terça-feira, 21 de abril de 2026

Racionalidade, verdade e justificação

Apresenta a abordagem pragmática de Habermas sobre verdade e justificação, além de destacar os diferentes tipos de racionalidade[i]

Em Verdade e Justificação (1999), Habermas trata de verdade e justificação de maneira pragmática, ante a pressupostos fundacionalistas e escapando de uma visão realista. A sua epistemologia, conforme Araújo, passa pelos tipos de racionalidade, uma abordagem pós giro linguístico e pragmático[ii] e, por fim, verdade e justificação.

* * * Os tipos de racionalidade * * *

A racionalidade reflexiva está relacionada às convicções que as pessoas expressam e na liberdade de escolha. A racionalidade epistêmica está ligada aos nossos juízos e pretensão de verdade, onde há necessidade de justificação e aceitação racional por uma terceira pessoa e por um saber que pode ser testado. Já a racionalidade teleológica é atividade que busca fins e se orienta pelo êxito e as sentenças intencionais não se furtam a fatores psicológicos.

Por fim, a racionalidade comunicativa se diferencia porque produz entendimento[iii] guiado por processos intersubjetivos situados no mundo da vida. Conforme cita Araújo, a fórmula é “entender-se com alguém, a respeito de algo” (p. 117), isto é, significado + uso. O ato de fala tem como objetivo ilocucionário ser compreensível pelo ouvinte na medida em que sua verdade pode ser justificada por argumentação racional[iv].

Pela TAC, por um lado, objetivos ilocucionários levam ao entendimento e, por outro, intervenções no mundo tem efeitos perlocucionários[v], quais sejam, tem influência causal[vi]. Se os usos teleológico e epistemológico não pautam a interação e vida em sociedade, os atos de fala levam o outro a se posicionar e é no telos da linguagem que o entendimento habita.

Em um diálogo, se afirmo “que p”, a respeito de um estado de coisas, não preciso argumentar porque a verdade reside na representação daquele estado (uso epistemológico). Porém se afirmo “que p” visando concordância o ato de fala deve ser assertórico, deve ser reconhecido como verdadeiro. Tudo isso dentro da linguagem e da prática discursiva que considera o contexto do mundo da vida e das práticas inerentes a ele, como tradições, costumes e meios técnicos que conduzem a nossa capacidade de solucionar por problemas e, por consequência, formar crenças e agir.

* * * Verdade e justificação * * *

Para Habermas, a verdade é testada no discurso, mas pretende valer além dele. Em Habermas, conforme Araújo, os enunciados verdadeiros situam-se numa tensão entre a justificação discursiva e a pretensão de validade que transcende os contextos. A verdade é construída linguisticamente, mas aponta para a realidade, sendo sustentada por pretensões de validade como sinceridade, publicidade e equidade, que são testadas e revistas em processos de aprendizagem histórica, e não fundadas em princípios a priori.

Justificamos no discurso, mas ainda buscamos uma verdade que dependa do mundo. Então, a verdade [pretendida] é examinada por meio do discurso intersubjetivo, no qual enunciados falíveis são justificados publicamente. Porém, surge o problema de como a verdade pode ajustar-se aos fatos, se, como observa Wittgenstein, não podemos duvidar de tudo e partimos de certezas do mundo da vida, enquanto os enunciados se constituem dentro de contextos linguísticos e crenças compartilhadas que não se reduzem ao contextualismo, como em Rorty.

O discurso justifica entre nós, mas a verdade aponta para o mundo. Há tanto processos de justificação quanto a pretensão de verdade voltada ao mundo objetivo. Os conteúdos veritativos referem-se aos fatos por meio de recursos semânticos, constituindo as duas faces de Jano após a virada pragmática: de um lado, a justificação discursiva; de outro, a referência à realidade, ambas necessárias para a ação comunicativa e para que o discurso contraia laços com o mundo.

Habermas tenta salvar a modernidade sem voltar aos fundamentos absolutos nem cair no relativismo. De acordo com Araújo, Habermas assume uma posição intermediária que tenta salvar o projeto moderno. Ele reafirma o compromisso com os ideais da modernidade, mas evita tanto o idealismo subjetivo quanto o realismo empírico de base analítica, criticando também o contextualismo radical, o ceticismo e o relativismo das concepções pós-modernas[vii].

O discurso nos aproxima da verdade, mas a verdade não se reduz ao consenso. Habermas procura evitar que a assertibilidade racional sob condições ideais seja confundida com o conceito de verdade. Embora o acesso à verdade permaneça discursivo, um enunciado deve satisfazer uma propriedade de verdade que vai além da justificação. O discurso funciona como filtro para examinar pretensões de validade e estabelecer condições de verdade para crenças empíricas, que, no mundo da vida, servem de base segura para a ação.

Primeiro agimos com certezas; quando elas falham, começamos a discutir. Cabe notar que, no trato cotidiano com o mundo, formamos expectativas e só debatemos a validade dos enunciados quando essas crenças falham. Assim, a distinção entre verdade e justificação atribui funções diferentes à ação e ao discurso: a ação depende de crenças tidas como verdadeiras, enquanto o discurso examina criticamente pretensões de verdade.

A verdade transcende a justificação, mas só acessamos a verdade pela justificação. Como no discurso os falantes pretendem uma verdade que transcende a justificação, o exame da verdade ou falsidade dos enunciados aproxima o conceito de verdade da aceitabilidade racional. Surge então o impasse entre aceitar a pretensão de verdade de “p”, bem justificada, ou a própria verdade de “p”, impasse que se resolve pelo modo como o discurso é usado para examinar criticamente essas pretensões.

Quando a prática falha, discutimos; quando aprendemos, voltamos a agir — mas agora com saber falível. No uso cotidiano, quando as práticas fracassam, recorre-se ao discurso para examinar crenças e produzir razões que permitam retomar a ação com confiança. Nesse processo há aprendizagem, mas o saber resultante permanece falível e revisável, ao contrário das crenças, que produzem certeza para a ação[viii].

A verdade surge quando crenças, mediadas pela linguagem, aprendem com a resistência do mundo. Habermas supera o mito do dado, rejeitando a ideia de um enunciado que confronta diretamente a realidade. A verdade, no pragmatismo formal, depende de aprendizado constante em uma teia holista de crenças mediadas pela linguagem. Contudo, isso não implica mera coerência entre crenças, nem correspondência direta com o mundo. A verdade envolve referência ao mundo independente, mas mediada linguisticamente, e exige que os enunciados possam ser criticados e eventualmente refutados.

