo[iii] e de sua proposta por uma epistemologia que recusa um fundacionalismo e normativismo por meio do behaviorismo e empirismo[iv]. Um ponto interessante é que vai desmistificar o significado como uma entidade abstrata, vai mostrar a não alcançabilidade da referência e recusar a primazia verificacionista de enunciados verdadeiros por meio de uma teoria holística. Ou seja, é demolidor.



[i] Estamos na primeira leitura diagonal de Quine: Linguagem e Epistemologia naturalizada. CONSERVA, José Nilton. Curitiba: Appris, 2019.

[ii] Do que é impossível de ser escrutado, investigado, compreendido; impenetrável, incompreensível, insondável (Oxford Languages and Google).

[iv] Preliminares: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2022/04/a-nossa-teoria-sobre-como-o-mundo-e.html. 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

A nossa teoria sobre como o mundo é

Introdução e os principais pontos de Linguagem e Verdade[i]

Pettersen inicia a aula com uma citação de Palavra e Objeto (1960), da p. 13, que trata da linguagem como arte social, construída intersubjetivamente e cujo significado provém do que é expresso e observável. Ou seja, a linguagem é pública e mesmo a filosofia se expressa nessa linguagem, na forma como falamos e que a molda, e que também molda as possibilidades de refletir, de negar, etc. A filosofia depende da língua falada e da linguagem como ordenadora do pensamento, conforme ressalta Pettersen, o que vai contra uma ideia de filosofia universal. A questão da intersubjetividade ressalta que somos pautados pelos interlocutores e dentro de um contexto cuja chave de leitura / tradução deve ser dada para que nosso pensamento se torne acessível.

Segundo Pettersen, Quine pretende responder como entender o pensamento de um grupo completamente distinto do nosso e que se expressa em uma linguagem que não conhecemos, no que se chama tradução radical. Ele verifica a radicalidade do pensamento e de como ele está expresso em uma língua.

Resumidamente, o que veremos aqui é o primeiro capítulo, no qual Quine passa do como aprendemos a linguagem até o discurso científico, apoiando-se em dois princípios: o empirismo, que é fonte de evidência e o behaviorismo. Já no segundo capítulo, em uma próxima resenha, Quine veremos o argumento da tradução radical, ou seja, de como comunicar o discurso para outra pessoa, da qual não temos conhecimento prévio.

Então, o capítulo 1, cujo título é Linguagem e Verdade, já mostra a busca de Quine por proposições verdadeiras. Ele parte do conhecimento empírico por meio de nossa superfície sensorial e, aí, começa o processo de entificação, bem como o aprendizado da linguagem por observações da pronuncia alheia. E esse empirismo, de acordo com Pettersen, é um antidoto ao relativismo ou incerteza e, sendo base do conhecimento, é fundante da linguagem comum e da ciência, que é evolução autoconsciente do senso comum (e também a filosofia como continuação da ciência). Se a linguagem depende do contexto, conforme Wittgenstein, Quine acrescenta que é necessária uma fonte de validação.

Já sobre o behaviorismo, um “ai” pode ser aprendido pela sociedade como dor e, nesse caso, gera uma recompensa de nossa parte ou se percebemos um blefe, por exemplo, pode ocorrer penalização. Lembremos do reflexo condicionado de Pavlov[ii] com seu cão – aprendizado por repetição e Skinner que baseia a tese de comportamento humano no behaviorismo, sendo seguido por Quine.

Isso posto, há uma triangulação (professor-texto-aluno) para que o aprendizado ocorra, há três aspectos:

1. Do ponto de vista do aluno, ele percebe as coisas do mundo de maneira similar (empírico).

2. As coisas também são similares do ponto de vista do aluno e do professor (intersubjetivo).

3. Professor possa corrige e incentiva o aluno (recompensa-punição).

Entretanto, há uma uniformidade linguística, já que a forma externa do falar é igual, embora a parte interna de cada um, do aprendizado, seja diversa[iii]. Quer dizer, temos a mesma percepção de mundo. E vamos aprendendo a partir de palavras simples, que são unidades, que depois vão se juntando em frases mais complexas. Então, frases mais longas são feitas de fragmentos, alguns já aprendidos e outros que vão sendo aprendidos e testados, verificados. Já o aprendizado por ostensão[iv] necessita de conhecimento de fundo, de entender o sinal, etc. Se o padrão de condicionamento varia entre cada pessoa, há pontos de congruência em geral.

