terça-feira, 16 de julho de 2019

A unidade complexa de Russell*

Russell inicia comparando o conhecimento de coisas, que se referem a algo, com o conhecimento de verdades que está sujeito ao erro. Ou seja, as coisas conhecidas existem, não há como negar, porém o conhecimento de verdades envolve um dualismo, já que uns podem acreditar em algo errado na mesma intensidade em que outros podem acreditar em algo certo. Para analisar essa questão ele estuda primeiro o significado da verdade e da falsidade.[i] Então, Russell enumera três pontos na busca da natureza da verdade: 1) uma teoria da verdade deve admitir seu oposto, a falsidade; 2) para haver verdade e falsidade é preciso mais do que somente matéria no mundo, é preciso crenças e afirmações das quais se obtêm verdade e falsidade; 3) apesar da ligação da verdade ou falsidade com a crença, elas não são qualidades intrínsecas da crença, mas a respeito de algo que a crença se refere.
Russell comenta a visão de muitos filósofos de que a verdade é algo que corresponde à ligação da crença com o fato, corroborando a ligação com algo externo e nomeando como a teoria da coerência[ii], quando a falsidade é a falta de coerência com o conjunto de nossas crenças. Porém, Russell salienta que não há apenas um conjunto coerente de crenças usando como exemplo a ciência, onde há mais de uma hipótese para um conjunto de fatos de determinado assunto, assim como em Filosofia, que também pode haver mais de uma hipótese capaz de suplantar todos os fatos, por isso a coerência falha como definição da verdade. Além do mais, a coerência pressupõe as leis da lógica, p.ex., a lei da contradição que, se falsa, "nada será mais incoerente com qualquer outra coisa". Dito isto, ele conclui que a coerência seria mais um teste da verdade e não se confundindo com a própria verdade.
Russell então retorna à correspondência com os fatos como sendo a natureza da verdade, ressaltando que não significa uma relação da mente com um objeto, senão não haveria seu oposto, a falsidade. Aprofundando essa correspondência, ele mostra que, às vezes, a crença não se refere a nenhum objeto em outras a inúmeros, nas palavras do filósofo, tratando da crença ou do julgamento:
What is called belief or judgement is nothing but this relation of believing or judging, which relates a mind to several things other than itself. An act of belief or of judgement is the occurrence between certain terms at some particular time, of the relation of believing or judging.
Segundo Russell o ato de julgar envolve um sujeito, a mente, e objetos que são os termos que são julgados. Eles são os constituintes do ato de julgar e tem um sentido ou direção, ou seja, há uma ordem entre eles. Para ele, qualquer relação entre sujeito e objetos os une em um todo complexo, e o inverso, onde há um objeto complexo há relação unindo seus constituintes. Mesmo dentro dos objetos pode haver outras relações dependendo da relação primeira que é a crença ou julgamento. Já acreditar falsamente invalida as relações dos objetos.
Russell encontra então a definição de verdade: quando a crença corresponde a uma unidade complexa formada pelos termos, a relação e a mente.[iii] Assim, verdade e falsidade são propriedades extrínsecas das crenças e no limite não envolvem a mente, somente os objetos das crenças, como ele diz: “Hence we account simultaneously for the two facts that beliefs (a) depend on minds for their existence, (b) do not depend on minds for their truth”. A verdade é a correspondência entre a crença e esse fato composto pela unidade complexa e a falsidade aparece quando não há tal fato. Porém, verdade e falsidade não são criadas pela mente, mas a mente cria crenças feitas verdade por um fato.



