Mostrando postagens com marcador Gaia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gaia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Paraíso verde

A nossa relação com a natureza sempre foi duvidosa, seja ela com a nossa própria natureza humana ou com uma natureza extrínseca. Em realidade, é proeminentemente uma atitude de negação já que, conforme nos alerta Haddad, a subjugação de outrem está em nosso DNA e, clara e indistintamente, a subjugação da natureza, nossa necessidade de dominá-la.

Porém, a ciência produziu uma nova visão pela teoria de alguém que acaba de nos deixar: Lovelock (RIP 26/07/2022). Ele tentou mostrar que a natureza, em oposição à tradição iniciada por Bacon e pelo renascimento (século XIV), é um organismo vivo, é Gaia. A natureza não está ali objetificada para nossa exploração e expropriação, ao contrário, ela é um todo articulado e em equilíbrio único que tencionamos descontrolar em virtude de nossos anseios mais supérfluos.

O mesmo Haddad nos lembrou, em entrevista recente, do programa da ditadura militar de enfrentar o “inferno verde”. Sim, ambiente hostil. Era essa a visão na década de 70, a mais dileta expressão positivista. Por impenetrável, haveria de se travar contra a natureza uma guerra. Mas, uma guerra contra ela é uma guerra contra o planeta, contra nós.

Ora, tal não é a nossa surpresa, 50 anos depois, de testemunhar que algo mudou. A ecologia e a sustentabilidade são palavras de ordem, atualmente. Os orgânicos ganham espaço, a pegada de carbono envergonha e termos como ESG dominam o mundo corporativo. Seriam ressonâncias dos pedidos de Lovelock?

Sem dúvida, o buraco na camada de ozônio chamou a atenção, mas, também, as anotações sucessivas da constante elevação do aquecimento global comprovaram cientificamente que o homem lidera e potencializa a destruição do planeta, pela produção desenfreada de CO2 e outros gases de efeito estufa.

As palavras de Lovelock estão por aí ecoando na cabeça de acadêmicos, cientistas, voluntários e guerreiros que, não se alienando, tentam mudar a realidade. Mas, decerto, uma grande mudança para a sociedade é entender que, na atmosfera baixa, quem manda é a natureza e é ela um verdadeiro paraíso, paraíso verde.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

O Antropoceno e a nossa visão de mundo

Sobre um tempo em que o ser humano deixa marcas geológicas em um planeta cuja imagem ele precisa rearticular[i]

O Antropoceno: uma inovação. A despeito do 34º Congresso Internacional de Geologia, em 2012, declarar o Antropoceno uma “possível” época geológica e, conforme ressalta Latour sobre o tamanho do peso desse tipo de decisão, já que colocaria uma marca da humanidade na geo-história, ainda assim, foi decretado o fim do Holoceno[ii]. Nesse sentido, depois de 11 mil anos de desenvolvimento da civilização, há um período novo de instabilidade[iii].

Certamente, continua Latour, a burocracia associada a tal decisão se deve a que a comunidade geológica precisa de um sinal geológico que seja medido pela estratigrafia, ou seja, seu reconhecimento nas rochas. Entretanto, não se discute o fato que o termo Antropoceno, cunhado por Crutzen no ano 2000[iv], já seja consenso nas pesquisas de mudanças climáticas.

Embora o Novo Regime Climático não tenha respaldo ainda na Geologia (depois de 2016, mas antes de 2019 quando foi chancelado[v]), Latour aponta para as contribuições do grupo liderado por Zalasiewicz a respeito dos temas das conferências: potências de agir, zona metamórfica, etc., e nossas pegadas começam a aparecer na base rochosa, nossa ação gera fenômenos em escala global e o dispêndio de energia da humanidade como um todo chega ao gasto energético de vulcões ou tsunamis, senão que nossa potência pode atingir a das placas tectônicas (nosso gasto por volta de 17 terawatts ainda ínfimo perto dos 130 mil oriundos da ação do sol).

