segunda-feira, 8 de novembro de 2021

A identidade de Vênus, segundo Frege

Visa explicar a diferença de valor cognitivo entre sentenças de identidade que possuem as formas "a = a" e "a = b" [i]

Suponhamos que existam duas sentenças de identidade, conforme abaixo:

Sentença 1: [a = a].

Sentença 2: [a = b].

Tomando a como: “a estrela da manhã” e b como “a estrela da tarde”, teríamos:

Sentença 1: [a estrela da manhã = a estrela da manhã]. Isto é: “A estrela da manhã é a estrela da manhã”.

Sentença 2: [a estrela da manhã = a estrela da tarde]. Isto é: “A estrela da manhã é a estrela da tarde”.

De acordo com Frege, a sentença 1 é evidente em si, ou seja, é analítica e a priori. Seus próprios termos já solucionam a questão. Ela é uma sentença trivial. Já a sentença 2 não é evidente em si, ou seja, é sintética e a posteriori e os termos não a solucionam pois há informação que deve ser investigada. Ela é uma sentença informacional. Então, tendo uma diferença de grau de informatividade, elas têm diferença de valor cognitivo pois permitem diferentes compreensões[ii], como:

Opção 1: Acreditar que “A estrela da manhã é a estrela da manhã, mas não acreditar que “A estrela da manhã é a estrela da tarde”.

Opção 2: Não saber que “A estrela da manhã é a estrela da tarde” e descobrir que “A estrela da manhã é a estrela da tarde”, ou seja, ampliar o conhecimento.  

Agora, tomando a como “Vênus” e b como “a estrela da manhã”, teríamos:

Sentença 1: “Vênus é Vênus”.

Sentença 2: “Vênus é a estrela da manhã”.

Esses novos exemplos parecem deixar claro que as sentenças tratam do mesmo conteúdo (Vênus) e, nesse caso, como seria possível terem valor cognitivo diferente? Naidon postula que, de acordo Frege, elas teriam valor cognitivo diferente porque a sentença 2 possui dois termos singulares: "Vênus" e "a estrela da manhã" (assim como no primeiro exemplo). Mas, ambas se referem ao mesmo objeto, embora a primeira seja mais trivial. Não só isso, eles (os dois termos) são exatamente, numericamente, o mesmo[iii].

O problema que surge é que parece ser uma solução arbitrária porque nada garante que cada termo singular designe o mesmo objeto, e aí poderíamos usar sentenças que tomassem qualquer definição. Então, não se trata de agregar um conhecimento real fora da linguagem e, daí, poderiam ter o mesmo valor cognitivo, o que inviabiliza tudo o que foi dito até agora e traz uma nova perspectiva ao problema que estamos tratando, da diferença de valor cognitivo entre sentenças de identidade.

Conclui-se que não se trata somente de conteúdo, mas do sentido e sua referência. Se expressamos "Vênus" ora como a estrela da manhã e ora como a estrela da tarde, não se trata de nos perguntarmos pelo conteúdo do que é dito (a mesma referência, digamos assim), mas do sentido, da informação que se transmite de modos diferentes. E cada modo é um sentido diferente e, por isso, um valor cognitivo diferente, um pensamento diferente, não havendo necessidade de referir-se ao conteúdo em si.

Vênus, estrela d´alva, estrela Vésper, tem brilhado muito esses dias. Agora, de lá, teríamos essa visão da Terra:

https://pbs.twimg.com/media/FDX6hBnWEAUnvK4?format=jpg&name=small

(Conforme: Black Hole: https://twitter.com/konstructivizm).



[i] A partir de https://revistas.pucsp.br/cognitio/article/download/5808/4118, acessado em 06/11/2021.

[ii] Conforme Naidon: "Valor cognitivo consiste, por conseguinte, no quanto uma sentença é capaz de fornecer conhecimento a quem a compreende se ela for verdadeira".

[iii] Sobre Vênus e identidade numérica: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2020/02/duas-acepcoes-de-identidadei.html.

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