* Bertrand Russell, Problems of Philosophy. TRUTH AND FALSEHOOD. Acessado em 9/7/2019: http://www.ditext.com/russell/rus12.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/07/graus-de-autoevidencia.html.
[i] Importante ressaltar que o enfoque de Russell aqui é na busca do que é verdade e falsidade e não de quais crenças são verdadeiras ou falsas.
[ii] Em algum momento deveríamos confrontar a teoria do conhecimento de Russell com Descartes, já que ele põe em dúvida o conhecimento oriundo dos sentidos (sujeito ao erro). Já Russell aqui parece fazer o oposto.
[iii] Esse complexo parece uma coisa que precisará ser mais bem investigado ontologicamente.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Graus de autoevidência*

Russell inicia dizendo que geralmente todas nossas crenças são capazes de prova por alguma razão ou mesmo outra crença, embora isso não ocorra conscientemente. Porém, ao subir na escala das razões, questionando-as, chegaremos a princípios gerais evidentes e não dedutíveis, ao nível da indução, e princípios lógicos não demonstráveis. Russell ressalta que até proposições aritméticas simples, mesmo que deduzidas, têm tanta evidência quanto princípios lógicos e os princípios éticos como: "we ought to pursue what is good”, embora esses últimos mais questionáveis.
Russell diz que, ao comparar princípios gerais com casos particulares, os últimos são mais evidentes, como no caso de uma rosa que estamos vendo, não podemos dizer que é e não é vermelha[i], excetuando-se aí os casos que usam abstração. Somam-se aos princípios gerais as verdades autoevidentes diretamente derivadas da sensação, chamadas por Russell de verdades da percepção e sobre as quais recaem julgamentos da percepção, embora não verdadeiros ou falsos. São verdades obtidas dos dados-dos-sentidos, porém não se pode dizer de uma amostra de cor que é verdadeira ou falsa, ele simplesmente existe.
Há, então, um julgamento da existência dos dados-dos-sentidos e outro que o analisa, ambos considerados por Russell verdades autoevidentes. No segundo caso, dados-dos-sentidos têm constituintes como um pedaço de vermelho que é redondo e nossos julgamentos revelam essas relações. Outro julgamento intuitivo abordado por Russell é a memória, a qual coloca na frente de nossa mente um objeto que remete ao passado trazendo todo o conhecimento do que vivenciamos. Russell comenta que os julgamentos da memória dependem do quão recente foram nossas experiências: as mais recentes mais vívidas, porém as mais antigas não nos trazem uma certeza evidente. Ou seja, há graus de evidência e fidedignidade do que apreendemos pela memória.
Ele enfatiza essa característica da autoevidência, que são os graus, desde os mais altos como verdades da percepção e princípios lógicos, passando pelo princípio da indução até chegar à variação da memória e julgamentos éticos e estéticos. Assim, Russell ressalta a importância dos graus de autoevidência na teoria do conhecimento, pois, se proposições podem ter graus de evidência sem serem verdadeiras, onde houver um conflito entre verdade e evidência, as proposições mais autoevidentes devem ser mantidas. Por fim, Russell diz que a noção de autoevidência varia entre a verdade (alto grau) e a presunção (baixo grau) e desenvolverá tal conceito associado ao conhecimento e o erro, porém antes investigará a natureza da verdade.




* Bertrand Russell, Problems of Philosophy. ON INTUITIVE KNOWLEDGE. Acessado em 3/7/2019: http://www.ditext.com/russell/rus11.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/07/o-conhecimento-priori-lida-com-relacoes.html.
[i] O caminho natural é de particular ao geral, ou seja, é indutivo!

sábado, 6 de julho de 2019

O conhecimento a priori lida com relações universais[i]

