quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O entendimento como ato privado do pensamento

Quando a certeza do entendimento depende do sujeito

De acordo com nossa base de conhecimento do blog[i], Descartes pode ser considerado um dos fundadores da filosofia moderna e do racionalismo. Seu projeto baseou-se na dúvida metódica e na busca por um conhecimento certo, seguro e inabalável. Como resposta, ele estabeleceu o cogito (penso, logo existo) como ponto arquimediano indubitável, definindo a essência humana como uma "coisa pensante" em oposição à "coisa extensa". A res cogitans possui atributos de intelecto, vontade, sensação e emoção[ii], em oposição à res extensa, que é o corpo material sujeito a leis mecânicas.

Essa é uma formulação dualista substancial que, no entanto, foi criticada por muitos que o seguiram, como Ryle, por exemplo, que cunha o "mito do fantasma na máquina", isto é, a partir da tese cartesiana e de sua tradição surge o problema de se explicar como uma mente imaterial e privada interage com um corpo físico, uma lacuna que Descartes tentou preencher por meio da glândula pineal. No blog, há contraste com o empirismo de Hume, que nega ideias inatas e a existência de um "eu" observável fora das percepções – isso veremos futuramente.

Contrastando-o com os autores que abriram a série, Kant e Marx, enquanto Descartes fundamenta a filosofia no sujeito individual por meio do cogito e no dualismo, Kant avança para uma síntese onde o sujeito transcendental organiza a realidade através de categorias a priori do entendimento, distinguindo o fenômeno da coisa-em-si incognoscível. Em oposição a esse foco na consciência pura, Marx inverte a lógica idealista ao sustentar que a consciência é um produto da vida social e das condições materiais de existência, sendo determinada pela base econômica (infraestrutura). Assim, enquanto o racionalismo de Descartes e o criticismo de Kant buscam a verdade e a moral nos limites da razão, embora em Kant busque validade universal e normativa, o materialismo de Marx foca na transformação da realidade material através do trabalho e na superação das contradições sociais e da luta de classes.

Passando, então, para a nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?”, sob o ponto de vista cartesiano, uma possível chave de interpretação é a assimetria entre certeza interior e acesso ao entendimento alheio, como vamos ver.

Certeza do cogito vs. opacidade do outro. Para Descartes, a única coisa absolutamente certa é o que se apresenta clara e distintamente à minha mente. Eu tenho certeza de que penso, de que entendo o que digo — mas não tenho acesso direto ao seu entendimento. Assim, a nossa máxima expressa algo profundamente cartesiano, que é o fato de que eu falar e você ouvir não garante, em absoluto, que você entenda. O entendimento é um ato mental, interno, inacessível de modo imediato a terceiros.

Linguagem como sinal externo, não como garantia de sentido. Em textos como o Discurso do Método, Descartes observa que máquinas ou animais podem emitir sinais, mas isso não significa que entendam o que dizem. A linguagem, para ele, é um indício de racionalidade, não uma prova conclusiva do entendimento efetivo em cada caso. Segue-se que poderíamos dizer que ouvir palavras é um fato físico e entender o sentido é um ato do intelecto. Daí que nada na audição garante o segundo passo.

O problema das outras mentes. Nossa máxima também toca no chamado problema das outras mentes: como posso saber que você realmente entende, e não apenas reage mecanicamente a estímulos? Descartes responderia a isso apenas de forma indireta: confiamos na semelhança estrutural entre nós e os outros seres humanos; e, em última instância, na veracidade divina, que não nos faria viver sistematicamente enganados. Mas essa confiança nunca tem o mesmo grau de certeza que o cogito[iii].

Entendimento não é transferência, é reconstrução. Para Descartes, o sentido não passa da minha mente para a sua como um objeto. O que passa são sons ou sinais gráficos; o seu entendimento ocorre quando você reconstrói internamente ideias claras e distintas correspondentes. Nossa máxima poderia ser reformulada cartesiana­mente assim: “Eu emito sinais; você só entende se sua razão produzir, por si mesma, as ideias adequadas[iv]”.

Podemos inferir que Descartes diria que nossa máxima é verdadeira, prudente e filosoficamente inevitável porque eu falar não garante sua compreensão e você ouvir não quer dizer que você entendeu pois entender é um ato privado do pensamento. Em suma, para Descartes, podemos assumir que a comunicação é sempre epistemicamente frágil, porque o entendimento reside onde nenhum outro sujeito pode olhar: na interioridade do pensamento.



[i] Com base no histórico do Blog: https://bit.ly/notebook-blog.

[ii] Modos conscientes da mente.

[iii] Como já comentamos ao longo da série, no presente momento temporal não pretendemos rebater o filósofo, como no caso apontar um solipsismo (metodológico, por exemplo, oriundo da dúvida hiperbólica) que se esvai na certeza da existência de Deus.