A verdade não nasce da linguagem, mas só pode ser alcançada por práticas linguísticas que aprendem com um mundo independente. Para Habermas, a verdade não é metafísica, mas deflacionada e ligada às práticas linguísticas intersubjetivas, que permitem justificar crenças sobre um mundo objetivo independente. A verdade não se reduz à justificação, mas só pode ser acessada por ela, superando o dualismo entre interior e exterior dentro de um realismo pragmático moderado.

A verdade não está apenas nas sentenças, mas na cooperação discursiva que sustenta a ação no mundo. Habermas supera o conceito neopositivista de significado como verdade, incorporando a ideia de significado como uso. No realismo moderado, a verdade não é apenas uma propriedade semântica da sentença, mas também desempenha papel pragmático ligado à ação e à assertibilidade justificada no discurso. Já na Teoria da Ação Comunicativa, a verdade é buscada cooperativamente, por meio do exame argumentativo de pretensões de verdade que orientam a ação.

Falar com validade não é apenas convencer, mas reivindicar uma verdade que deve resistir ao melhor argumento livre e público. Para Habermas, o valor ilocucionário de uma afirmação não se sustenta apenas em certezas práticas ou justificações, mas exige um conceito epistêmico de verdade, estruturado pragmaticamente por condições como participação pública, ausência de coação e sinceridade, ainda que difíceis de alcançar.

A verdade é aquilo que orienta a ação como incondicional, embora permaneça sempre aberta à revisão pelo discurso. Araújo conclui que, na teoria discursiva da verdade, esta não se reduz à reprodução de fatos nem à mera aceitabilidade epistêmica, mas resulta da interpretação discursiva de argumentos com pretensão de verdade. Inserida no mundo da vida, a verdade orienta a ação por meio de proposições tomadas como incondicionalmente verdadeiras, embora sempre revisáveis, reflexivamente. Citando, por fim: “O nexo interno entre verdade e justificação se coloca nesse nível, reflexivo. A resposta a este problema vem da relação entre ação e discurso”.

* * * Resumo Storytelling por IA * * *

1. Saindo do relativismo: a verdade é testada no discurso, mas aponta para além do contexto. Habermas propõe um realismo pós-metafísico em que a verdade não depende de fundamentos absolutos, mas também não se dissolve no relativismo contextual.

2. Justificamos publicamente, mas ainda buscamos algo chamado verdade. A intersubjetividade nasce do mundo compartilhado, porém surge a tensão: se só temos justificações discursivas, como a verdade ainda pode corresponder aos fatos?

3. Duas faces da verdade: justificar entre nós e referir-se ao mundo. Habermas distingue entre processos de justificação discursiva e a verdade voltada à realidade objetiva - como uma "face dupla" da linguagem.

4. Uma modernidade sem absolutismos nem relativismos. Essa virada semântica reafirma o projeto moderno, evitando tanto o idealismo subjetivo quanto o relativismo pós-moderno.

5. Aceitabilidade racional não é o mesmo que verdade. Habermas mantém o discurso como caminho para a verdade, mas insiste que verdade não se reduz ao que é racionalmente aceito.

6. Agimos com crenças confiáveis, discutimos quando elas falham. No cotidiano, assumimos crenças como verdadeiras; o discurso surge apenas quando essas certezas entram em crise.

7. A verdade é pretendida além das justificações. Mesmo justificando discursivamente, os falantes continuam pretendendo uma verdade que transcenda essas justificações.

8. Do debate de volta à ação: quando a confiança retorna. O discurso restaura a confiança nas crenças e permite que voltemos à ação direta no mundo.

9. Aprender com o mundo: verdade como processo falível e progressivo: A verdade surge de aprendizado contínuo, onde crenças são revistas à luz da experiência.

10. Sem fundamentos absolutos: verdade dentro da rede de crenças. Habermas adota um antifundacionalismo em que verdade e justificação dependem de redes holistas de crenças.

11. Sem justificativa não há verdade, mas justificativa não basta. A verdade não se reduz à justificação, mas só pode ser afirmada por meio dela.

12. Significado no uso: a verdade como prática social. A verdade deixa de ser apenas propriedade semântica e passa a ter função pragmática na ação e no discurso.

13. Agir exige verdades confiáveis. Sem aceitar algumas verdades como confiáveis, não seria possível agir nem tomar decisões.

14. A verdade exige condições ideais de argumentação. A validade das afirmações depende de condições discursivas como sinceridade, abertura e ausência de coerção.

15. Verdade como resistência à refutação. Um enunciado é verdadeiro quando pode resistir a todas as tentativas de refutação em um discurso racional.

16. Entre ação e discurso: o nexo reflexivo entre verdade e justificação. A verdade é sempre revisável, mas necessária para a ação — e é nesse equilíbrio que Habermas encerra sua teoria.



[i] Notas resumo de Habermas e a questão epistemológica, terceiro tópico de “A natureza do conhecimento após a virada linguístico-pragmática” em  https://periodicos.pucpr.br/aurora/article/view/1483/1414. De autoria de Inês Lacerda Araújo.

[iii] Efevmo-me? https://bit.ly/efevmo-me-blog

[iv] Isso é possível? As pessoas estão dispostas a aceitar argumentos racionais?

[v] Conforme Austin https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/09/por-este-meio.html: Ilocução é o ato realizado ao dizer algo (como prometer, aconselhar ou ordenar), enquanto perlocução é o efeito produzido no ouvinte (como convencer, irritar ou enganar)..

[vi] Interessante que o papel perlocutório tem, sim, influência.

[vii] Seria (ChatGPT): Immanuel Kant → modernidade, G. W. F. Hegel → idealismo, Richard Rorty → contextualismo, Michel Foucault → crítica pós-moderna.