Ora, se o caminho de aprendizado da linguagem comum é aquele experimental, por que o da filosofia não seria? Bem, para Quine aprendemos a linguagem a partir de frases inteiras, contextualmente ou por analogia ou, por fim, por descrição. Isto é, aprender uma linguagem é aprender uma teoria sobre como o mundo é. A língua portuguesa nos dá uma visão de mundo, assim como outras línguas dão visões de mundo diferentes. A visão de mundo depende do conhecimento prévio, mesmo entre pessoas da mesma língua de acordo com suas vivências.

Quine pontua que há aspectos da linguagem que estão afastados da experiência[v], mas as porções ligadas ao mundo nos permitem entrar no campo da linguagem, nos comunicar e atingir a objetividade necessária. A partir daí, toda a linguagem deve ser organizada em nossa teoria do mundo, da mesma forma que um cientista, com simplicidade (organizar o conhecimento da maneira mais simples e, aqui, Pettersen lembra da navalha de Ockham), familiaridade, que é: explicar novas questões a partir das velhas leis familiares de nossa visão de mundo e, por fim, a razão suficiente, que se dá por meio de uma explicação racional, conforme herança de Leibniz, informa Pettersen. 

Por fim, Quine ressalta que não reduziu sua ambição de modo que caia em uma doutrina relativista, mas continua dentro de uma teoria de mundo particular baseada nas crenças do momento e, com o uso do método científico, aperfeiçoando e sendo capaz de julgar a verdade seriamente, com as devidas correções que sempre hão de se fazerem necessárias. Se a melhor ferramenta que temos para falar sobre o mundo natural é a ciência e a que traz as melhores evidências de explicação, sigamos com o vínculo empirismo.


[i] Resenha de Quine - Capítulo I de Palavra e Objeto, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=u-n_XW40_5s, https://www.youtube.com/watch?v=E3ClMyjcpkU e https://www.youtube.com/watch?v=elL_xRAeRrw. Prof. Bruno Pettersen. Willard van Orman Quine (1908-2000). Alguns trabalhos: Dois Dogmas do Empirismo, Sobre o que há, Relatividade Ontológica, e Epistemologia Naturalizada.

[ii] “Ivan Pavlov, um médico russo do início do século 20, treinou cachorros para que eles ficassem com água na boca sem que houvesse nenhuma comida por perto. Funcionava assim: toda vez que os bichos eram alimentados, o médico tocava uma sineta. Com o tempo, os cães começaram a associar as badaladas à comida. Conforme Superinteressante: https://super.abril.com.br/ciencia/o-que-e-o-cao-de-pavlov/.

[iii] As árvores possuem as mesmas formas, vistas de longe, mas os galhos internos são diferentes.

[iv] Ato ou efeito de mostrar, https://www.dicio.com.br/ostensao/.

[v] Em Hume todo conhecimento vinha da experiência, no esquema impressão-ideia, o que não é o caso de Quine que trabalha no campo da linguagem, conforme nota da aula. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Aufbau

Reavaliar leituras estereotipadas do Aufbau visando mostrar que se trata mais de um projeto lógico-linguístico do que somente epistemológico.[i]

O Aufbau[ii] tinha por fim lançar as bases para a construção da ciência unificada sobre um sistema lógico (linguístico)-epistemológico (psicológico) de conceitos (objetos) visando a redução de cognições umas às outras por uma linguagem fenomenalista com a certeza do imediatamente dado na experiência, mais certo que as coisas materiais.

Tentando desintrincar o lógico-psicológico, Pizzutti e Liston argumentam que as cognições básicas seriam derivadas não dos dados dos sentidos, mas metodologicamente tidas com válidas. O próprio Carnap afirmara que a epistemologia era de base metodológica visando justificar as cognições relacionadas. Assim, a premissa do Aufbau é de ordenação lógica dos conceitos, visando o sistema construcional, mas que teria um base auto psicológica, na medida em que essa ordenação também dependeria do conhecimento dos objetos inferiores, trazendo uma primazia epistêmica.

Conforme citações de Carnap, o sistema construcional é baseado em conceitos sobre conceitos e transitivo, ou seja, os conceitos superiores podem ser reduzidos a enunciados sobre os fundamentais, etc. É fundado na lógica e teoria dos tipos do Principia Mathematica, ou seja, conforme os autores, projeto lógico-linguístico. Haveria quatro domínios base para construção dos conceitos das ciências empíricas em um único sistema:

i.  Auto psicológico: formam a base do sistema de reconstrução racional do conhecimento pela sua redutibilidade lógica e têm primazia epistêmica. São os objetos do mundo subjetivo do sujeito.

ii. Físico: se baseiam nos anteriores para construir os objetos do mundo da física. Se reduzem pela percepção.

iii. Hetero psicológico: outras mentes e sujeitos dotados de consciência. Se reduzem por meio da externalização dos estados psicológicos (comportamento).

 iv. Cultural: mundo dos objetos culturais. Se reduzem através de manifestações psicológicas e suas documentações físicas.

