Mostrando postagens com marcador interpretação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador interpretação. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Anotações Livro Azul

Visa trazer anotações iniciais sobre uma primeira leitura d’O Livro Azul[i]

Substantivação: Wittgenstein nos chama a atenção, na primeira página (p 21), para uma prática que leva a erros filosóficos, qual seja, ao tratar de um substantivo procurar por um objeto associado. Aqui parece uma espécie de crítica à ostensão[ii], quando uma palavra é significada apontando para uma coisa e também visa marcar um objeto, defini-lo de forma fixa e não pelo dinamismo da linguagem. Um antídoto a essa prática seria reformular perguntas que se referem ou buscam por coisas por perguntas que buscariam por uma explicação de palavras ou conceitos para fugir do objeto. Na verdade, mesmo a ostensão não garante o significado, já que a interpretação pode variar. (Por exemplo, eu aponto para algo no céu que chamo avião, mas você pode chamar disco voador.) Por outro lado, há um uso mistificador da linguagem (p 29) que nos confunde quando tratamos de certos substantivos, como o tempo e queremos verificar a sua natureza[iii] tendendo-se a diviniza-lo.

Frege: entendemos que há uma crítica ao conceito de sentido posto por Frege, que seria algo que daria vida à linguagem, ao invés de meros signos inertes, porém que pareceriam direcionar a algo imaterial, quando Wittgenstein entende que o sentido vem da utilização da linguagem. Aí teria uma referência implícita a Occam, ao se questionar por que a adição de um sentido animaria aquele signo. Evita-se o sentido pela utilização e a frase ganha vida pela linguagem. Na verdade, os mais variados sentidos são descobertos pelo uso em cada caso particular, em cada contexto e é pela gramática que o sentido pode ser explicado.

Depois de falar sobre dificuldades na compreensão gramatical, jogos de linguagem aparecem como simplificações de linguagem (p 44), próximos de uma linguagem primitiva ou daquela usada pela criança e que não envolveriam pensamentos complexos, permitindo desnudar o uso da linguagem habitual e que se mostrarão, a bem da verdade, similares ao de uma linguagem mais complicada.

Ele trará um método de análise linguística (p 61) que não se aterá a qualquer tipo de significado verdadeiro para uma palavra, mas que mostra que seu sentido é sempre dado por alguém e que são expressos pela linguagem comum, mas perfeita que uma linguagem ideal. E também um método que rejeita que há um processo mental de pensamento como uma instância além do seu mero caráter de expressar o pensamento, isto é, o ato mental não passa de manipulação dos símbolos pela linguagem. Ele remete a velha distinção entre um mundo mental e um mundo físico, sem que nos esqueçamos de que nossas certezas pessoais ou mesmo estados psíquicos podem nos levar a um excesso de subjetivismo, ao passo que proposições sobre objetos físicos pode sem comprovadas pela experiência.

Temos certeza de quão rasas são essas primeiras notas da obra e o quão incerto meu entendimento, o que nos instiga a futura leitura detida, mas falemos dos tão polêmicos dados dos sentidos que nosso autor traz ressaltando a atitude metafisica e que parece desmistificar o idealismo / solipsismo. Para ele, o metafísico aproxima os dados dos sentidos e que seriam privados, aos corpos físicos, tratando ambos como verdades científicas, como que expressando aquela indubitável certeza. Mas, não seriam eles, os dados dos sentidos e o objeto físico uma e a mesma coisa? Isso ele parece dizer (p 114), quando compara os dados visuais de uma árvore com a árvore física. Ora, sem os dados visuais dela, a árvore deixaria de existir? Finalizemos com a citação: “Ora, o perigo que corremos quando adotamos a notação dados dos sentidos é o de esquecermos a diferença entre a gramática e uma declaração sobre dados dos sentidos e a gramática de uma declaração, exteriormente semelhante, sobre objetos físicos.” (p 123). 



[i] WITTGENSTEIN, L. O Livro Azul. Lisboa: Edições 70, 2018. Anotações expressas..

[ii] Como sendo o sentido.

[iii] Santo Agostinho recebe uma crítica mais a frente por querer “medir o tempo” (p 58) – tempo que é sempre fugidio.... 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Behaviorismo de Skinner[i]

Trata de pontos da diferença entre o behaviorismo metodológico de Watson e o behaviorismo radical de Skinner, dentro da concepção de comportamento na psicologia.