[viii] Três níveis: crença (certeza prática), discurso (justificação), saber (falível e revisável). 

terça-feira, 14 de abril de 2026

O entendimento a serviço da comunicação

Quando o entendimento emerge de práticas intersubjetivas do mundo da vida[i]

1. Sobre Habermas[ii]. Jürgen Habermas pertenceu à segunda geração da Escola de Frankfurt e à tradição da teoria crítica, sendo considerado um dos mais importantes filósofos e teóricos sociais do pós-Segunda Guerra Mundial. Segundo a SEP, seu trabalho abrange três grandes projetos: teoria social, ética do discurso e teoria deliberativa do direito e da democracia. Sua proeminência decorre especialmente do desenvolvimento da teoria da ação comunicativa, da noção de esfera pública e da defesa de uma racionalidade comunicativa voltada ao entendimento intersubjetivo, que renovaram a teoria crítica e influenciaram profundamente a filosofia, a sociologia e a teoria política contemporâneas.

2. Habermas no blog[iii]. Aparece como sendo responsável pela transição da razão instrumental para a razão comunicativa, focada no entendimento mútuo e na convergência racional no espaço público. Sua proposta de pragmatismo formal substitui a de um sujeito transcendental isolado por práticas linguísticas e sociais no mundo da vida, onde a validade das normas e a verdade são estabelecidas por meio da intersubjetividade e da argumentação entre interlocutores. Além disso, Habermas defende um realismo pragmático, sustentando que, embora o mundo exista de forma independente, os fatos e o conhecimento sobre ele são construídos e validados linguisticamente através de processos de aprendizagem contínuos e falíveis.

3. Habermas na perspectiva da nossa série[iv]. Jürgen Habermas dialoga com os autores da série efevmo-me ao propor a transição do paradigma da consciência individual para o da intersubjetividade, substituindo tanto o cogito privado de Descartes e a razão transcendental isolada de Kant por práticas linguísticas situadas no mundo da vida. Enquanto Kant fundamenta a moral na razão prática universal do sujeito, Habermas a socializa, defendendo que a validade das normas e a verdade dependem de justificações racionais reconhecidas entre interlocutores no espaço público.

Em oposição ao materialismo de Marx, que enfatiza a influência das condições materiais e econômicas na formação da consciência, Habermas resgata o potencial emancipador da razão comunicativa para salvar a democracia. Além disso, ele converge, em certa medida, com Sellars ao entender que o entendimento não é um dado imediato ou passivo, mas um ingresso no espaço das razões que exige assumir compromissos normativos e práticos.

4. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Habermas. Em termos habermasianos, a nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?” passa pelo núcleo da teoria da ação comunicativa. Para ele, ouvir não é ainda compreender, e compreender não é ainda entender-se (verständigung[v]). Vejamos.

5. Ouvir não é compreender, nem tampouco alcançar entendimento mútuo. Para Habermas, a linguagem não é primariamente transmissão de conteúdos mentais, mas coordenação intersubjetiva da ação. Assim, quando eu digo “Eu falo e você me ouve”, isso descreve apenas um fato empírico, um evento acústico-perceptivo que está longe da pergunta decisiva “você entende?”. Em Habermas, há uma distinção entre entender o significado linguístico (sinnverstehen[vi]) e aceitar a pretensão de validade do que foi dito. Portanto, o verdadeiro entendimento não é psicológico, mas normativo e intersubjetivo.

6. Entender é reconhecer pretensões de validade. Os atos de fala, segundo Habermas, levantam pretensões de validade. Quando falamos, nos comprometemos com inteligibilidade, verdade, correção normativa e sinceridade[vii]. Nessas pretensões, cabem as perguntas: “o meu enunciado é compreensível?”; “o conteúdo proposicional é verdadeiro?”; “o que falo é apropriado segundo normas compartilhadas?”; “o falante (eu, você) é autêntico?”.

Logo, a máxima poderia ser reformulada em termos habermasianos assim: “Eu produzo um ato de fala; você o decodifica. Mas você reconhece ou está disposto a reconhecer as pretensões de validade que eu levanto?” Se a resposta for “não”, então não houve entendimento comunicativo, mesmo que tenha havido compreensão linguística.

7. Entendimento não é acordo, mas possibilidade de acordo. Cabe enfatizar que, para Habermas, entender não significa concordar. O entendimento ocorre quando as pretensões de validade são claramente levantadas, e podem ser aceitas ou criticadas racionalmente. Isso significa que alguém pode entender perfeitamente o que eu disse e rejeitar o que foi dito, sem falha comunicativa. Ela ocorrerá quando o horizonte linguístico não for compartilhado ou quando uma das partes não se reconhece como participante simétrico do discurso[viii].

8. Mundo da vida e horizontes de sentido. A nossa pergunta também aponta para o mundo da vida (lebenswelt[ix]). Eu posso falar e você me ouvir, mas você pode não compartilhar comigo as mesmas pressuposições culturais, normas, ou formas de racionalidade. Nesse caso, o problema não é cognitivo, mas hermenêutico-social: os horizontes de sentido não se sobrepõem suficientemente. Desse modo, “não entender” pode significar que não se sabe o que está em jogo no ato de fala, ou que não se reconhece porque aquilo importa naquele contexto.

9. Diagnóstico habermasiano da nossa máxima. Habermas diria que a nossa máxima revela uma ilusão comunicativa moderna, ou seja, revela a ideia de que a comunicação bem-sucedida é garantida pela simples emissão e recepção de sinais. Entretanto isso seria típico de uma concepção instrumental da linguagem, que ignora sua dimensão normativa e intersubjetiva. Em termos fortes, Habermas diria que você pode falar, eu posso ouvir, e ainda assim não nos entendermos. Isso ocorreria porque o entendimento não está no som, nem na mente, mas na possibilidade de justificação recíproca.

10. Em forma de máxima habermasiana. Nossa máxima sob o escrutínio de Habermas soaria como “Eu falo e você me ouve; mas só nos entendemos se pudermos justificar racionalmente o que dizemos um ao outro.”. O que pode ser resumido como: “Ouvir é um fato; entender é entrar em um processo de justificação intersubjetiva.”



[i] Essa postagem é mais uma da série EFEVMO-ME, feita com insights de IA, mas revisada por humano. É como se a IA fosse o filósofo que a gente inquiri tentando obter uma resposta que nos conforme, mas, ao contrário, cada vez mais abre o campo investigativo.