Não obstante o citado na definição do termo, Latour recupera nossas “contribuições”[vi], enfatizando os efeitos dos sinais radioativos das bombas atômicas. Se antes queríamos dominar a natureza, agora trata-se de procurar nosso traço em suas ruínas. Importante ressaltar o fato de marcamos um tempo geológico a partir de uma contribuição de 100 a 200 anos, o que mostra o ritmo da transformação.

Mente et malleo. Porém, ressalta Latour, é justamente o Antropoceno, “cavilha de ouro” (golden spike), que pode se tornar o conceito filosófico que nos afastará da modernidade. Se a questão humana era parte dos estudos em ciências humanas, esse novo oximoro trata de colocar “Anthropo” no centro da “ciência natural” e da geologia, deixando para traz a área das humanidades que, as voltas com nossos valores, não viu o trabalho do martelo[vii].

E o termo, conforme continua ele, sendo mal compreendido, faz com que apressadamente se fundam as noções de Natureza e Cultura, em metamorfose capaz de petrificar o rosto humano ou antropomorfizar a natureza. A esse propósito Latour alude à revista Nature[viii] que, trazendo a “Era do humano”, não percebeu que se tratava exatamente do seu fim.

A ocasião ideal para desagregar as figuras do homem e da natureza. Retomando o tema anterior, Latour enfatiza que o Antropoceno não é capaz de reconciliar natureza e sociedade, mas que vem para desintegrar tais noções tão presentes até então. Pois quando a ação humana se funde com a geologia, tudo se mistura, pois nos misturamos aos ciclos do carbono e do nitrogênio, e às impressões de lavas em rochas se misturam plásticos.

O Antropoceno habilita a transposição da geografia física e da geografia humana tornando obsoleto um conceito como o de Natureza. Assim como não permite responsabilizar ninguém por ele, já que a humanidade como um todo não poderia atuar como um agente único, dotado de consistência moral ou política. E mesmo que se pudesse responsabilizar é possível já imaginar a grita em contrário. Entretanto, não se pode enumerar a pegada de carbono de cada um porque há povos distintos, há interesses diversos, enfim, uma miríade de hábitos e ações as mais contraditórias que nos impede de ser um todo unificado.

Sloterdijk ou a origem da imagem da esfera[ix]. Conforme argumenta Latour, para retirar o fardo que é para o humano carregar o Globo todo nas costas, convém recorrer ao conceito de esferas de Sloterdijk, como que capaz de imunizar e perpetuar a vida. É esse conceito de esfera, germinado na história da filosofia, que Sloterdijk usa para tematizar um envoltório que nos permite viver e respirar, que nos climatiza. Inclusive para criticar o Dasein de Heidegger, ele pergunta: para onde o Dasein é jogado no mundo, qual a composição do ar e temperatura de lá?

Segundo Sloterdijk, criou-se uma imagem de Globo que não se sustenta, se o Globo é belo, não se põe de pé. Ter uma visão global é sair da esfera e se expor ao mundo, quebrar o envoltório é destruir a camada de proteção que nos sustenta vivos. Envoltório frágil, mas que contém as condições climáticas que permitem nossa existência.

Conforme Latour, “oferecendo-nos a primeira filosofia que atende diretamente às exigências do Antropoceno”, Sloterdijk conceitua um Deus Esfera (Deus sive Sphaera)[x] que pode romper a cosmologia ocidental ao colocar a Terra no centro jogando Deus para a periferia. Ele mostra que há um bifocalismo a ser superado: local teocêntrico ou geocêntrico. No mais, pensar globalmente trazendo a reboque Deus nos impede ter de pensar historicamente e ficamos sem o tempo e o espaço...