Russell divide o conhecimento de universais entre por familiaridade / experiência e por descrição[ii]. Temos familiaridade com o branco, doce, etc., qualidades dos dados-dos-sentidos, chamadas por ele de "qualidades sensíveis", que são abstraídas da observação de diversas coisas vermelhas, doces, etc. Também estamos familiarizados com relações em um único dado, por exemplo, uma folha onde pela abstração vemos partes brancas, coisas à esquerda de coisas à direita e das quais extraímos relações universais, assim como da sequencia de sons de um sino, no tempo, abstraímos relações universais de antes e depois.
Outro tipo de relação que conhecemos por familiaridade, ressaltada por Russell, é a semelhança (ou similaridade) entre duas cores, p.ex., quando temos uma consciência imediata de que o verde é mais próximo de outro verde do que do vermelho, ou seja, conhecemos relações entre relações (verde-verde, verde-vermelho) que competem a universais assim como as qualidades sensíveis. Com esse resultado, Russell pode então retomar a sentença "2+2=4" conhecida a priori, mas de solução deixada em aberto, para mostrar que ela trata da relação entre dois universais: dois e quatro. Isso vai permitir a ele estabelecer a proposição: "All a priori knowledge deals exclusively with the relations of universals" para solucionar o problema do conhecimento a priori.
Segundo Russell, conhecemos uma proposição conhecendo as palavras por familiaridade e por aí percebemos que muitos casos que tratariam de particulares na verdade tratam de universais. Assim, como acabamos de mencionar, “dois mais dois igual a quatro” pode ser entendido por quem conhece os universais dois e quatro e a relação entre eles. Contudo, salienta Russell, isso não quer dizer que podemos antecipar e controlar a experiência, como explorado em capítulo anterior[iii]. Podemos, sim, saber a priori que “2+2=4”, mas isso não é válido para coisas particulares, pois elas dependem de elementos empíricos.
Ele então compara o conhecimento por generalização empírica com o conhecimento a priori dizendo que, por mais casos particulares que conheçamos, ainda assim há um grau de certeza não comparada a evidência do conhecimento a priori de universais, pois ainda dependerá de um conhecimento indutivo.[iv] Ainda sobre o conhecimento por familiaridade, pode haver casos em que se chega à evidência pela via da experiência ou em que conhecemos uma proposição geral sem tratar casos particulares. Russell elenca entre eles o caso dos objetos físicos dos quais nunca temos sequer uma evidência dada na experiência e ainda assim podem ser inferidos dos dados-dos-sentidos ou o conhecimento de outras mentes.
Nesse ponto, ele descreve uma hierarquia das fontes do conhecimento que ilustramos abaixo e que resume muito do que foi tratado nos outros capítulos até agora.
Russell conclui que o conhecimento de verdades depende da intuição e verificará, assim como fez com familiaridade, seu escopo e natureza, porém tratando de um fator novo, o erro. O conhecimento de verdades, então, é mais difícil, pois teremos que distinguir casos que sejam conhecimento ou erro por conta de crenças que podem ser erradas.



[i] Bertrand Russell, Problems of Philosophy. ON OUR KNOWLEDGE OF UNIVERSALS. Acessado em 26/6/2019: http://www.ditext.com/russell/rus10.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/06/russell-platonicoi.html.
[ii] Retomando distinção do capítulo V que não resenhamos.
[iii] Conforme "HOW A PRIORI KNOWLEDGE IS POSSIBLE" (http://www.ditext.com/russell/rus8.html): "It seems strange that we should apparently be able to know some truths in advance about particular things of which we have as yet no experience; (...). This apparent power of anticipating facts about things of which we have no experience is certainly surprising." Não problematizamos esse assunto em nosso fichamento por não parecer ser tema ligado ao foco central de discussão, embora muito pertinente no que se refere à ciência.
[iv] Two opposite points are to be observed concerning a priori general propositions.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Russell platônico[i]