[iii] Com base no histórico do Blog, entre outras: Habermas e a epistemologia após o giro linguístico-pragmático (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/habermas-e-epistemologia-apos-o-giro.html, RIP Habermas (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/rip-habermas.html, O entendimento como questão transcendental (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/o-entendimento-como-questao.html, Hume anti cartesiano (2015): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2015/10/hume-anti-cartesiano.html.

[iv] Idem. Outros links: O entendimento como ato privado do pensamento (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/o-entendimento-como-ato-privado-do.html, As condições materiais que tornam o entendimento possível (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/as-condicoes-materiais-que-tornam-o.html, O entendimento contra o dado (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/o-entendimento-contra-o-dado.html.

[v] Verständigung, conforme ChatGPT, significa, exatamente, chegar a um entendimento – algo que nossa série investiga. Na teoria da ação comunicativa, por um lado há uso da linguagem para influenciar ou persuadir (ação estratégica) e, por outro, há uso da linguagem para alcançar verständigung (ação comunicativa). É um pouco disso que essa nossa reflexão apresenta. Ação estratégica: https://revistaseletronicas.pucrs.br/veritas/article/view/8691/9031, para vermos.

[vi] Sinnverstehen é o entendimento do significado, oriundo da tradição hermenêutica alemã (Weber). Então, se verständigung é entendimento mútuo com o outro, sinnverstehen é entender o que foi dito (o significado). Conforme exemplo do ChatGPT, se eu digo “Está frio aqui”, você pode entender o significado da frase, mas não entender a intenção (pedido para fechar a janela, por exemplo). Assim, sinnverstehen está no campo da compreensão semântica, isto é, no nível linguístico e verständigung já vai para um entendimento comunicativo intersubjetivo, qual seja, nível pragmático e comunicativo. Idealmente precisaríamos nos aprofundar na relação Weber-Habermas: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/76186/103945.pdf?sequence=1&isAllowed=y.

[vii] Aqui (https://ambitojuridico.com.br/a-teoria-discursiva-de-juergen-habermas/) as quatro pretensões são tratadas: “Nos atos de fala consensuais, ou seja, aqueles que são estabelecidos visando um consenso, um acordo sobre dado assunto, se pressupõe o reconhecimento mútuo de quatro pretensões de validade: Primeiramente, eu, como falante, tenho que escolher uma expressão inteligível para que meu ouvinte possa me entender. Então a primeira pretensão se refere à compreensão entre o falante e o ouvinte ou ouvintes. A segunda pretensão é que o conteúdo que eu comunico seja verdadeiro. A terceira pretensão é que a manifestação de minhas intenções seja sincera, para que o ouvinte possa crer no que manifesto, basicamente, possa confiar em mim. E a última estabelece que eu, falante, tenho que escolher a manifestação correta, com relação às normas e valores vigentes na sociedade, para que o ouvinte possa aceitar a minha manifestação, de modo que eu e o ouvinte possamos coincidir entre si no que se refere à essência normativa em questão.”

[viii] Para Habermas, a comunicação orientada ao entendimento (verständigung) pressupõe que os participantes tenham igual oportunidade de falar e não estejam sob coerção ou dominação, conforme vimos em RIP Habermas (2026) (em oposição a Bourdieu).

[ix] Lebenswelt é o horizonte compartilhado de significados culturais, normas sociais e competências comunicativas que torna possível o entendimento intersubjetivo.

terça-feira, 31 de março de 2026

Habermas e a epistemologia após o giro linguístico-pragmático

Aborda o pragmatismo formal de Habermas que traz a linguagem como horizonte do entendimento e substitui o sujeito transcendental por práticas linguísticas e sociais no mundo da vida [i]

* * * Ponto de partida: a virada linguística * * *

Linguagem como horizonte do entendimento. É pela organização gramatical da linguagem que nos comunicamos e somos guiados na nossa conduta no mundo da vida. A linguagem o articula e ele é horizonte de interpretações e alvo do entendimento. O saber interpretativo que ocorre nas atitudes proposicionais possui uma semântica lógica e estrutura a racionalidade comunicativa, mas está suscetível a revisão e aprendizado contínuo que renova um saber anterior à linguagem.

A virada pragmática da linguagem. Através do giro linguístico-pragmático a linguagem perde pretensão de conhecimento porque o saber linguístico sobre o mundo é contextual e se dá na ação racional de sujeitos falíveis. Araújo nos lembra que a semântica veritativa de Frege e Wittgenstein (o primeiro) é redirecionada pela semântica pragmática, na qual atos ilocucionários se orientam pela ação[ii]. E os atos de fala que ocorrem em um contexto normativo devem ser aceitos como válidos pelo destinatário. O uso comunicativo da linguagem é pautado por pretensões de validez que podem ser examinadas pelos participantes da situação discursiva.

Validade e compreensão comunicativa. Araújo argumenta que uma teoria pragmática do significado requer o conceito de validez que leve à compreensão, superando as condições de verdade da semântica veritativa. A compreensão do ato de fala depende da clarificação das razões que levarão ao sucesso tanto ilocucionário quanto perlocucionário. Ela reforça que, pela virada linguístico-pragmática, a linguagem visa o entendimento e isso se dá pela triangulação entre a “expressão linguística como exposição e como ato comunicativo, o mundo e o destinatário” (p. 119). Conforme citação, toda a filosofia analítica[iii], mesmo depois da virada linguística, ainda se mantem presa no primado da asserção e de sua função expositiva como caso paradigmático.

Verdade como entendimento intersubjetivo. Para Habermas, a comunicação não transmite apenas pensamentos (p”), mas fatos compartilháveis (“que p”), cuja verdade depende de justificações racionais intersubjetivamente reconhecidas, ligando o significado da linguagem às condições de seu uso bem-sucedido no entendimento entre interlocutores.

* * * A reconstrução pragmática do conhecimento * * *

O retorno do transcendental pragmático. Araújo destaca que Habermas pretendia, pelo pragmatismo formal (em 2004), se haver com os fatores epistêmicos, condições transcendentais do conhecimento, que ele deixara em segundo plano ao tratar da linguagem do ponto de vista sociológico. E faz isso pela TAC, já que é indispensável tratar das pretensões de validez[iv].