A confusão entre a ciência e o globo. Da mesma maneira há, para Latour, duas visões de mundo científicas que não se reconciliam: a da Natureza (na natureza, centrada no cosmos) e a da Natureza no laboratório, como se uma descoberta científica pudesse traduzir a Natureza. Do mesmo modo que a imagem do Globo ou Deus cristão é o Globo platônico separado e perfeito, sem os efeitos da gravidade. Esse sim, se pode abarcar com a mão[xi], mas que aí não passaria de um globo de papel machê.

 Então, Segundo Latour, é pelo uso da esferologia de Solterdijk ou da história da ciência que conseguiremos escapar da maldição de Atlas, pelo entendimento que a noção de globo não inclui tudo o que está contido no mundo, o global é um modelo reduzido pois nunca se pode pensar globalmente sobre a Natureza ou Gaia.

Tyrrell versus Lovelock. Conforme Latour, ao tratar do Antropoceno, de Gaia ou do Globo, confundem-se as figuras de conexão com as de totalidade, mesmo entre os cientistas. Um exemplo que ele traz é o de Tyrrell que converte Gaia em algo superior que envolveria a Terra[xii]. Diante disso, Tyrrell postula que Lovelock não consegue provar que existe essa camada de proteção da Terra, tal como uma Providência. E aí seu erro, conforme indica Latour, de tomar o todo pelas partes.

A despeito do alerta de Lovelock e de sua hesitação em definir Gaia, ainda assim Tyrrell a toma por um ente todo-poderoso como que por uma visão teológica, talvez pela influência daquele conceito de Globo. Mesmo que Lovelock tenha conceituado uma versão profana de Gaia, não teleológica e que foge de um nível de conexão e outro de totalidade reguladora, Tyrrell é taxativo ao adotar o segundo ponto em prol da teoria da evolução, tirando qualquer possibilidade de os organismos também poderem interferir no meio.

Por mais que Lovelock enfatize não haver intenção oculta na autorregulação planetária, um neodarwinista como Tyrrell vê ali uma Teodiceia. Isso porque alguns cientistas se agarram à visão global de um superorganismo, ao invés de se mirarem nas conexões entre os seres. E o Antropoceno ensina que não há uma unificação em uma esfera terráquea e que a cosmologia do planeta azul como Globo deve ser superada. Se livrar da maldição de Atlas é ultrapassar a imagem da Esfera platônica sem história nem descontinuidade, a ideia ideal.

Os ciclos de realimentação não desenham um globo. Mas é tomando as potências de agir com um movimento em ciclos que se traça um caminho que rompe o desenho da esfera. E aqui Latour toca num ponto particularmente problemático que é o de como trazer essa noção de Antropoceno, tão distante, para o centro das atenções. Ainda que já tenham havido vários ciclos para superar a visão de Globo, como as observações de Keeling e as medições do ciclo do dióxido de carbono, o buraco na camada de ozônio ou os estudos de Carl Sagan sobre um possível inverno nuclear, é preciso que os sintamos, de fato, em nós mesmos. Isso quer dizer receber os efeitos do que praticamos, de nossa frágil condição climática, ou seja, desses ciclos que voltam a nós e nos sensibilizam (assim como os ciclos para parar de fumar, por exemplo, conforme cita Latour: a necessidade de sentir na pele, ou, nos pulmões...).

É por ciclos entrelaçados que a camada de Gaia se compõe, envoltório delicado das zonas críticas e que, não somente sente a nossa ação, como reage e é nesse momento que temos que ter nossos sensores ativados para não sermos negacionistas e identificarmos de que maneira as potências de agir estão conectadas.

Enfim, outro princípio de composição. Por mais que Gaia gere sinais de insatisfação, a partir do Antropoceno que destruiu qualquer sonho de união no cuidado com a Natureza, ela em si também não nos une como que nos chamando à ordem. Dada a complexidade do que se passa sob Gaia, nem mesmo a Ciência une, haja vista as pseudocontrovérsias lideradas pelos climatocéticos. Há, então, que se tecer uma universalidade, segundo Latour, pela construção de coletivos em uma multiplicidade de ações em torno de uma luta política.

