segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O entendimento como questão transcendental

Trata do percurso que a comunicação faz nas estruturas kantianas

Há uma máxima que ressoa em meus ouvidos: “Eu falo e você me ouve, mas entende?”[i]. Ela me intriga por questões práticas que se originaram na década passada, problemas comunicacionais tanto em âmbito pessoal quanto profissional e adiante. A retórica ganha peso nas disputas políticas recentes em terras brasilis e no durante / pós pandemia, na virtualidade.  Porém, se é prática, pode ser analisada do ponto de vista teórico e em várias camadas.

Situando a contenda filosoficamente, a filosofia da linguagem é uma área técnica especializada na questão e por ela temos navegado nesse espaço. Especificamente, a questão aparece em 2020, no texto “Trazendo a segunda pessoa para o debate”[ii], ali tratada pela lente de Davidson. Já em 2023, pudemos falar sucintamente sobre algumas teorias de filosofia da linguagem visando elucidações[iii].

Ocorre que, dada a ressonância da questão, resolvemos colocá-la em perspectiva na filosofia em geral e na ótica conceitual dos filósofos. É um exercício interessante e enviesado de questionamento que ajuda a sedimentar conceitos básicos, mas a partir de questão crucial sobre linguagem e comunicação, do ponto de vista humano.

No caso aqui, pela ótica de Kant, a nossa máxima toca diretamente no coração da Crítica da Razão Pura e ajuda a estabelecer a diferença entre receber representações e compreendê-las como conhecimento[iv]. Podemos organizar a resposta kantiana em alguns eixos centrais.

Ouvir não é entender: sensibilidade versus entendimento. Para Kant, a pergunta opõe duas faculdades fundamentais: por um lado, a sensibilidade que recebe as impressões do mundo, os sons, palavras e entonações e, por outro lado o entendimento pensa essas impressões por meio de conceitos. Então, ouvir alguém falar é apenas um fenômeno da sensibilidade ao passo que entender, exige que a faculdade do entendimento subsuma o que foi ouvido sob conceitos adequados.

Lembremos que, para Kant, “intuições sem conceitos são cegas”, o que me leva a pensar que você pode perfeitamente me ouvir e ainda assim não entender nada, porque a audição fornece apenas o material bruto da experiência.

Lembremos também que há a faculdade suprema, a razão. Reforçando, as faculdades fundamentais de Kant são a sensibilidade, que recebe passivamente os estímulos do mundo como intuições, o entendimento, que organiza e unifica esses dados através de conceitos e categorias, e a razão, que busca a unidade total e absoluta do conhecimento para além dos limites da experiência. Enquanto a sensibilidade e o entendimento garantem a recepção e a organização lógica da mensagem, a razão desempenha um papel fundamental na busca por um sentido total e na fundamentação da comunicação, ela poderia procurar compreender o “porquê” por trás das palavras[v].

Entender é uma atividade do sujeito, não um efeito da fala. Não podemos nos esquecer, também, que a compreensão não é algo que passa mecanicamente de um sujeito a outro, desse ponto de vista. O entendimento é ativo: ele organiza, sintetiza e julga. Portanto, quando eu falo, eu somente ofereço matéria para a sua experiência, já que o seu entendimento propriamente dito depende de você aplicar conceitos, regras, esquemas e categorias (como causalidade, unidade, substância e por aí vai.). Por aí percebemos que há um limite estrutural da comunicação: não há garantia transcendental de que o seu entendimento acompanhará a minha fala, mesmo que a gente partilhe as mesmas estruturas.

A linguagem não transmite conceitos prontos. Para Kant, os conceitos não são objetos que circulam pela linguagem porque são funções do entendimento. Assim, quando eu falo, minhas palavras evocam representações em você que podem ou não ser organizadas sob os mesmos conceitos que você emprega. Abre-se espaço para mal-entendidos não como meros acidentes psicológicos, mas como possibilidade estrutural da razão finita.

Olha que legal, esses dois pontos enfatizam um limite, não um defeito: pode não haver problema psicológico (p.ex., o ouvinte não prestar atenção); pode não haver problema semântico (p.ex., uma frase ambígua) - não há como garantir transcendentalmente que a sua atividade ocorrerá de modo coincidente com a minha.

O papel dos esquemas: por que às vezes “quase entendemos”. Kant introduz os esquemas como mediações entre conceitos puros e intuições sensíveis. Inferimos que algo semelhante ocorre na comunicação: o falante pressupõe certos esquemas compartilhados. Só que o ouvinte pode ter esquemas diferentes ou insuficientes e o resultado é que você ouve, reconhece as palavras, mas não consegue esquematizar corretamente o que eu disse. Isso não é totalmente arbitrário de cada um porque compartilhamos categorias e a estrutura.

A dimensão normativa do entendimento. Cabe ressaltar que entender não é apenas ter uma imagem mental, mas ser capaz de julgar, dar razões e aplicar corretamente um conceito. Logo, para Kant, “entender” implica a possibilidade de dizer “Isto é assim porque…”. Assim sendo, se você ouve e não consegue integrar o que ouve em juízos racionais, então, kantianamente, não nos entendemos, apenas houve recepção sensível.

Para fechar esse passeio comunicativo por Kant, podemos dizer que ele reformularia nossa máxima como algo do tipo “Eu forneço intuições por meio da fala; se há entendimento, isso depende da síntese conceitual que você realiza.” Ou, mais sucintamente: “Ouvir é passivo; entender é um ato do entendimento.”[vi]

P.S.: Doctor Sadler, guiado por Ayer, argumenta que a metafísica é um problema de linguagem, um problema linguístico[vii]. Falar de algo supõe que tem algo lá, a coisa-em-si (ding an sich), basicamente por predicar. Isso o positivismo procurou combater, Wittgenstein[viii] e tantos outros.



[i] Um dia foi “Eu falo e você me escuta, mas entende?”. Parece que há mais compromisso quando escutamos, então o mote correto é ouvir, que é o mínimo necessário para que duas pessoas conversem.

[iv] Usamos o método de pedir para o estagiário fazer o levantamento na base de conhecimento mundial - o estagiário Gemini. Mas também estruturando com o conteúdo do blog: https://bit.ly/4k4uvCN.

[v] Conforme textos desse espaço. A máxima ecoa majoritariamente na teoria do conhecimento, mas futuramente ela pode ser pensada eticamente, quiçá pela filosofia da mente e ontologia, etc. 

[vi] Estamos começando as publicações da série Eu falo e você me ouve, mas entende? (Efevmo-me?). Nela, Kant mostra que o problema do entendimento não é primariamente linguístico, mas transcendental. A pergunta “mas entende?” não é empírica, é uma pergunta sobre as condições de possibilidade da compreensão. Haverá oportunidade de mostrar como Habermas tenta “socializar” esse problema que Kant deixa no sujeito.

[vii] A.J. Ayer, Language, Truth, and Logic | Examples of Philosophical Nonsense | Philosophy Core Concept - https://www.youtube.com/watch?v=ArOfPwPmK7M.