Da subjetividade ao mundo da vida. A investigação transcendental de Kant, fundada no sujeito autorreferente e em juízos a priori, é deslocada por Wittgenstein para as regras provenientes do uso da linguagem em suas práticas. Habermas, após o giro linguístico-pragmático, procura pelos traços invariantes dessas práticas e substitui o acesso “ao dado” como critério de certeza da faculdade subjetiva da sensibilidade pelo acesso mediado pela linguagem e intepretação da experiência. Assim, passa-se da representação por uma mente baseada em juízos para um sujeito atuante que produz conhecimento por tentativas e erros, pragmaticamente. A teoria do conhecimento passa a explicar processos de aprendizagem inseridos no mundo da vida, onde práticas sociais, linguagem e experiência estruturam as condições do conhecimento.

Ação e conhecimento nas práticas sociais. No mundo da vida, há ações linguísticas e não linguísticas guiadas por regras, ambas com conteúdo proposicional: as primeiras voltadas à comunicação e objetivos ilocucionários, e as segundas ao êxito na intervenção no mundo. Há também ações sociais, orientadas por regras normativas, e ações não-sociais, de cunho estratégico. Nesse contexto, Habermas faz convergir razão teórica e prática, influenciado pelo pragmatismo norte-americano, pelo aprendizado por experiências de Piaget e pelos jogos de linguagem do segundo Wittgenstein, situando o conhecimento nos esforços comunicativos realizados no mundo da vida constituído intersubjetivamente.

Aprendizagem na resistência do mundo. Há um mundo objetivo ao nosso dispor, que pode ser objetivado tanto pela ação instrumental, guiada pelo saber tecnológico, quanto pela ação comunicativa. Nessas intervenções práticas, tanto a ação quanto a pretensão de verdade dos enunciados podem falhar, exigindo argumentação e aprendizado a partir da resistência do mundo. Assim, em vez de um sujeito transcendental que constitui o mundo, há sujeitos que se referem a um mesmo mundo objetivo, compartilhado intersubjetivamente, tanto na ação prática quanto na comunicação.

* * * O transcendental pós-kantiano * * *

O transcendental na intersubjetividade. O pragmatismo de Habermas pretende superar a dicotomia entre empírico e transcendental, própria das filosofias da consciência, sem renunciar ao problema transcendental, como teriam feito Dewey e Wittgenstein. Essa dicotomia dá lugar ao paradigma da intersubjetividade, no qual se articulam a perspectiva dos participantes, inseridos numa rede de práticas do mundo da vida, e a perspectiva do observador em terceira pessoa. Em Kant, o transcendental diz respeito ao entendimento de um eu transcendental; para Habermas, ele está presente nas formas de vida culturais. Assim, as condições transcendentais estão no próprio mundo da vida, cuja objetividade resulta “das necessidades da experiência e do exercício linguístico com suas pretensões de validade” (p. 124). Dessa forma, a visão deflacionada do transcendental mitiga o ceticismo de saber com certeza se há correspondência entre mente que conhece e mundo conhecido, idealmente a priori.

Universalidade sem necessidade. Mas Habermas não é um contextualista radical, como Kuhn ou Rorty, pois defende que existem traços transcendentais presentes em todas as culturas, como estruturas linguísticas, forma proposicional, atos ilocucionários e regras epistêmicas. Esses traços são universais, mas não necessários, pois pertencem ao mundo e decorrem de práticas aprendidas.

Contra o representacionismo. Habermas critica o modelo representacionista (mente como espelho de objetos) ao entender que o conhecimento é ação inteligente e que a função expositiva da linguagem ocorre em contextos de justificação discursiva. Como os participantes aprendem e corrigem erros por meio da argumentação, os fatos são encadeados por estruturas transcendentais que resultam de processos de aprendizagem e formam as próprias formas de vida.

O pragmatismo kantiano de Habermas. Araújo nos mostra que Habermas adota um pragmatismo de estilo kantiano no qual a linguagem funciona como forma pura a priori transferindo o papel transcendental da subjetividade para as condições intersubjetivas da interpretação e do entendimento no mundo da vida.

* * * Consequências epistemológicas * * *

Naturalismo mitigado e evolução do saber. Para Habermas, há continuidade entre natureza e cultura, mas sem redução de uma à outra, o que o leva a propor um naturalismo mitigado e um realismo pragmático. Esse naturalismo leva em conta processos de aprendizagem progressivos que formam estruturas transcendentais de aprendizagem, baseadas em procedimentos pragmáticos universais. Nesse processo, o mundo é progressivamente objetivado ao longo da evolução cultural e antropológica, possibilitando o incremento do saber com valor cognitivo. Contudo, esse valor não se reduz à experiência direta nem a explicações naturalísticas, pois depende das práticas do mundo da vida e dos processos intersubjetivos de aprendizagem.

Realismo intersubjetivo. A epistemologia realista de Habermas busca superar a oposição entre realismo e nominalismo ao defender um mundo objetivo acessível intersubjetivamente. Esse mundo atende a dois requisitos: o epistêmico, mediado pela linguagem no horizonte do mundo da vida, e o ontológico, no qual a realidade independente da linguagem limita a prática. Assim, os fatos não estão dados no mundo, mas se constituem por meio de enunciados cuja validade é estabelecida linguisticamente. Essa validade é distinta da existência dos objetos extralinguísticos, o que leva Habermas a rejeitar tanto o realismo conceptual quanto a metafísica neopositivista do dado[v].

Experiência como aprendizagem social. Contra o realismo que reduz a experiência à percepção sensorial, Habermas entende a experiência como ação de indivíduos socializados, orientada à solução de problemas e aos processos de aprendizagem.

Falibilismo e referência compartilhada. A teoria da figuração e a semântica veritativa não explicam o falibilismo, pois ignoram a relação entre experiência e construção do conhecimento. Para Habermas, o mundo pode frustrar expectativas e o saber é permanentemente revisado nas práticas do mundo da vida. Assim, ele propõe uma divisão de trabalho entre realismo e nominalismo: há objetos independentes da linguagem, mas sua referência surge pragmaticamente na prática linguística compartilhada, formando sistemas comuns de referência, como mostrou Putnam.

Mundo independente e verdade discursiva. Habermas sustenta que o mundo é independente das descrições, embora o acesso a ele ocorra por meio de paradigmas e práticas comunicativas que orientam a aprendizagem. A referência semântica surge dessas práticas, mas não basta para fundamentar a verdade, que depende de condições epistêmicas e de processos discursivos baseados em razões.