Redesenhar o formato Natureza/Cultura em uma nova cosmologia, que é de um tempo pós-natural e pós-humano. Não se trata mais de questões ambientais, mas da redistribuição das potências de agir, maior que as paixões políticas que conhecemos.

Melancolia ou o fim do globo. Por fim, Latour relembra Melancolia, o filme, com a imagem de Melancolia, e não o planeta Terra, sendo Gaia, pois é aquela que devastará o que é demasiado humano. Enfim destruídos, haveremos de encontrar uma nova teologia geopolítica.



[i] Resenha da Quarta Conferência de Bruno Latour: O Antropoceno e a destruição (da imagem) do globo. Em LATOUR, B. Diante de Gaia: oito conferências sobre a natureza no Antropoceno. São Paulo / Rio de Janeiro: Ubu Editora / Ateliê de Humanidades Editorial, 2020. Como de costume, de maneira alguma visa exaurir a argumentação do autor, é um recorte das principais ideias abordadas.

[ii] Conforme https://www.infoescola.com/geologia/holoceno/: Na escala de tempo geológico, o Holoceno ou Holocênico é a época do Período Quaternário da Era Cenozoica do Eon Fanerozóico, que se iniciou há cerca de 11,5 mil anos e se estende até o presente, onde a humanidade se desenvolveu. O desenvolvimento da humanidade se deu principalmente graças ao clima mais ameno e estável. Os grupos nômades de caçadores-coletores passaram para uma população com casas fixas de mais de 6 bilhões de pessoas, que estão agrupadas em complexas organizações sociais com nacionalidades, culturas e modos de vida. Durante o Holoceno, o clima sofreu drásticas mudanças em relação à temperatura, chuva, nível médio do mar, entre outros aspectos. Indicadores climáticos mostraram que o El Niño também foi impactado pelas mudanças climáticas ocorridas no Holoceno, que podem ter sido geradas pela variação nos parâmetros orbitais. Neste mesmo período, também ocorreu a extinção em massa de diversos animais e vegetais, principalmente de grandes mamíferos, por volta de 9.000 a 13.000 anos atrás, ou seja, ao final da última glaciação, no limite Pleistoceno - Holoceno. Este grande evento pode estar relacionado a dois outros eventos que ocorreram na mesma época, sendo eles a mudança climática e a fixação dos povos humanos. A quantidade de espécies que estão entrando em extinção é superior a quantidade de novas espécies ou até mesmo de nascimento de animais e vegetais. Com todas estas mudanças que ocorreram e continuam a ocorrer, teve início uma nova corrente de pesquisa, na qual os pesquisadores propõem uma época nova, o Antropoceno. No entanto, para que esta nova época seja efetivamente reconhecida na tabela geológica é necessário que se tenha uma significância ou ocorrência global que marque o estratotipo globalmente, um golden Spike. Esta significância ou golden Spike é um ponto que marca o limite entre tempos geológicos diferentes, e o grande desafio está sendo encontrar este ponto que determina o início do Antropoceno para que esta nova nomenclatura seja aceita sem ressalvas pela comunidade científica da geologia mundial. Embora seja aceito que o homem seja o grande causador de algumas mudanças que estão ocorrendo na Terra, não se sabe precisar se estes impactos se iniciaram com o advento da agricultura ou da industrialização, se estão relacionados ao crescimento da população e ao uso de recursos naturais. No final do século XIX e início do século XX, a sociedade deixou de ser industrial e passou a ser uma sociedade de informação, com um grande aumento da população global e consequente consumo de recursos naturais, modificando ainda mais o planeta Terra.

[iii] Há controvérsias se por volta de 1800, no começo da revolução industrial ou no pós 2ª Guerra, graças à radioatividade artificial. Um pouco disso na nota anterior.