Russell inicia esse capítulo retomando as relações e as trata como entidades com um tipo de ser diferente dos objetos físicos, das mentes e dos dados-dos-sentidos, remetendo o seu tratamento à bem sucedida teoria das ideias de Platão. Ao questionar a noção de justiça, a teoria das ideias (ou formas) começa por verificar atos justos particulares mostrando que todos eles participam de uma natureza comum (ou essência), “a justiça”. De posse dessa essência que não está presente no mundo, pois não é particular e nem se degrada, ele a caracteriza como eterna, assim como a brancura, etc.
Para Platão, o mundo suprassensível das ideias é o real ao passo que nosso mundo dos sentidos é uma cópia, o que nos levaria a buscar por esse conhecimento beirando um misticismo. Porém, Russell enfatiza que na verdade sua base é lógica e entende as ideias de Platão como universais, em oposição ao particular dado pelos sentidos, e compartilhado por eles.
Então Russell define a maioria das palavras como universais: substantivos, adjetivos, preposições e verbos, deixando como particulares os nomes próprios e pronomes. Com base nisso, ele argumenta que nenhuma sentença pode ser feita sem universais e que todo conhecimento de verdades então está ligado a eles, reforçando essa abordagem ao dizer que todas as palavras do dicionário são universais e que muitas vezes tentamos transformar universais em particular como no caso da sentença: “Charles I's head was cut off”. Pensamos em Carlos I, na sua cabeça e no ato de cortá-la como particulares quando na verdade cabeça e cortar são universais.[ii]
Ele acusa o negligenciamento no uso de preposições e verbos como universais em detrimento dos adjetivos e substantivos, já que os últimos expressariam propriedades das coisas e os primeiros tratariam de relações entre elas, supostamente não existentes, como, por exemplo, o monismo de Espinosa e Bradley e o monadismo de Leibniz. Russell considera verbos e preposições mais universais, de fato. Ao tratar da brancura, ele relembra que sua existência foi negada por Berkeley e Hume, pois eram ideias abstratas inexistentes, porém não usar ideias abstratas significa comparar coisas particulares por semelhança, mas ela mesma seria um universal.
Admitindo, então, as relações como universais, Russell mostrará que não são meramente mentais. Ao tratar da proposição "Edimburgo está ao norte de Londres" Russell diz que apesar da discordância de Berkeley e Kant, essa é uma relação que já está no mundo antes de nossa apreensão e pertence somente a Edimburgo e Londres. Assim, sendo um fato independente do pensamento, a relação “norte de” presente na proposição é um universal independente da mente humana. Porém, diferentemente de Edimburgo e Londres, a relação “norte de” parece não existir em nenhum tempo e lugar.[iii]
Relembrando a ambiguidade no conceito da ideia de Berkeley, Russell diz que podemos pensar em um universal, cada homem pode ter um pensamento da brancura, mas a brancura é o objeto desses pensamentos e diferente deles. Para finalizar, Russell caracteriza o mundo dos universais, em oposição ao mundo da existência onde pensamentos, mentes e objetos existem no tempo, como o mundo dos seres "sem tempo", imutável e rígido. Se, ao contrário, o mundo da existência é vago e fugaz, ele é o mundo da vida, porém, acrescenta ele, ambos os mundos são reais e importantes para os estudos metafísicos e serão explorados adiante.



[i] Bertrand Russell, Problems of Philosophy. THE WORLD OF UNIVERSALS. Acessado em 24/6/2019: http://www.ditext.com/russell/rus9.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/06/a-mente-que-liga-o-mundo.html.
[ii] Conforme suas palavras: “Hence we succeed in avoiding all notice of universals as such, until the study of philosophy forces them upon our attention”.
[iii] Ele diz disso: “It is neither in space nor in time, neither material nor mental; yet it is something.”