Behaviorismo metodológico. Embora o behaviorismo já tenha saído de pauta, conforme afirma Teixeira, é importante seu conhecimento pois a ele se oporá o cognitivismo. Portanto, de acordo com a psicologia popular[ii] e o behaviorismo metodológico, o comportamento é identificado como um “movimento muscular observável”. Essa é a visão de Watson, baseada no estímulo-resposta que retira a mente do discurso científico objetivo e experimental, bem como o vocabulário mentalista oriundo da introspecção e consciência.

Teixeira nota que, paradoxalmente, tal concepção o aproxima de Descartes, na medida em que separa e não estuda a mente. Na perspectiva do behaviorismo metodológico, o estudo de comportamento dos humanos se aproxima dos animais, embora reconhecendo o papel da linguagem ou da imaginação, mas pautando o estudo sensório-motor, estudo do comportamento em termos de reflexos, mesmo nem todos os comportamentos produzindo estímulos.

Crítica de Ryle. Teixeira traz as críticas de Ryle, através de situações onde, por uma observação apenas fenomenalista, não se consegue distinguir entre comportamentos involuntários, deliberados ou mesmo algum tipo de imitação ou fingimento. Segundo Ryle, isso só seria possível pela interpretação, pois somente pelo movimento muscular não se poderia conhecer o comportamento exato. Para Ryle, é preciso uma linguagem mentalista e atribuição de crenças e intenções a alguém, ou seja, o mental não se reduz ao comportamento.

Behaviorismo radical. Já Skinner considera estados mentais, embora sem causa operante. Em seu behaviorismo radical, o comportamento operante pode não ser observável e não se reduz a causa e efeito[iii]. Ou seja, o comportamento operante não requer estímulo identificável, mas sua resposta produz um efeito no ambiente em que o organismo está inserido, mas que pode ser pautada por um estímulo discriminativo que pode ser inferido. Nesse caso, não há respostas idênticas, mas classes de estímulos e respostas genéricas e eventos reforçadores (consequências) responsáveis pelo condicionamento.

Interpretação. De acordo com Teixeira, Skinner rompe a barreira mecanicista do estímulo-resposta e, em seu behaviorismo radical, as frequências de respostas e reforços trazem a probabilidade, que vai além do tudo ou nada, e o comportamento supera o que é dado somente na percepção. Ao rejeitar a associação entre comportamento e movimento muscular perceptível, Skinner diz que “uma ciência do comportamento só pode oferecer uma interpretação”. Com essa ideia teórica, Skinner se afasta do empirismo e do neopositivismo extremamente fisicalista. Conforme Teixeira: “Não há observação do comportamento que não seja simultaneamente interpretação.”.

Assim, Skinner abre as portas para o estudo de fenômenos mentais inobserváveis, tratados como um comportamento encoberto. Seu behaviorismo é radical porque trata da psique, mesmo que aproximando a consciência da linguagem, mas fechando a porta ao dualismo. E segundo Teixeira, há um resíduo mental que não pode ser eliminado na descrição do comportamento humano, que se aproxima da interpretação tratada por Skinner. Isso porque, na visão fisicalista de Watson, não há lugar para o sentido e atinge-se o limite da psicologia experimental. Já com a proposta de Skinner, podemos suplantar os aspectos empíricos do comportamento e tratar dos aspectos funcionais.

Não Reducionismo. Teixeira também ressalta que os neopositivistas e behavioristas radicais leram Skinner erradamente, baseados na concepção da psicologia popular que visava o discurso fisicalista defendido por Carnap. Skinner só era antimentalista sendo anticartesianista e, nesse caso, concordaria com a visão de Fodor que compatibiliza mentalismo e materialismo.

No behaviorismo radical, não se pode reduzir a intencionalidade ao comportamento observável nem a ele filiar o neopositivismo, que seria herança do behaviorismo metodológico, linha essa que parece ganhar força com a neurociência cognitiva, a partir da busca de estímulos cerebrais. Contudo, nem a neurociência poderá escapar das retroações que o comportamento estabelece com o meio ambiente ou com a interpretação que um estudioso de uma imagem faz do que supostamente está ocorrendo no cérebro e estaria associado a determinado comportamento.