[iv] Tradução do texto seminal publicado por Paul Crutzen & Eugene Stoermer em 2000 na Global Change Newsletter, 41:17-18 https://revistas.uminho.pt/index.php/anthropocenica/article/view/3095/2989. Sucinto, porém mostra o estrago que temos feito ao planeta.

[vi] São: "a modificação por barragens da sedimentação dos rios; mudanças na acidez dos oceanos; a introdução de produtos químicos anteriormente desconhecidos; as ruínas compostas de vastas infraestruturas que não se parecem em nada com as anteriores; as mudanças na taxa e na natureza da erosão; as variações no ciclo do nitrogênio; o aumento contínuo do CO2 atmosférico; sem esquecer o desaparecimento abrupto de espécies vivas durante o que os biólogos se resignam chamar de "sexta extinção" p. 187, 188. Muitos dos pontos tratados por Crutzen e Stoermer.

[vii] Nossa resenha segue a fina ironia latouriana.

[viii] Referência de Latour à ilustração de Jessica Fortner https://www.nature.com/articles/519144a.

[xi] Aqui ressaltando sua constante referência a Atlas, nesses tópicos: “Na mitologia da Grécia antiga, Atlas era um gigante condenado a carregar o universo nas costas”, conforme o artigo acessado em 16/01/2022:  https://escola.britannica.com.br/artigo/Atlas/480699.

[xii] Latour uso o livro “On Gaia: A Critical Investigation of the Relationship Between Life and Earth” de Tyrrell como base da argumentação do equivocado professor.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

There's only Gaia but Gaia is not One

Sobre uma nova agência que explica a vida na Terra, a partir de Lovelock[i]

1. Galileu, Lovelock: duas descobertas simétricas. A respeito da simetria, para Latour, se Galileu enfileirou a Terra no rol de planetas parecidos, Lovelock a trata como único, ou seja, fomos para o infinito, mas voltamos para nossos limites. Já em 65, em Pasadena, Lovelock dizia que ao invés de enviar grandes foguetes para buscar vida em Marte, bastaria um simples instrumento para verificar se sua atmosfera seria inerte ou não[ii].

Galileu, ao verificar sombras na Lua, traz uma nova concepção de cosmos em que não há mundo sublunar, mas também uma chaga filosófica que faz dos astros “bolas de bilhar” com as qualidades primárias de extensão e movimento. Isto é, todo o universo, infinito porquê seguidor das leis da natureza, é uma res extensa cartesiana. Porém, dentro dessa res extensa infinita, Lovelock postula que Vênus, Lua, etecetera, são mortos pois estão em equilíbrio químico ao passo que a Terra é viva pois seu desequilíbrio químico nos permitiu superar todas as adversidades as quais passamos, sejam vulcões ou meteoros, por bilhões de anos. Mas, prossegue Latour, essa força terrena é uma agência cuja potência de agir precisa ser investigada e, assim, estamos de volta ao mundo sublunar.

É a pergunta que traz Latour das ideias de Lovelock: por que temos o privilégio de sermos um planeta vivo[iii]? A despeito de seu envoltório para manter as diferenças internas e externas, Lovelock traz as qualidades secundárias para o primeiro plano, isto é, a terra e seu comportamento[iv], muito além do movimento descoberto por Galileu e que, lá, instalou uma dúvida que agora se renova. Se não somos o centro do universo como pensavam os antigos, estamos presos em nossa atmosfera local, sozinhos. Sublinha Latour que não há como escaparmos para o espaço, teremos que nos ver aqui embaixo.