[i] Notas resumo de Habermas e a questão epistemológica, terceiro tópico de “A natureza do conhecimento após a virada linguístico-pragmática” em  https://periodicos.pucpr.br/aurora/article/view/1483/1414. De autoria de Inês Lacerda Araújo. O terceiro tópico tem três itens, mas aqui tratamos apenas do segundo, os outros dois virão a seguir.

[ii] Lembrar de nossa resenha da primeira parte do artigo: A queda: quando o sujeito se torna interlocutor: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/01/a-queda-quando-o-sujeito-se-torna.html

[iii] Tsc tsc: até o pobre Davidson que tem uma teoria da triangulação e Sellars-Brandom estão aí inclusos, isso é coisa para verificarmos. Excluiu o segundo Wittgenstein e seus nada ortodoxos discípulos, como Georg Henrik von Wright)

[iv] Passa pelas obras "Conhecimento e Interesse" e "Verdade e Justificação".

[v] Habermas está discutindo duas posições, vamos a elas. Para o realismo, o mundo já estaria estruturado em fatos, que seriam descritos por proposições. Assim, os fatos já existiriam prontos no mundo, por exemplo, “A cadeira é vermelha”, quer dizer que o fato “cadeira vermelha” já estaria no mundo, pronto para ser descrito. Por outro lado, para o nominalismo, existem objetos extralinguísticos (cadeira, mesa, árvore) que limitam o que podemos dizer. Desse modo, os fatos só surgem quando fazemos enunciados porque os objetos existem fora da linguagem, mas os fatos dependem dela. Então, existe uma cadeira (objeto extralinguístico que existe independentemente) mas fatos como “A cadeira é vermelha” ou “A cadeira está quebrada”, só surgem quando fazemos enunciados, linguisticamente. Nesse contexto, dirá Habermas, o mundo resiste (realismo) mas o conhecimento é linguisticamente mediado (virada linguística). São 3 passos, primeiro podemos entender que há realidade independente, isto é, objetos existem sem linguagem; segundo: os fatos são construídos linguisticamente, eles não existem sem linguagem; terceiro, a validade depende da argumentação quando a verdade depende de validação intersubjetiva. Em uma frase, conforme o ChatGPT: “Para Habermas, o mundo existe independentemente da linguagem, mas os fatos e o conhecimento sobre ele só surgem através de enunciados linguisticamente validados”. 

quarta-feira, 25 de março de 2026

RIP Habermas

Jürgen Habermas (18/06/1929 – 14/03/2026) foi um dos mais importantes filósofos do século XX. Em uma live tributo em sua homenagem, o professor Clóvis de Barros Filho aprofunda alguns de seus principais conceitos[i]

De acordo com Clóvis de Barros, Habermas, nascido no ano de 1929, é um pensador associado a Escola de Frankfurt e um dos mais importantes do século XX. Participante da segunda geração do movimento, que sucedeu a Horkheimer e Marcuse, pode ser considerado menos pessimista do que eles, principalmente no que tange ao mundo da técnica.

Habermas estaria mais associado a uma visão iluminista e encantada com as possibilidades humanas, ressaltando a noção de espaço público.  Ocorre que os primeiros autores da Escola de Frankfurt traziam duas noções de racionalidade, uma instrumental e ligada aos meios e às técnicas de desenvolvimento. A razão instrumental lida com o que é preciso para atingirmos aquilo que queremos alcançar, continua Clóvis de Barros, e ela estaria em seu apogeu naquela época, mas as custas do empobrecimento da razão objetiva, essa segunda foca nos fins ao passo que a primeira nos meios.

O professor Clóvis de Barros salienta, entretanto, que o meio só é bom se permite atingir o fim desejado, então, de que adianta aperfeiçoarmos as técnicas se isso não contribuirá para uma vida boa ou sociedade mais justa? Ora, nesse cenário, os instrumentos acabam por serem fins em si mesmos. Isso posto, o professor argumenta que Habermas traz a originalidade da razão comunicativa ou comunicacional, que entende que há um desenvolvimento da inteligência humana que busca alcançar uma comunicação mais pujante[ii].

A razão comunicativa se volta para a intersubjetividade e a coletiva e se pergunta pelas técnicas que seriam boas para irmos mais além. A busca de soluções se orienta por meio de conversas e Habermas enfatiza o espaço público como local onde se pode discutir questões que interessam à pólis. Ali, não importa quem você é, mas a produção de um discurso que seja racional, lógico e relevante, segundo Clóvis de Barros, permitindo convergência.

O professor, entretanto, abre um contraponto ao trazer a visão de Bourdieu para quem é impossível separar o que é dito de quem disse, no “mundo da vida”[iii]. Isso porque há um capital social que é decisivo na aceitação do discurso e a legitimidade deste é chancelada por aquele.

Mas, a proposta de Habermas dá voz para as pessoas e tenta salvar um tipo de democracia que nasce de um espaço no qual a opinião pública informa os agentes de estado sobre o que a sociedade está pensando. Como a relação representante-representado não dá conta das demandas, esse espaço de participação funciona como mediação, embora seja um espaço de argumentação no qual um argumento pode ser pior do que outro e suplantado.

Não podemos nos esquecer, seguindo na argumentação de Clóvis de Barros, que o surgimento dos meios de comunicação de massa abala esse espaço já que lá o debate não visa os melhores argumentos. Ao contrário, na televisão a lógica que impera é a do espetáculo e da persuasão já que é a audiência que importa e ela aumenta com a hostilidade de confronto entre os outros.

Outro ponto que Clóvis ressalta é que, em outros tempos, houve muito mais congruência de valores e concordância entre as pessoas. Por exemplo, como o culto a um único e mesmo Deus. Lá, face a tamanha certeza não havia espaço para divergências. Mas, de acordo com Habermas, as condições macro para este tipo de ambiente deixaram de existir então passa a ser melhor conseguir uma convivência saudável em um mundo que está repleto de crenças e convicções estilhaçadas.

