sábado, 24 de abril de 2021

Quando a técnica extrapola seu valor moral

Gehlen mostra o caminho da técnica que, em direção ao inorgânico, perde seu valor moral[i]

A técnica do inorgânico. A análise de Gehlen, seguindo as linhas de Kapp e McLuhan, parte da capacidade biológica humana de produzir instrumentos, da antropologia e do impacto da tecnologia na cultura. Para ele, o homem carece de órgãos e instintos especializados de adaptação ao ambiente e por isso deve transformar as condições naturais. Para agir, o ser humano se serve de princípios como a substituição e fortalecimento das capacidades biológicas por técnicas que são substitutivas, fortalecedoras e facilitadoras.

A técnica, como a nossa capacidade de transformar a natureza, faz parte da essência do homem e é esperta e improvável, como se pode ver, por exemplo, com a invenção da roda e do fogo. Entretanto, como alavanca de nossa cultura, ela substitui o orgânico pelo inorgânico, tanto nos materiais, quanto na energia que substitui a força humana e animal. Isso porque, salienta Gehlen pelo texto de Cupani, o inorgânico é mais fácil de conhecer racionalmente e experimentalmente, características da ciência moderna e da cosmovisão pragmático-positivista impulsionada pelo modo de produção capitalista.

Técnica sobrenatural. Gehlen também aborda a magia, tida como técnica sobrenatural, que foi usada durante milênios para imputar regularidade e estabilidade ao ambiente, seja intervindo na provocação de chuvas, fertilidade, entre outros. Dela se valiam as comunidades antes da ciência, funcionando como um autônomo animado, isto é, uma relação rítmica entre homem e cosmos, uma ressonância entre o homem e a natureza, o periodismo dos fenômenos no qual a ação humana se inseria e tentava intervir.

Então, magia e técnica visam facilitar a ação humana e evoluem em uma lei progressiva que passa pelo estágio da ferramenta, depois da máquina que dispensa energia humana, até o autômato, com processos autorregulados. Todavia, neste caminho evolutivo que culmina nos tecnólogos modernos, o trabalho é instintivo, posto que, dada a não especialização, o homem deve aumentar o controle sobre a natureza como lei de sua existência. E segue.

Cultura das máquinas. Tudo isso, aliado à produção capitalista e ao credo iluminista, leva à “cultura das máquinas” e a um intelectualismo, senão esoterismo, das ciências e das artes que fogem do naturalismo através de um experimentalismo sem metafisica. É uma experimentação incessante que se espalha pelas áreas chegando ao caráter transitório das produções artísticas, científicas e arquitetônicas e a indústria passa a viver a obsolescência das mercadorias. É o pensamento técnico e social moderno que se pauta em cinco “modos”: requerimento ou demanda total, efeitos preestabelecidos, mensuração padronizada, partes intercambiáveis e o princípio da concentração nos efeitos.

Efeitos da tecnologia. O resultado disso é prejudicial à nossa dimensão emotiva e moral que é substituída pela abstração e pela dificuldade de compreender a complexidade técnica que nos afasta do ambiente natural. Mas a atitude iluminista, que gerou essa cultura industrial, estava baseada em ingredientes como a bondade natural, o caminho racional para ser feliz ou a universalidade moral, que já não são mais endossados. Até a Revolução Industrial, nosso contato com o mundo orgânico trazia dependência das forças naturais. A partir dela, priorizamos o inorgânico que não suscita um padrão moral fazendo com que, no auge do século XX, tivéssemos perdido o senso de realidade e não fôssemos mais responsáveis pelo que fazemos. Assim, na visão de Gehlen, a técnica ultrapassa a magia na subjugação do natural, mas extrapolando qualquer norma moral traz consequências negativas para nossa alma. Contudo, como bom conservador, o autor não aponta soluções, segundo Cupani.



[i] Conforme Cupani, Alberto. Filosofia da tecnologia: um convite. 3. ed. - Florianópolis: Editora da UFSC, 2016. Capítulo 2: Estudos Clássicos: Arnold Gehlen. 

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