[iv] Ideia adequada, aqui, não é o conceito forte de Espinosa, apenas uma referência a uma ideia suficientemente clara e distinta, um critério subjetivo e não algo imanente.

sábado, 24 de janeiro de 2026

As condições materiais que tornam o entendimento possível

Quando o entendimento depende de práticas transformadoras da realidade

No primeiro texto da série[i], nossa máxima foi escrutinada por Kant, filósofo que pertenceu ao iluminismo alemão e funda um movimento que busca determinar os limites e as condições de possibilidade do conhecimento, em um contexto de conflito entre racionalismo e empirismo. Kant reformula a metafísica ao deslocar o foco do objeto para as condições do conhecer (a chamada “revolução copernicana”), e torna inevitável a necessidade de se posicionar em relação ao seu projeto crítico.

Diante dessa proposta, agora queremos ouvir Marx, mas não sem antes o opor a Kant porque Marx passa o foco do indivíduo para a luta contra as estruturas de classe, bem como por uma mudança de uma razão estática para uma história dinâmica. Por um lado, Kant está na tradição do liberalismo moderno, fundamentando a moral e o conhecimento na primazia da razão transcendental de um sujeito cujas condições de possibilidade são universais e não historicizadas. Por outro lado, Marx opõe-se ao idealismo e à análise paralisada de Kant ao introduzir o materialismo dialético, substituindo a visão de verdades fundamentais e direitos naturais pela compreensão de que a história é movida por contradições econômico-sociais concretas que precisam ser superadas[ii].

Segundo a perspectiva marxista, a nossa forma de pensar e enxergar o mundo não nasce conosco, mas é moldada pelas condições materiais e sociais em que vivemos. No centro dessa teoria está o materialismo histórico, que explica como a infraestrutura (a economia e o trabalho) sustenta a superestrutura (as leis, a religião e a cultura), moldando de forma não imediata a consciência humana em um reflexo das relações de produção. No sistema capitalista, esse processo gera uma consciência reificada (conforme postulou Lukács[iii]) e alienada, onde o indivíduo perde a visão do todo e passa a ser tratado como mercadoria, enquanto instituições sociais reforçam a ideologia da classe dominante para naturalizar as desigualdades.

Contudo, como a própria inteligência humana é fruto da transformação da natureza pelo trabalho, a filosofia e a educação crítica surgem como ferramentas essenciais para que o sujeito desperte dessa passividade, compreenda as estruturas que o cercam e busque a sua verdadeira emancipação social[iv].

Feita a contextualização, nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?”, lida a partir de Marx, aponta menos para um problema meramente linguístico ou psicológico (como em Kant) e mais para um problema material e social da compreensão. Se em Kant a questão era transcendental, vejamos à luz do pensamento marxiano.

A compreensão não é um ato puramente individual. Para Marx, a consciência não precede a vida social; ela é produzida por ela. Em A Ideologia Alemã, ele insiste que: “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.” Assim, o fato de você ouvir o que eu digo não garante compreensão, porque compreender envolve partilhar formas sociais de vida, práticas, necessidades e posições materiais semelhantes. Se eu e você ocupamos lugares diferentes nas relações de produção, a linguagem pode circular sem que o sentido efetivo se estabilize – haveria comunicação não significativa. A nossa máxima, então, revela que ouvir não basta quando há horizontes sociais distintos.

Linguagem como prática social, não como meio neutro. Sabemos que Marx não tem uma teoria sistemática da linguagem, mas lida a partir dele, a linguagem poderia ser considerada não um canal transparente de transmissão de ideias; mas uma forma de prática social. As palavras carregam marcas históricas, ideológicas e de classe. Isso implica que o mesmo enunciado pode significar coisas diferentes para sujeitos situados diferentemente; a linguagem pode reproduzir relações de dominação, inclusive no nível do “entendimento”. Assim, quando eu pergunto “mas entende?”, Marx responderia algo como: entende a partir de qual posição social? De qual interesse material?

Ideologia e falsa compreensão. Um ponto decisivo, para Marx, é que muitas vezes o problema não é falta de compreensão, mas compreensão ideologicamente mediada. Você pode entender o que foi dito de maneira invertida; você pode entender segundo categorias que naturalizam relações sociais históricas; você entender de forma a reafirmar o status quo. Nesse sentido, a nossa máxima pode ser lida como um diagnóstico crítico: eu falo, você ouve, mas o entendimento é bloqueado ou distorcido pela ideologia dominante. Assim, “não entender” não é ignorância simples, mas efeito socialmente produzido.