Já que há dificuldade de acordo no campo dos valores, este deveria ser buscado, na visão de Habermas apresentada por Clóvis, na esfera procedimental de regras. Sem nos esquecermos de que se nossas crenças não são aceitas, também temos que saber lidar com as frustrações. É a adequação aos mecanismos que torna a convivência plural possível – fazendo de Habermas, grande pensador no campo da legitimidade das normas.

Para Habermas, conforme Clóvis, haveria dois princípios: o do discurso, habilitando a todos possibilidades de se manifestar abertamente, mas dentro de uma base de conhecimento que seja compartilhada e acessível através do uso de certa racionalidade; e o da universalização, frisando que há um “outro” – aquilo que é dito deve ser aceito por qualquer um.

Essa conceituação habermasiana é algo muito próximo do imperativo categórico kantiano[iv], avalia Clóvis. Porém, em Kant é fundamento de uma moral individual, mas em Habermas a moral é intersubjetiva, porque é conversando com os outros que encontramos os argumentos universais. É saindo da razão prática ensimesmada, através do diálogo que os argumentos são aperfeiçoados. Se há uma complexidade de valores de difícil coesão, os temas devem ser debatidos do espaço público em busca de acordo.



[ii] A razão comunicativa se vale da explicação e do diálogo quando persegue o entendimento e, aqui, vale os parênteses de ressaltarmos que Habermas já seria o próximo autor de nossa série justamente quando de sua passagem e dessa homenagem. Série EFEVMO-ME, que pode ser acompanhada nos links https://bit.ly/efevmo-me-blog e https://bit.ly/efevmo-me-yt. O mais legal é que Clóvis fala da questão de alcançarmos o entendimento juntos e isso é um ponto que pode nortear Habermas na série.

[iii] Lembremos: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2015/01/colocando-agua-no-capital-cultural.html. O texto compara o capital cultural de Pierre Bourdieu aos três estados da água. O capital cultural incorporado é como a água líquida (internalizado na pessoa), o objetivado é como o vapor (bens culturais que dependem de quem os compreende), e o institucionalizado é como o gelo (diplomas e certificados). A ideia central é que o capital cultural herdado pelas classes sociais influencia o desempenho escolar e ajuda a reproduzir desigualdades, já que a escola valoriza e legitima esse capital prévio.

[iv] Sobre o imperativo categórico, entre outros textos há algo aqui: “Transição da Metafísica dos Costumes para a Crítica da Razão Prática Pura” - https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2016/04/transicao-da-metafisica-dos-costumes.html. Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, a transição para a Crítica da Razão Prática mostra que a liberdade é a base da moralidade: o ser racional pertence ao mundo sensível (causalidade natural) e ao mundo inteligível (autonomia da vontade). Assim, o imperativo categórico surge como uma lei moral sintética a priori, válida porque devemos nos pensar livres, embora não possamos explicar empiricamente como a liberdade é possível — esse é o limite da filosofia prática em Immanuel Kant.

terça-feira, 17 de março de 2026

O entendimento contra o dado

Quando entender passa por assumir compromissos

1. Sobre Sellars[i]. Wilfrid Sellars foi um dos mais importantes filósofos do movimento da filosofia analítica do século XX, integrando e reformulando tradições como o realismo crítico[ii], a epistemologia naturalista e a crítica ao fundacionalismo dentro desse quadro analítico[iii], em oposição ao “mito do dado” e à ideia de conhecimento imediato[iv]. Sellars tornou-se proeminente por sua crítica sistemática à noção de dados epistemológicos não inferenciais[v], pela distinção entre a imagem manifesta e a imagem científica do mundo[vi] e por articular uma forma inovadora de semântica funcional/inferencialista[vii], influenciando debates em epistemologia, filosofia da mente e da linguagem no pós-guerra.

Breves notas[viii]. Cabe ressaltar que há vários tipos de dados: dado epistêmico, categorial, etc. Há várias camadas que um iniciante em Sellars ainda não consegue explorar. Um ponto importante sobre o espaço das razões e o Inferencialismo, no caso uma teoria coerentista, é não ficar preso nos pressupostos conceituais, como sair de lá? Por fim, curiosidade: haveria sellarsianos de esquerda e de direita, conforme as imagens do mundo, normativa e social ou científica e copiando os hegelianos de direita e de esquerda.

2. Sellars no blog[ix]. Podemos agregar sobre sua crítica ao empirismo e o "Mito do Dado" que as experiências sensoriais, por si só, não constituem conhecimento, pois percepções podem ocorrer causalmente, mas só contam como conhecimento quando inseridas em uma prática conceitual e inferencial. Ele desenvolveu uma teoria inferencial do significado, na qual o ato de inferir é tratado como um ato social regido por regras de prática comunitária, opondo-se à ideia de que frases são apenas entidades abstratas e inertes.

3. Sellars na perspectiva da nossa série[x]. Ele se opõe ao empirismo ao criticar projetos fundacionalistas como o do Aufbau de Carnap, que buscava reconstruir o conhecimento a partir de experiências elementares. Embora compartilhe com Quine o holismo e a crítica aos dogmas tradicionais, Sellars se distingue pelo seu nominalismo psicológico, que versa que já há papel da linguagem mesmo nos níveis primeiros do conhecimento.

4. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Sellars[xi]. A nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?” cai muito bem dentro do projeto filosófico de Wilfrid Sellars, sobretudo na crítica ao Mito do Dado e na sua concepção inferencialista do significado e do entendimento. Vejamos.

5. Ouvir não seria entender: contra o “dado” linguístico. Podemos entender que, para Sellars, não existiria algo como um entendimento imediato, dado simplesmente pela audição de sons ou pela recepção passiva de estímulos linguísticos. Ouvir sons não seria compreender um enunciado. A nossa máxima poderia ser reformulada assim: “O fato de você receber um estímulo linguístico não implica que você esteja já no espaço do entendimento”.

Isso seria uma extensão direta da crítica ao Mito do Dado, já que não haveria conteúdos epistemicamente ou semanticamente autoritativos que se imporiam por si mesmos; nem percepção, nem linguagem “entrariam” prontas na mente.

6. Entender seria estar no “espaço das razões”. O ponto central de Sellars parece ser que entender uma fala é estar apto a justificar, inferir, corrigir e responder normativamente a ela. Assim, quando eu digo “eu falo e você me ouve”, você pode estar apenas no espaço das causas, onde sons causam estados auditivos, mas não necessariamente no espaço das razões, onde fazemos perguntas como: “O que segue disso?”, “O que conta a favor?” e “O que seria um erro aqui?”. Logo, o “mas entende?” marca exatamente a passagem problemática entre esses dois espaços.