2. Gaia, um nome mítico perigoso para uma teoria científica. Se é Gaia o nome que Lovelock escolhe para batizar sua teoria, Latour a investiga na mitologia grega, onde Gaia aparece não como uma deusa ou figura harmoniosa, mas controversa que traz bons conselhos ao mesmo tempo que aterroriza e é impiedosa. Bem, se há uma maldição a respeito de Gaia e, não obstante os avisos recebidos para não levar Lovelock a sério, Latour explica que persistiu, pois também teria sido difícil levar Galileu a sério lá pelos idos de 1610. Mas o problema ocorre, segundo ele, ao fazer da distinção galileana de qualidades primárias e secundárias, necessária para sua abordagem, a distinção moderna Cultura / Natureza[v] que passa a ser usada como filosofia geral que retira da terra qualquer comportamento.

É daí que surge a bifurcação da natureza tratada por Whitehead[vi] e que faz com que Gaia não se encaixe nesse esquema, assim como no cosmos medieval não cabia o movimento. Porém, uma nomenclatura alternativa como “ciência do Sistema Terra” não traduz o que Lovelock propõe sobre uma Terra com sua potência de agir. A Gaia de Lovelock não é um todo já composto e nem um sistema passivo de seres inertes que mantem viva a sua fina película. Gaia que, se não tem alma, a sua natureza também não é de cunho moral quase religioso oriunda de Galileu. Gaia é, enfatiza Latour, inteiramente secular, isto é, mundana e fora da lei.

3. Um paralelo com os micróbios de Pasteur. Latour, então, faz referência a Pasteur quando tentou convencer os cirurgiões de que seus instrumentos infectados com micróbios poderiam matar os pacientes, assim como Lovelock adverte que somos a doença de Gaia, mantendo-se o desafio de guerra e paz. A batalha de Pasteur vem com a inclusão de um agente desconhecido que “superanima” o mundo, superando o que era feito na época por uma análise estritamente química. Nos exemplos que Latour apresenta, seja da levedura que é agente da fermentação ou a potência de agir dos micróbios que eliminavam a suposta geração espontânea, há sempre novos objetos que surgem povoando o mundo, seja o da metafisica ou o cosmológico (da antropologia).

4. Lovelock também está espalhando os micros atores. Se a microbiologia lutou contra químicos eminentes, Lovelock luta contra os geólogos para passar da geoquímica para a “geofisiologia”. Conforme mostra Latour, a proporção de oxigênio e dióxido de carbono na atmosfera, responsável por adiar o desaparecimento do planeta, não é somente uma questão química, mas está ligada à erosão das rochas. Trata-se não só de forças geofísicas e geoquímicas, mas de uma série de micro-organismos vivos invisíveis que regulam nossa vida, por exemplo, evitando a concentração de nitrogênio nos oceanos.

5. Como evitar a ideia de sistema? Ocorre que, segundo Latour, há a questão de não superanimar a Terra como organismo vivo: apenas um e único agente coordenador. Se Lovelock diz que a Terra se comporta como um sistema autorregulado e sugere um ser senciente, isso dá a medida de seu esforço de definição de Gaia, mas não significa que se trata de um “Todo Superior”.

6. Os organismos fazem seu ambiente, não se adaptam a ele. Também, contrariando Darwin, para Lovelock os organismos não se adaptam ao ambiente, mas ajustam o ambiente para eles, manipulando-o em vista de seus interesses[vii]. Latour ressalta que Gaia não é uma composição de partes extra partes, mas de seres que se auto contagiam intencionalmente[viii]. Não somente humanos, mas formigas e vírus, enfim, todos agem transformando sua vizinhança em prol do que lhes favorecem e isso significa que não se trata de antropomorfismo, mas de uma característica geral da qual também participamos. Então, não há uma intencionalidade da totalidade, mas uma intencionalidade diluída, ou um caos de retroalimentações mútuas.