[i] Conforme TEIXEIRA, J. de F. Mente e comportamento, acessado em 06/02/2021 na Aurora Journal of Philosophy. Link: https://periodicos.pucpr.br/index.php/aurora/article/view/2209. 

[iii] O de Watson é um comportamento reflexo ou respondente.

domingo, 6 de setembro de 2020

Trazendo a segunda pessoa para o debate

A questão da comunicação é algo que sempre me preocupou. Eu falo e você me escuta, mas entende? Sim, somos feitos da mesma estrutura física e racional, então isso é bem possível. Mas há dois problemas essenciais: 1.) o problema cultural e 2.) “como” a compreensão de fato ocorre dentro de nós, do ouvido para o cérebro, para os neurônios etc. Além disso, entendo que, sim, é um problema fortemente relacionado à filosofia de mente e afins.

Dito isto, vamos falar da segunda pessoa. O ensaio que Waldomiro J. Silva Filho nos traz trata dessa concepção em Donald Davidson[i] e explora algumas condições na qual dois agentes interagem em uma conversa e a justificação de um dos lados no sentido de afirmar um bem epistêmico. A questão chave da conversa é: “nós queremos entender as declarações [utterances] reais dos outros e nós queremos que nossas declarações sejam entendidas”.

Então, na dinâmica de uma interação conversacional, trata-se de entender a “segunda pessoa” como interlocutor com o qual não compartilhamos uma regra ou convenção linguística de antemão. Davidson parte de uma questão empírica de quantos falantes são necessários para que haja uma interação, ao invés da questão abstrata das condições de uso da linguagem. Seu “ponto de vista da segunda pessoa”, segundo Waldomiro, é o do intérprete que é interpelado pelo falante e que concebe que aquele tem a intenção de se fazer entender de modo significativo. Isso quer dizer que são necessárias pelo menos duas pessoas para haver a linguagem.

Waldomiro recupera a argumentação de Wittgenstein de que o significado não é algo interno à nossa mente. A partir daí, Davidson traz a triangulação onde os conteúdos semânticos estão no meio-ambiente, mas o falante deve crer [epistemicamente] no significado do que diz. Na conversação, há a determinação de um objeto triangulado por duas (ou mais) pessoas – e aí não se concebe a interação de uma pessoa consigo mesma. Segundo Davidson, é dessa triangulação que surge a objetividade: há crenças que designam objetos no espaço público, ou seja, pensamentos que são individualizados. E é só com a segunda pessoa que sabemos que um objeto pode ser enunciado como verdade, solapando o solipsismo.

Bem, se não é necessária uma convenção linguística de antemão, o que trará certeza no compartilhamento de uma verdade objetiva entre os falantes é a "interpretação radical". Com ela, há uma interpretação a partir do zero, sem conhecimento prévio de linguagem e o acordo de crenças vai se estabelecendo em uma dialética eu-tu, em que cada um fornece ao outro algo de compreensível. A condição da conversa é se fazer intencionalmente interpretável e não seguir uma regra linguística. Outro ponto importante é que a produção de enunciados requer a diferenciação entre "o que é acreditado" e "o que é o caso". Por isso, mais do que um processo empírico, a conversa é um processo investigativo de produção do conhecimento que caminha entre acordos e desacordos sobre o que é o caso.[ii]

No início da conversa, se os interlocutores não sabem se seus signos possuem mesmo valor semântico e de verdade, há necessidade de investigação. Isto é, há um movimento dialético no diálogo onde crenças divergentes vão sendo justificadas e se decide o que é epistemicamente justo fazer. Assim, o conceito de segunda pessoa, na abordagem de Davidson, nos parece central no uso da linguagem e na investigação de disputas epistêmicas onde se é imprescindível esclarecer “o que é o caso”, ponto esse ainda a ser explorado mais detidamente.



[i] Conforme Ensaio sobre a segunda pessoa. Acessado do site em 25/08/2020 pelo link: https://periodicos.ufpe.br/revistas/perspectivafilosofica/article/view/247945.

[ii] Sobre proposições e o que é o caso, em Wittgenstein, o pouco que sei, trata-se de uma mediação no que creio que e falo e no que se dá no mundo. A ser investigado.