7. O significado não seria algo que se recebe, mas algo que se exerce[xii]. Para Sellars, compreender uma expressão não seria ter uma imagem mental, nem seria associar um som a um objeto, mas seria dominar um papel funcional-inferencial dentro de uma prática linguística. Entender “p” seria, em parte, saber que outras proposições seguem de “p”; que evidências contariam a favor ou contra “p”; em que circunstâncias “p” deveria ou não ser afirmado. Assim, nossa máxima expressaria uma tese sellarsiana: A comunicação falha não por déficit acústico, mas por déficit de inserção inferencial.

8. Linguagem como prática normativa, não como transmissão. Ao contrário de um modelo “telegráfico” da linguagem (mensagem → receptor → significado), Sellars sustentaria que quando eu falo eu assumo compromissos; quando você ouve e entende, você reconhece e pode avaliar esses compromissos[xiii]. Portanto, quando eu pergunto “mas entende?”, a questão real é saber se você reconhece quais compromissos eu assumi ao dizer isso e quais compromissos isso impõe a você. Se não, houve som, mas não houve entendimento.

9. Uma formulação sellarsiana da nossa máxima. Em linguagem sellarsiana, ela poderia ser reescrita assim: “Eu produzo um evento sonoro linguisticamente articulado; você o recebe causalmente - mas você ingressou no espaço normativo das razões que lhe dá significado?” Ou, mais curto: “A audição é causal; o entendimento é inferencial.”

10. Conexão com nossa sequência até agora. No arco que vimos traçando, Sellars ocupa um lugar decisivo, já que, contra Carnap, as regras não são meramente formais e contra Quine, o normativo não se reduz ao comportamento. A máxima é, nesse sentido, uma frase anti-mitológica: ela recusa a ideia de que compreender seja algo dado, imediato ou automático. Em suma, para Sellars, nossa máxima exprime uma verdade central da filosofia da linguagem:  entre falar e entender há uma diferença normativa fundamental, não apenas um canal de transmissão de informação.



[ii] Para o realista, o mundo existe independentemente da nossa mente, porém nosso conhecimento sobre ele é mediado. Podemos consultar os idealistas: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/01/breves-ideias-sobre-locke-berkeley.html.

[iii] A epistemologia naturalista é uma reação ao fundacionalismo clássico e ganha força com Quine, que propôs naturalizar a epistemologia, transformando-a em parte da psicologia empírica. Assim, o estudo do conhecimento se dá em continuidade com as ciências empíricas, especialmente a psicologia e as ciências cognitivas e não deve ser feito a partir de fundamentos puramente a priori ou “transcendentais”. Então, ao invés de perguntamos “Quais são as condições filosóficas últimas que justificam o conhecimento?”, a epistemologia naturalista pergunta “Como, de fato, os seres humanos formam crenças e quais mecanismos tornam essas crenças confiáveis?”

[iv] Não há “dados puros” dados à consciência. Ou, o “Mito do Dado” é a crença de que existiriam conteúdos imediatamente dados à mente que já teriam autoridade epistemológica por si mesmos, como “Vejo vermelho, logo tenho conhecimento direto de vermelho”. Na empiria clássica, haveria um nível básico de conhecimento não inferencial que serviria de fundamento para todo o resto. Há sensação no espaço das causas, mas para que algo conte como conhecimento, é necessário que esteja inserido no espaço das razões.

[v] Não há um estágio epistemicamente autônomo de “crença não inferencial” que fundamente o resto. Mesmo crenças perceptivas “básicas” (como “isso é vermelho”) só contam como crenças porque já pertencem a uma prática linguística normativa. Elas podem ser não inferidas, mas não são pré-conceituais nem independentes do domínio inferencial

[vi] A imagem manifesta do mundo, isto é, tal como aparece na experiência comum pode ser integrada (ou reinterpretada) à luz da imagem científica do mundo, descrito pelas ciências.

[vii] Em vez de dizer que as palavras são etiquetas coladas nas coisas, Sellars diz que a linguagem é um sistema de regras. Ter um conceito ou saber um significado é como saber "conduzir-se" dentro do espaço das razões: é saber quais conclusões você pode tirar de uma frase e quais frases justificam o que você está dizendo. Portanto, o significado é o papel funcional que uma expressão ocupa dentro de uma vasta rede de inferências e usos sociais

[viii] EP. 70 - Hegel, Sellars, Filosofia Analítica e História da Filosofia: https://www.youtube.com/watch?v=mgY0X8ywoOo, Neste episódio, conversamos com J.-P. Caron (UFRJ) sobre a relação de Hegel com a filosofia analítica, sua influência sobre Wilfrid Sellars e a chamada Escola de Pittsburgh e uma forma global de se enxergar a filosofia. Caron trata também dos pressupostos metodológicos dominantes, aspectos descritivos e normativos do fazer filosófico e seus desdobramentos políticos. Por fim, ele discute a relação entre passado e presente: como utilizar frutiferamente o pensamento de grandes filósofos de outras épocas para compreendermos aspectos contemporâneos sem distorcer aquilo que falaram.

[x] Idem.

[xi] Conforme temos dito, para a série EFEVMO-ME temos usado o ChatGPT para gerar o conteúdo de resposta do filósofo para a nossa máxima e fazemos uma revisão. São dois objetivos: o primeiro é escrutinar a máxima do ponto de vista do filósofo e o segundo é fazer uma aproximação conceitual do filósofo, de maneira geral. Mostrando postagens com marcador efevmo-me: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/search/label/efevmo-me. No Canal: https://youtube.com/playlist?list=PLnDky5U6KdTn7T-fRc3YWlosgMpPVzH9k&si=I2HECee5weE_WO13 - FEVMO-ME, por Luís Quissak, Playlist, Público, 6 vídeos, 44 visualizações “Eu falo e você me ouve, mas entende?”.

[xii] Aqui é pura semântica e depois podemos explorar dot-quotation.

[xiii] Aqui pode ser que já estejamos transicionando para Robert Brandom: https://www.youtube.com/@BobBrandomPitt.