7. Sobre uma ligeira complicação do darwinismo. Rebatendo a crítica do darwinismo, continua Latour, há certo egoísmo no cálculo de interesse de cada agente, que de forma alguma é para algum todo superior, isto é, não há um planeta vivo lutando pela sobrevivência. Conforme Latour: “se há um resto de Providência, é nos darwinianos que corremos o risco de encontrá-la” (p. 168), já que o modelo de Darwin tem a sombra de um Criador agindo na seleção natural. Latour afirma que a biologia empresta da teoria econômica um modelo de cálculo matemático entre uma necessidade interna e o ambiente externo que não faz sentido se aplicado para Gaia e seus acasos e ruídos.

8. Espaço, filho da história. Se os evolucionistas insistiram em Gaia como um todo, mantendo uma separação entre indivíduo e totalidade, também não perceberam que Lovelock não só não toma as partes, como também não usa a totalidade para tratar das escalas. Porém, para isso conta com Margulis[ix na tarefa de mostrar, por exemplo, que o oxigênio surge no final do Arqueano a partir de microrganismos que, se tóxico, permitiu o surgimento da vida e da fotossíntese. Ou seja, o veneno trouxe novas perspectivas. Mas aí não há diferença de escalas, não há uma res extensa pelo qual os indivíduos se espalham, mas campos de interações. Se não há partes extra partes, conforme já dito, somos consequência do tempo e de agentes que se desenvolvem de maneira contingente e oportuna.

9. Antropomorfizar o homo economicus na era da geo-história. De acordo com Latour e a teoria de Gaia, então, não há uma natureza em sentido clássico, mas um emaranhado de acontecimentos imprevistos e ocasionais na geo-história que agora os humanos deixam sua marca.

Entretanto, Latour enfatiza que há um humanoide que calcula, que é econômico e que se universalizou trazendo a globalização que impede a homodiversidade. Seu padrão de comportamento é o da governança e o homo economicus não passa de um cérebro simples de capitalização e consumo com mínimos desejos e preso em sua natureza econômica. A modernidade trouxe a divisão entre uma natureza necessária e o reino da liberdade humana, mas que agora cai por terra a partir do acontecimento geo-histórico que nos deixa a mercê dos acontecimentos não humanos. Nos torna humanos imóveis, impassíveis em vias de desaparecer no antes espetáculo da natureza.

Por fim, Latour lembra novamente da bifurcação na natureza, de Whitehead, que agora se transmuta em qualidades primárias que são de sensibilidade e incerteza. Acontece que Latour ressalta que não se trata de uma antropomorfização da natureza a partir de nossos valores, mas de nos enquadrar nesse novo cenário em que perdemos o papel principal, ainda que na época do Antropoceno.



[i] Resenha da Terceira Conferência de Bruno Latour: Gaia: uma figura (enfim profana) da natureza. Em LATOUR, B. Diante de Gaia: oito conferências sobre a natureza no Antropoceno. São Paulo / Rio de Janeiro: Ubu Editora / Ateliê de Humanidades Editorial, 2020.

[ii] Tão simples quanto o telescópio de Galileu, mas para descoberta oposta, segundo Latour.

[iii] O que quer dizer corruptível, mas animado.

[iv] Potência de agir e comportamento são elaborados na segunda conferência, a qual já tratamos.

[v] Precisaríamos voltar à primeira conferência para revisitar o tratamento desse tema.

[vi] Autor que teremos que investigar, mas que Latour usa para opor uma natureza inanimada à nossa natureza animada.

[vii] Talvez seja possível fazer uma aproximação com Simondon, tópico Evolução da Realidade Técnica, referência: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/05/para-uma-educacao-tecnica.html.

[viii] Isto é, segundo ele, geoquímica versus geofisiologia.

[ix] Conforme https://pt.wikipedia.org/wiki/Lynn_Margulis: Lynn Margulis foi uma bióloga e professora na Universidade de Massachusetts. (...) Margulis também foi a co-desenvolvedora da hipótese de Gaia com o químico britânico James Lovelock, propondo que a Terra funcionasse como um sistema único de autorregulação, e foi a principal defensora e promotora da classificação dos cinco reinos de Robert Whittaker.