Entender é poder agir. Para Marx, compreensão genuína se manifesta na práxis. Não é apenas captar um conteúdo mental, mas ser capaz de se orientar e agir no mundo a partir dele. Lembremos das 11 Teses sobre Feuerbach, nas quais Marx critica o materialismo anterior por ser contemplativo e abstrato e defende um novo materialismo prático e revolucionário, cujo objetivo não é somente interpretar o mundo, mas transformá-lo.[v] Se quisermos, podemos parafrasear a famosa tese 11 postulando que não basta interpretar corretamente o que foi dito; o entendimento real aparece quando isso se traduz em prática.

Há uma transposição da tese do plano ontológico-político para o plano da linguagem e da compreensão, mas o ponto marxiano permanece o mesmo: o critério do entendimento não é apenas interpretativo, mas prático, como uma capacidade de agir de outro modo. Logo, você pode ouvir, repetir e até concordar verbalmente, porém ainda assim não entender, se nada muda no modo como você age ou se relaciona com as condições materiais envolvidas.

Resumindo, nossa máxima em tom marxiano, seria algo como “Eu falo dentro de determinadas condições sociais; você ouve dentro de outras. O que está em questão não é a audição, mas se partilhamos as condições materiais que tornam o entendimento possível.” Ou, ainda mais forte: “A comunicação falha não por deficiência cognitiva, mas por contradições sociais.”

Haverá oportunidade de contrastar essa leitura de Marx com Habermas e outros, nos próximos episódios da série.

[v] Sobre as 11 teses consultamos o DeepSeek: https://www.youtube.com/shorts/0-rbMMrD-JE. Conteúdo: Teses sobre Feuerbach

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O entendimento como questão transcendental

O limite transcendental do entendimento na comunicação, aos olhos de Kant

Há uma máxima que ressoa em meus ouvidos: “Eu falo e você me ouve, mas entende?”[i]. Ela me intriga por questões práticas que se originaram na década passada, problemas comunicacionais tanto em âmbito pessoal quanto profissional e adiante. A retórica ganha peso nas disputas políticas recentes em terras brasilis e no durante / pós pandemia, na virtualidade.  Porém, se é prática, pode ser analisada do ponto de vista teórico e em várias camadas.

Situando a contenda filosoficamente, a filosofia da linguagem é uma área técnica especializada na questão e por ela temos navegado nesse espaço. Especificamente, a questão aparece em 2020, no texto “Trazendo a segunda pessoa para o debate”[ii], ali tratada pela lente de Davidson. Já em 2023, pudemos falar sucintamente sobre algumas teorias de filosofia da linguagem visando elucidações[iii].

Ocorre que, dada a ressonância da questão, resolvemos colocá-la em perspectiva na filosofia em geral e na ótica conceitual dos filósofos. É um exercício interessante e enviesado de questionamento que ajuda a sedimentar conceitos básicos, mas a partir de questão crucial sobre linguagem e comunicação, do ponto de vista humano.

No caso aqui, pela ótica de Kant, a nossa máxima toca diretamente no coração da Crítica da Razão Pura e ajuda a estabelecer a diferença entre receber representações e compreendê-las como conhecimento[iv]. Podemos organizar a resposta kantiana em alguns eixos centrais.

Ouvir não é entender: sensibilidade versus entendimento. Para Kant, a pergunta opõe duas faculdades fundamentais: por um lado, a sensibilidade, que recebe passivamente afecções (sons, palavras, entonações) segundo suas formas próprias e, por outro lado o entendimento pensa essas impressões por meio de conceitos. Então, ouvir alguém falar é apenas um fenômeno da sensibilidade ao passo que entender, exige que a faculdade do entendimento subsuma o que foi ouvido sob conceitos adequados.

Lembremos que, para Kant, “intuições sem conceitos são cegas”, o que me leva a pensar que você pode perfeitamente me ouvir e ainda assim não entender nada, porque a audição fornece apenas o material bruto da experiência.

Não é demais lembrar, também, que há a faculdade suprema, a razão. Reforçando, as faculdades fundamentais de Kant são a sensibilidade, que recebe passivamente os estímulos do mundo como intuições, o entendimento, que organiza e unifica esses dados através de conceitos e categorias, e a razão, que busca a unidade total e absoluta do conhecimento para além dos limites da experiência. Enquanto a sensibilidade e o entendimento garantem a recepção e a organização lógica da mensagem, a razão desempenha seu papel na busca por um sentido total do que é comunicado, e na exigência racional de fundamento - ela poderia procurar compreender o “porquê” por trás das palavras[v].