domingo, 23 de junho de 2019

A mente que liga o mundo*

Ao tratar do conhecimento a priori, Russell remete a Kant definindo-o como um conhecimento não puramente analítico e do qual extraiu resultados metafísicos. Um conhecimento analítico é aquele no qual predicados são extraídos do sujeito, p.ex.: “Um homem careca é um homem.”. Tal tipo de conhecimento perdurava entre os racionalistas e não podia ser negado já que contrariaria a lei da contradição[i]. Partindo dessa visão anterior a Kant, Hume mostrou que alguns conhecimentos considerados analíticos eram de fato sintéticos, como a conexão entre causa e efeito sobre a qual nada era conhecido a priori, em oposição ao assumido pelos racionalistas de que o efeito poderia ser deduzido da causa.
Da tradição racionalista, Kant ficou balançado com essa visão cética e percebeu que todas as proposições aritméticas e geométricas eram sintéticas a priori, p.ex., “5+7=12”, 12 sendo uma ideia nova não extraída de 5+7, mas como? Segundo Russell, essa era uma questão que deveria ser investigada por filósofos não céticos e retoma o já dito de que não há conhecimento matemático por indução a partir do particular porque a validade do princípio [de indução] não se prova por si mesma e que basta uma instância para certa garantia, novas nada acrescentam.[ii] Mais do que isso, há uma incompatibilidade: o conhecimento é geral experiência é particular.
A solução kantiana define dois elementos em nossa experiência, um devido ao objeto e outro devido à nossa natureza. Russell concorda: dados-dos-sentidos e matéria. Para Kant, conhecemos a priori espaço, tempo, causalidade, etc., porém o material da sensação vem do objeto que é dividido entre a coisa-em-si incognoscível e o fenômeno, conhecido na experiência e que concorda com o a priori já que contem elementos de nossa natureza.
Tentando harmonizar empiristas e racionalistas, Kant diz que independentemente do conhecimento a priori (racionalista!), não podemos conhecer nada da coisa-em-si mesma que não seja um objeto atual ou possível de nossa experiência (empirista!). Segundo Russell, se para Kant é certo que os fatos devem sempre concordar com a lógica e a aritmética (conhecimento a priori), pois é de nossa natureza, ela mesma poderia um dia mudar, como qualquer coisa no mundo, e poderia acontecer de amanhã 2+2 ser igual a cinco, o que destruiria a certeza e universalidade das proposições aritméticas. Além do mais, Russell argumenta que o a priori de Kant fica limitado dessa forma, pois “2+2=4” deveria valer também para coisas-em-si e não só para fenômenos.
Segundo Russell alguns filósofos viram o a priori como uma forma de pensar, algo mental. Porém, ele diz que, apesar de natural, o a priori se refere também às coisas: a lei de contradição significa não somente que não podemos pensar “ao mesmo tempo” que uma árvore é uma faia e não é uma faia como a árvore em si (a coisa-em-si real árvore) não é uma faia. Se a lei de contradição é uma lei do pensamento porque não precisamos olhar duas vezes para árvore para ver que não é faia, isso se da não porque a mente é feita dessa forma, mas pelo resultado de nossa reflexão. Entretanto, não é a lei de contradição que garante isso, mas o fato dela aplicada na natureza, nas coisas[iii].
Assim o conhecimento a priori não é, para Russell, sobre a constituição da mente, mas sobre o que o mundo contém, seja mental ou não. Ocorre que essa teoria kantiana trata de relações que não são mentais nem físicas, pois considera coisas-em-si incognoscíveis, mas em uma relação entre elas produzida pela mente. Assim, o fato de haver um pernilongo em meu quarto, a relação "em" é criada por nós, segundo Kant e algo que Russell se debruçará a seguir, pois, independente de nós, parece certo que o pernilongo está no quarto.



Bertrand Russell, Problems of Philosophy. HOW A PRIORI KNOWLEDGE IS POSSIBLE. Acessado em 6/6/2019: http://www.ditext.com/russell/rus8.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/06/principios-logicos.html.
[i] Analítico pois basta analisar o enunciado para se extrair propriedades que não poderiam ser negadas.
[ii] Conforme Russell: “Thus our knowledge of the general propositions of mathematics (and the same applies to logic) must be accounted for otherwise than our (merely probable) knowledge of empirical generalizations such as 'all men are mortal'.”
[iii] Nas palavras do filósofo: “Thus the law of contradiction is about things, and not merely about thoughts; and although belief in the law of contradiction is a thought, the law of contradiction itself is not a thought, but a fact concerning the things in the world.”