Se a base foi auto psicológica em função da base lógica construcional e epistêmica e por possuir poucos objetos básicos, envolveu dificuldades:

1. Aparente solipsismo, mas que teria apenas essa forma pois trata-se de um solipsismo metodológico e não somente experiências particulares de um indivíduo.

2. Se a base subjetiva permitiria objetividade e, segundo Carnap, sim, por propriedades estruturais análogas a todos os sujeitos e que perpassam qualquer fluxo de experiência.

3. A base formada por percepções, que são experiências elementares não sujeitas a análise, seria superada por meio da descrição das relações das propriedades individuais das experiências, num processo de quase-análise.

A partir desses pontos Carnap estabelece como sustentação das relações o reconhecimento de similaridade, comparando a imagem memorética de duas percepções para considerá-las semelhantes e construir o domínio auto psicológico subindo para os outros níveis.

Pizzutti e Liston mostram que as críticas de Quine e outros foram enviesadas e criaram uma visão caricatural do movimento de Viena. Para Quine, Carnap traria um empirismo clássico seguindo a lógica de Frege e Russell, ou seja, uma versão ingênua de empirismo fundacionista e reducionismo fenomenalista. Segundo Quine, teria havido fracasso na busca pelos fundamentos da matemática, ou seja, no logicismo, dentro do campo conceitual das ciências exatas, de um significado teórico.

Entretanto, haveria o campo doutrinal nas ciências naturais, reduzindo o significado à experiencia sensorial e daí, a verdade do conhecimento através de leis. O pai do projeto era Russell e sua proposta de dados dos sentidos como construto lógico do mundo exterior que, segundo Quine, teria quase obtido êxito por Carnap no Aufbau, mas a busca de uma certeza cartesiana teria fracassado via experiência imediata.

Segundo o próprio Carnap, uma base fiscalista seria mais interessante do ponto de vista científico, entretanto sua escolha foi pela ordenação auto psicológica privilegiando o aspecto epistemológico na esteira do realismo, idealismo e fenomenalismo e formação de uma base convencional.

Na visão de Carnap, a epistemologia, ao mesmo tempo em que justifica o conhecimento, é relativa porque relaciona cognições. No caso do Aufbau, a construção do sistema é ordenada pelo conhecimento partindo dos dados dos sentidos e cognições pressupostas como válidas. Mas a condição suficiente do sistema construcional é lógica e só metodologicamente é feita a análise epistemológica. A reconstrução racional é de inferência lógica partindo de cada um dos constituintes das experiências que podem ser epistemicamente independentes, mas a análise epistemológica para ser válida, deve permitir uma redução das cognições. Conforme os autores:

No projeto de sistemas construcionais de modo geral, a análise lógica é condição suficiente para construir um sistema, a análise epistemológica é condição necessária se o sistema proposto deve refletir, além de uma ordenação lógica, uma ordenação epistemológica do conhecimento.

Ao tratar do sistema, os autores acreditam que o Aufbau é fundacionista, mas não da maneira vista por Quine, qual seja, de que Carnap teria assumido o reducionismo como dogma da tradição empirista, isto é, a verdade “cartesiana” seria dada pela tradução do discurso significativo na linguagem dos dados dos sentidos, constatado diretamente da experiência. Na visão de Pizzutti e Liston, o sistema de Carnap é fundacionista com o domínio auto psicológico das percepções e enunciados fenomenalistas baseados em crenças básicas justificadas por si (irrevisáveis) e construcional pois permite a redução dos objetos do conhecimento científico à sua base, pela primazia epistêmica. Entretanto, se há esse justificacionismo epistemológico por enunciados básicos autoevidentes, ele não é infalível, tal como ocorre em Descartes, mas segue uma razão metodológica e, por isso, escolhida convencionalmente e substituível.

Por fim, os autores reforçam que, no Aufbau, o “projeto é guiado por uma reconstrução racional do conhecimento científico cuja base é uma ordenação lógica com elementos psicológicos” e que não está comprometido com a análise epistêmica do conhecimento.  Eles tentaram defender a tese de que Carnap não é dogmático por defender o convencionalismo e a tolerância linguística, desde que explicitada a clareza das regras o invés de argumentos filosóficos. Segundo ele, em lógica não há moral.


[i] Pedro Henrique Nogueira Pizzutti e Gelson Liston. O PROJETO LÓGICO-LINGUÍSTICO E EPISTEMOLÓGICO DO AUFBAU DE RUDOLF CARNAP. Na Revista Problemata, acessado em 10/02/2021 pelo link https://periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/problemata/article/view/44612/29117. Sem a marcação de em qual obra de cada autor está cada argumento, apenas uma tentativa de expor a visão panorâmica da discussão.