Entender é uma atividade do sujeito, não um efeito da fala. Não podemos nos esquecer, também, que a compreensão não é algo que passa mecanicamente de um sujeito a outro, desse ponto de vista. O entendimento é ativo: ele organiza, sintetiza e julga. Portanto, quando eu falo, eu somente ofereço matéria para a sua experiência, já que o seu entendimento propriamente dito depende de você aplicar conceitos, regras, esquemas e categorias (como causalidade, unidade, substância e por aí vai.). Por aí percebemos que há um limite estrutural da comunicação. Não há garantia transcendental de que o seu entendimento acompanhará a minha fala, mesmo que a gente partilhe as mesmas estruturas. Isso não significa que o entendimento seja improvável, apenas que ele não é necessário a priori.

A linguagem não transmite conceitos prontos. Para Kant, os conceitos não são objetos que circulam pela linguagem porque são funções do entendimento. Assim, quando eu falo, minhas palavras evocam representações em você que podem ou não ser organizadas sob os mesmos conceitos que você emprega. Abre-se espaço para mal-entendidos não como meros acidentes psicológicos, mas como possibilidade estrutural da razão finita.

Olha que legal, esses dois pontos enfatizam um limite, não um defeito: pode não haver problema psicológico (p.ex., o ouvinte não prestar atenção); pode não haver problema semântico (p.ex., uma frase ambígua) - não há como garantir transcendentalmente que a sua atividade ocorrerá de modo coincidente com a minha.

O papel dos esquemas: por que às vezes “quase entendemos”. Kant introduz os esquemas como mediações entre conceitos puros e intuições sensíveis. Inferimos, por analogia, que algo semelhante ocorre na comunicação: o falante pressupõe certos esquemas compartilhados. Só que o ouvinte pode ter esquemas diferentes, embora não arbitrários ou insuficientes e o resultado é que você ouve, reconhece as palavras, mas não consegue esquematizar corretamente o que eu disse. Isso não é totalmente arbitrário de cada um porque compartilhamos categorias e a estrutura.

A dimensão normativa do entendimento. Cabe ressaltar que entender não é apenas ter uma imagem mental, mas ser capaz de julgar, dar razões e aplicar corretamente um conceito. Logo, para Kant, “entender” implica a possibilidade de dizer “Isto é assim porque…”. Assim sendo, se você ouve e não consegue integrar o que ouve em juízos racionais, então, kantianamente, não nos entendemos, apenas houve recepção sensível.

Para fechar esse passeio comunicativo por Kant, podemos dizer que ele reformularia nossa máxima como algo do tipo “Eu forneço intuições por meio da fala; se há entendimento, isso depende da síntese conceitual que você realiza.” Ou, mais sucintamente: “Ouvir é passivo; entender é um ato do entendimento - e nenhum ato pode ser exigido como necessidade transcendental.”[vi]

Como provocação final, Doctor Sadler, guiado por Ayer, argumenta que grande parte das proposições metafísicas não tratam de problemas metafísicos, mas são problemas de linguagem, problemas linguísticos[vii]. Por exemplo, ele cita, ao tratar dos universais, podemos falar de algo como a essência de um livro e isso nos leva a postular que essa essência existe. "Livro é maravilhoso" - ele diz. Ora, como podemos falar de universais gramaticalmente somos seduzidos a crer que universais existem. 

Se podemos predicar de algo esse algo é uma entidade, esse algo existe. Mesmo um livro particular.. Ele é uma coleção de páginas, ele somente é uma aparência, coleção de qualidades ou uma unidade, a substância - a coisa em si (ding an sich)? Vimos isso em Wittgenstein[viii] e isso passa pela terapia linguística, mas devemos ter muito mais a dizer sobre esse tipo de coisa - a batalha da filosofia analítica com a continental.



[i] Um dia foi “Eu falo e você me escuta, mas entende?”. Parece que há mais compromisso quando escutamos, então o mote correto é ouvir, que é o mínimo necessário para que duas pessoas conversem.

[iv] Usamos o método de pedir para o estagiário fazer o levantamento na base de conhecimento mundial - o estagiário Gemini. Mas também estruturando com o conteúdo do blog: NotebookLM do Blog.

[v] Conforme textos desse espaço. A máxima ecoa majoritariamente na teoria do conhecimento, mas futuramente ela pode ser pensada eticamente, quiçá pela filosofia da mente e ontologia, etc. 

[vi] Estamos começando as publicações da série Eu falo e você me ouve, mas entende? (Efevmo-me?). Nela, Kant mostra que o problema do entendimento não é primariamente linguístico, mas transcendental. A pergunta “mas entende?” não é empírica, é uma pergunta sobre as condições de possibilidade da compreensão. Haverá oportunidade de mostrar como Habermas tenta “socializar” esse problema que Kant deixa no sujeito.

[vii] A.J. Ayer, Language, Truth, and Logic | Examples of Philosophical Nonsense | Philosophy Core Concept - https://www.youtube.com/watch?v=ArOfPwPmK7M.