sábado, 8 de junho de 2019

Princípios lógicos*

A teoria do conhecimento de Russell aborda os princípios de inferência (considerados óbvios) que são aliados do princípio de indução na tentativa de validar a experiência e que possuem graus de certeza similares aos dados-dos-sentidos. Ele nos recorda que princípios lógicos partem de casos particulares para leis gerais, assim como a aritmética (“2+2=4”, “a+b=c”, etc.) e que há um tipo de implicação geral: “whatever follows from a true proposition is true” que, se parece trivial, deve ser investigada pelo filósofo. Ele enumera exemplos de tais princípios lógicos classificados como “Leis do Pensamento”:
(1) The law of identity: 'Whatever is, is.'
(2) The law of contradiction: 'Nothing can both be and not be.'
(3) The law of excluded middle: 'Everything must either be or not be.'
Investigando a história, Russell aponta para a distinção entre empiristas (Locke, Berkeley e Hume) e racionalistas (Leibniz e Descartes) tomando partido dos segundos: para os empiristas todo conhecimento vem da experiência, já os racionalistas admitem ideias inatas (entre as quais Russell inclui os princípios lógicos), base do conhecimento. Ideias inatas são referidas por Russell pelo termo a priori: algo que não vem da experiência, mas é base para ela. Por outro lado, de acordo com Russell, os racionalistas erram ao propor conhecimentos que podem ser deduzidos independentemente da experiência. Ele enfatiza que todo conhecimento de algo existente é empírico, ou seja, provém da experiência, direta ou indiretamente. Então, conhecer o que existe envolve dados-dos-sentidos e sem eles há somente um conhecimento hipotético.[i]
Russell cita como conhecimento a priori, mas não lógico, o valor ético. São julgamentos que consideramos valorosos não por um fim útil, mas por nossa própria conta, independentemente da experiência. Tais julgamentos éticos, p.ex., felicidade ao invés de tristeza, etc., não podem ser provados pela experiência, pois é impossível deduzir o que deveria ser do que é, embora sejam aplicados na experiência. Ponto crítico, a matemática é para Russell a priori e um princípio geral que pode ser pensado abstratamente, embora os empiristas considerem um conhecimento por indução: ver muitas vezes duas coisas juntas somando quatro, etc. Assim como as propriedades do triângulo que podem ser tiradas de apenas um triângulo, do particular direto ao geral. Na aritmética, “2+2=4” tão logo se evidencie a verdade dessa proposição não precisa ser reiterado na generalização da experiência, pois já atinge grau de certeza. Russell usa o famoso exemplo dos “outros mundos possíveis”: mesmo que existam outros mundos é inconcebível que a soma “2+2” não seja sempre “4”, isto é, não é um fato que pode mudar.
Russell então compara: 1.) um conhecimento factual "Todo homem é mortal" que necessita de muitos exemplos (generalização empírica) de que todos morremos para termos certeza com 2.) o conhecimento lógico matemático do tipo “2+2=4” que requer apenas um exemplo para ser tomado como certo para reabilitar a possibilidade do conhecimento dedutivo (do geral ao particular). P.ex., Pedro e João somados a Paulo e Celso somam quatro homens embora não os conheçamos, mas ele rechaça o argumento dedutivo clássico: “Se todo homem é mortal; Sócrates é homem; Sócrates é mortal” mostrando que dependeria de um conhecimento indutivo de Sócrates para convencer de maneira mais clara.[ii] Nas palavras do filósofo:
This illustrates the difference between general propositions known a priori, such as 'two and two are four', and empirical generalizations such as 'all men are mortal'. In regard to the former, deduction is the right mode of argument, whereas in regard to the latter, induction is always theoretically preferable, and warrants a greater confidence in the truth of our conclusion, because all empirical generalizations are more uncertain than the instances of them.[iii]
Russell, então, nos avisa que investigará como é possível o conhecimento de proposições a priori (lógica, matemática pura, ética) e de proposições gerais, onde há casos infinitos de análise, recorrendo ao nobre Kant.