[ii] The logical structure of the world. Aufbau = construção.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Quine e os problemas do positivismo lógico*

A asserção inicial de Quine que Schwartz nos traz já revela a eficácia dos mitos sobre os quais se assentam nossa base epistemológica: quando um físico leigo acredita em objetos físicos. Nesse sentido do conhecimento, o tema em que Quine está aqui inserido é o do desmantelamento do Positivismo Lógico e das ideias do Tractatus, ou seja, a rejeição do uso da lógica formal para “resolver” problemas filosóficos e na direção de uso da uma linguagem comum[i].

Quine é um empirista pragmático estadunidense que pretende arrumar o empirismo que ainda apresentava resíduos da velha filosofia no programa positivista, como, por exemplo:

·         Confiança na teoria dos dados dos sensoriais;

·         Reducionismo;

·         Lógica Formal;

·         Princípio de Significatividade[ii].

A ruína do critério de verificabilidade para a significação. Para o positivismo, o enunciado é significativo sse é ou uma tautologia (ou uma autocontradição) ou empiricamente verificável (ou falsificável). Então todo conhecimento não analítico se baseia na experiência e a eliminação da metafisica pela aplicação da lógica passa pela destituição de seu significado pela semântica da linguagem.

Hempel procura mostrar que o critério de verificabilidade da significação (ou critério empirista do significado cognitivo, como ele o chamava) era um trabalho prodigioso, porém uma tarefa irrealizável. Além de apresentar um problema autorreferencial: o critério de verificabilidade da significação não se aplica a si mesmo pois é cognitivamente sem sentido, daí que se torna uma recomendação. Mas, se é assim, por que segui-lo?

Da significação à verificabilidade. Popper irá propor um critério diferente de demarcação baseado no princípio da falsificação, ou seja, de falsificabilidade ou refutabilidade e, portanto, testatibilidade das proposições. Levando-se em conta esse critério de Popper o marxismo seria intestável.[iii]

O problema do critério de Popper é a dificuldade em se testar teorias científicas de maneira direta, pois até o darwinismo seria não testável assim, se tornando uma “metafísica útil”.  Porém, o critério da verificabilidade de Popper é menos rígido que o critério de verificabilidade da significação, pois visa checar se uma teoria (ou a metafísica) é ou não ciência, não questionando o seu significado. Assim, Popper rejeita Carnap e o positivismo.

Quine e a rejeição da distinção analítico/sintético. Quine enfatiza a distinção criada por Kant e muito usada pelos positivistas, principalmente no critério de verificabilidade da significação, pela qual podemos assumir: tautologia = “analiticamente verdadeiro”. Para ele, trata-se de um dogma metafísico pois não foi traçada uma fronteira entre proposições analíticas e sintéticas, permanecendo um artigo de fé metafísico.

A fonte da distinção, conforme Schwartz, é o texto de Quine “Dois dogmas do empirismo”, considerado o mais lido da filosofia analítica, que revela os dois dogmas infundados: crença na clivagem entre as verdades analíticas e as sintéticas baseadas em fatos e no reducionismo de proposições significativas a construtores lógicos.

Schwartz ressalta que, embora a argumentação de Quine seja compreensível, os detalhes não são evidentes e utilizam noções complexas como analiticidade e sinonímia. Na verdade, para Quine, a explicação das proposições analíticas dependem de sinônimos em sua definição, ao invés do significado, que levam a recorrência da analiticidade e isso torna a argumentação circular.

A crítica ao significado usado pelos positivistas parece tão evidente que fica difícil que Quine nos convença do contrário. Porém, se os exemplos são investigados, em algum momento a indistinção entre generalizações empíricas e elementos puros de significado linguístico tornam essa fronteira indiscernível.[iv]



* Uma breve história da filosofia analítica de Russell a Rawls. Schwartz, Stephen P. São Paulo: Edições Loyola, 2017, Capítulo Três.

[i] Sobre o Tractatus e a teoria da afiguração que já nos dá uma boa ideia de como Wittgenstein pretendia resolver os problemas: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2020/09/wittgenstein-e-teoria-da-figuracao.html.

[ii] Sobre os princípios norteadores do programa positivista, consultar em nosso blog uma reflexão anterior: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2020/10/o-programa-do-positivismo-logico-i.html.

[iii] Aqui há uma certa querela entre os empiristas que consideravam o marxismo não científico e os marxistas que consideram o empirismo uma doutrina burguesa reacionária.