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terça-feira, 7 de abril de 2020

Nunca fomos tão burgueses

Em tempos de COVID-19, nós, classe média, profissionais liberais, nunca fomos tão burgueses. Propriedade privada, acúmulo de capital, mais do que nunca estamos em nossa bolha. Bolha que um dia começou virtual, nas redes, mídias sociais, mas agora é física. Físico-virtual.
De fato, para nós, burgueses, as fronteiras estão se apagando. O físico, mundo real, vai se perdendo e se torna distante, é uma fresta na janela. De alguma forma tudo o que precisamos está em nossas mãos, tudo chega até nós. A eletricidade para a iluminação, banho quente se necessário e todos os aparelhos elétricos e eletrônicos que acumulamos, água tratada. A internet chega à nossa casa e traz o mundo junto. A comida vem do aplicativo, as contas todas automáticas, não é preciso dinheiro. Sabemos pela televisão ou programas de transmissão de notícias de fatos que parecem estarem tão longe...
Mas não estão. Os fatos estão na rua, mas com a COVID-19 a rua é território proibido. Porém, subindo a rua aqui ao lado, rua Teodoro Sampaio e virando na Av. Dr. Arnaldo está o HC, o Adolfo Lutz, etc. Se descer para o lado do Pacaembu está o estádio municipal tão conhecido pelo futebol e agora hospital de campanha.
O estádio do Pacaembu, privatizado por Doria e já mais afastado do futebol, é utilizado como medida emergencial para salvar vidas. Política? Sim. Politicagem? Talvez, não julguemos. E como disse o Trajano, esse é o maior jogo da história daquele estádio. Assim como as imensas filas de sem teto recebendo alimentação dos franciscanos, no largo. Tudo isso é real.
Portanto, sim, há gente agindo na rua, naquele mundo perdido. Devemos sair? Sabemos que não, mas até quando o não sair é nosso lenitivo?

quinta-feira, 26 de março de 2020

Terraplanismo

A partir de 2013 começou um processo de radicalização de um tipo de opinião a favor de “direitos individuais” que traz a reboque um empreendedorismo cego aliado ao cerceamento do debate. Eleito o inimigo, naquele momento coisa simples, fácil e óbvia, sedimenta-se o caminho rumo à negação da ciência, apego ao Deus provedor das igrejas e um movimento direitista sutil que se apropria das mídias sociais para alienar a maioria da população.
Eleito o novo messias em 2018, o resultado não é somente robôs virtuais que fazem disparos em massa a serviço do gabinete do ódio ou do gado que se vê empoderado no líder, mas toda uma inteligência coletiva degradada. O povo se perdeu, a classe média quer migalhas. Essa camada sempre semi-favorecida, mas nunca abandonada, sempre flutuando por cima dos que carregam o piano, tal classe, sim, trabalhadora também, emburreceu.
É triste e tenho dó deles. Tenho dó porque estão além das possibilidades. Repulsam a crítica. Criam mitos brucutus e artificiais. Há tanto debate na esquerda, nos blogs sujos, na academia. Há, também, eventualmente, erros, ideologia. Mas as sobras que são jogadas para essa camada que (benza deus!) agradecem, é um filme monocromático. Vide Jornal Nacional e o desfile de economistas coxinhas, um monólogo chato e sonolento. Não há diversidade.
Será que eles (classe média) merecem? Ou será que não fomos capazes de formar uma sociedade mais emancipada? O discurso raso, o viver utilitário (trabalho-resultado), o mercado, enfim, tudo isso germina nossa sociedade hipócrita e mesquinha. Mas, eu tenho dó porque eles acham que assim são felizes. E, certamente, não é soberba de minha parte pois sei que só estamos aqui para usufruir enquanto for possível e enquanto deixarem. Depois disso é só o pó.