(*) Bertrand Russell, Problems of Philosophy. ON OUR KNOWLEDGE OF GENERAL PRINCIPLES. Acessado em 31/05/2019: http://www.ditext.com/russell/rus7.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/05/sobre-inducao.html.
[i] Percebemos que ao longo da investigação Russell mantém seu compromisso com dados-dos-sentidos.
[ii] Um silogismo é um termo filosófico com o qual Aristóteles designou a conclusão deduzida de premissas, a argumentação lógica perfeita. É um argumento dedutivo constituído de três proposições declarativas (duas premissas e uma conclusão) que se conectam de tal modo que, a partir das duas primeiras (as premissas), é possível deduzir uma conclusão. https://pt.wikipedia.org/wiki/Silogismo, acessado em 8/6/2019.
[iii] Nota-se a concordância de Russell com a lógica indutiva moderna em detrimento da dedução dos gregos.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Sobre a indução*

Como Russell nos mostrou até agora[i], o conhecimento das coisas existentes e que adquirimos pela nossa experiência nos limita e ampliar esse conhecimento passa pela inferência (p.ex. sabermos que o barulho do trovão é sempre precedido por um raio, etc.). A respeito do sol que nasce todo dia, Russell se pergunta se confiar que ele nascerá novamente amanhã é um resultado cego do que vemos diariamente ou poderia ser uma crença razoável.
Ele argumenta que é plausível supor que o sol nasça amanhã porque nasce todos os dias (resultado cego), mas podemos inferir essa crença das leis do movimento da terra, dos astros, etc., leis essas em que confiamos porque sempre aconteceram (crença razoável). Ou seja e ainda assim, a probabilidade do sol nascer amanhã se basearia nas nossas observações diárias e, por isso, coisas que ocorrem frequentemente seriam a causa para que acreditemos que continuem ocorrendo frequentemente, embora possam ser enganosas, às vezes. Nesse sentido, Russell cita o inusitado caso do frango que sempre foi alimentado diariamente por seu dono até que teve seu pescoço torcido. Então, não estaríamos na mesma posição desse frango? Que certeza nós teríamos para esperar que tais eventos ocorram?
A pergunta se volta se podemos crer nessa uniformidade da natureza, onde há leis gerais como as leis do movimento e a lei da gravidade que são usadas pela ciência e tomadas como “sem exceção”. Elas se mostram válidas até agora, mas podemos crer que o que houve no passado continuará a ocorrer, por alguma razão específica? Haveria uma lei garantidora do futuro que não o próprio passado (que já foi futuro...)? Há garantias de que duas coisas que normalmente estão associadas continuarão a estar? A partir dessas perguntas, Russell diz: “On our answer to this question must depend the validity of the whole of our expectations as to the future, the whole of the results obtained by induction, and in fact practically all the beliefs upon which our daily life is based.”
Logo, estamos no terreno da probabilidade que, se pode sempre aumentar, nunca é certa já que o último exemplo pode ser uma falha (lembremos do frango!!). Russell, então, define o princípio da indução baseado na frequência da associação em que, se elevando a probabilidade, pode chegar à certeza. E do particular ele formula a regra geral:
“(a) The greater the number of cases in which a thing the sort A has been found associated with a thing the sort B, the more probable it is (if no cases of failure of association are known) that A is always associated with B;
(b) Under the same circumstances, a sufficient number of cases of the association of A with B will make it nearly certain that A is always associated with B, and will make this general law approach certainty without limit.”
Essa probabilidade, conclui Russell, se assenta em um conjunto de dados verificados e novos dados não a invalidam, mas criam um novo quadro. Apesar disso, se o princípio da indução não é garantidor do futuro, ele é um grande aliado nas convicções diárias pois as leis gerais, a despeito das inúmeras evidências, por si só nada dizem sobre o futuro, se não se assentarem em tal princípio.