segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O entendimento entre sintaxe, semântica e pragmática

Quando a nossa máxima se torna um pseudoproblema

1. Sobre Carnap. De acordo com nossa base de conhecimento do blog[i], Rudolf Carnap foi uma figura central do Círculo de Viena e do positivismo lógico, cujo projeto visava a eliminação da metafísica ao considerar que seus enunciados carecem de sentido por não serem empiricamente verificáveis. Em sua obra Aufbau, propôs uma reconstrução racional do conhecimento através de um sistema lógico-linguístico de conceitos, inicialmente baseado no fenomenalismo das experiências imediatas, mas que evoluiu para o fisicalismo em busca de uma ciência unificada.

Ele é notável pela formulação do Princípio da Tolerância Linguística, sustentando que a escolha de uma linguagem é uma decisão pragmática e convencional ("em lógica não há moral"), distinguindo entre questões teóricas internas ao sistema e decisões ontológicas externas. Suas teses influenciaram a transição do critério de verificabilidade para o de confirmação, consolidando a filosofia como uma atividade de análise lógica do discurso científico.

2. Carnap na perspectiva da nossa série. Enquanto Carnap e o positivismo lógico buscam a eliminação da metafísica, como discurso cognitivo significativo, ao restringir o conhecimento ao que é empiricamente verificável ou logicamente tautológico, Descartes fundamenta o saber no dualismo e na certeza indubitável do cogito, tratando a mente como uma substância pensante privada e inacessível, o que Carnap rejeitaria como um contrassenso linguístico sem conteúdo cognitivo verificável.

Kant compartilha com Carnap a visão de que o sujeito estrutura a experiência, mas o filósofo do Círculo de Viena reinterpreta os juízos sintéticos a priori kantianos, argumentando que a matemática é puramente analítica e que a escolha de sistemas conceituais é uma convenção regida pelo Princípio da Tolerância Linguística.

Por fim, em oposição a Marx, outro autor da série e que define a consciência como um produto das condições materiais de existência e da luta de classes, Carnap foca na unificação da ciência por meio de uma linguagem fisicalista comum, transformando a filosofia em uma atividade de análise lógica do discurso científico, em vez de uma ferramenta de transformação política e social.

3. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Carnap. Vista a partir de Carnap, a sua máxima — “Eu falo e você me ouve, mas entende?” — expõe uma tensão central entre sintaxe, semântica e pragmática, e especialmente entre compreensão formal e interpretação empírica[ii]. Vejamos.

4. Primeiro Movimento - Entender não é um fato psicológico, mas um fato linguístico (dentro de um sistema). Para Carnap, sobretudo a partir de Meaning and Necessity e dos textos sobre linguagens formais, “entender” não é primariamente um estado mental privado, mas um fato linguístico reconstruível: compreender uma expressão é dominar as regras de uso e interpretação que a definem dentro de um sistema.

Assim, frente à nossa máxima, Carnap diria algo como: “Se você fala numa linguagem bem definida, e eu conheço suas regras sintáticas e semânticas, então não há um problema filosófico restante de ‘entender’.” Isso significa que ou a linguagem é formalmente determinada, ou o problema do entendimento não é filosófico, mas empírico ou psicológico. A nossa pergunta só parece profunda porque estamos falando da linguagem natural, que é imprecisa, aberta e contextualmente instável.

5. Segundo Movimento - O “mas entende?” surge da indeterminação semântica da linguagem natural. Há em Carnap uma distinção clara entre as linguagens formalizadas, nas quais a compreensão é nítida e linguagem natural, cuja compreensão é vaga e dependente de contexto. Na nossa máxima, o “mas entende?” aponta para o fato de que ouvir não garante nem a associação sonora, nem a reação comportamental correta, nem mesmo o acordo prático.

Carnap diria que isso ocorre porque os termos não têm critérios de aplicação totalmente fixados. Por isso, podemos supor que ele defenderia que o problema não é metafísico, nem cético, mas um problema de engenharia linguística, de explication. A pergunta correta, em Carnap, não é “você entende?”, mas: “Quais são as regras de interpretação que estamos adotando aqui?”

6. Terceiro Movimento - A nossa máxima como diagnóstico do mau uso da filosofia. Há um ponto mais crítico: Carnap poderia dizer que nossa máxima é filosoficamente enganadora. Isso porque ela sugere que há um “entender” profundo, não redutível a critérios públicos, talvez inacessível à verificação intersubjetiva. É o que ele classificaria como um típico pseudoproblema filosófico.

Nessa situação ele poderia reagir argumentando que se não conseguimos especificar condições públicas sob as quais dizemos que alguém entendeu, então a pergunta “mas entende?” não teria conteúdo cognitivo claro. Nesse sentido, nossa máxima funcionaria como um sintoma da insuficiência da linguagem ordinária, não como um problema que exigiria metafísica, hermenêutica profunda ou teoria da mente robusta.

7. Formulação carnapiana. Fica claro que, aos olhos de Carnap: entender é dominar um sistema de regras linguísticas e nossa máxima, se perde um pouco de dramatização, ganha em diagnóstico técnico. Então, se traduzíssemos a máxima para uma linguagem carnapiana, ela ficaria algo como: “Um emissor pode produzir uma expressão bem-formada que é percebida por um receptor, sem que haja concordância quanto às regras semânticas adotadas”. E isso, para Carnap, não é um mistério, mas um convite à explicitação formal.

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8. Experimento filosófico. Por fim, tomados pela filosofia de Carnap, podemos tentar canonizar a nossa máxima como um experimento filosófico, propondo um Teste de Entendimento sem Garantias. A formulação atende a seguinte situação: “Um falante (A) profere um enunciado (E) numa língua compartilhada.” “Um ouvinte (B) percebe perfeitamente o som de (E) e reage de modo compatível com as convenções linguísticas usuais.” Nesse cenário, cabe a pergunta: “É possível afirmar, apenas a partir disso, que (B) entendeu (E)?”[iii]

O experimento impõe condições deliberadamente fortes como 1.) audição perfeita: não há ruído, erro perceptivo ou déficit sensorial. 2.) competência linguística aparente: (B) domina a gramática e o vocabulário da língua de (A). 3.) Resposta adequada (B) responde de maneira socialmente apropriada ao enunciado.

Mesmo sob essas condições, o experimento suspende a tese forte do entendimento — segundo a qual percepção correta e resposta adequada garantiriam compreensão —, fazendo da máxima um contraexemplo conceitual que distingue sucesso pragmático e acordo semântico[iv].

9. Entendimento invisível[v]. Daí surge como resultado um paradoxo do entendimento invisível, isto é, o entendimento é exigido para explicar a comunicação, mas não é diretamente observável, nem conclusivamente inferível do comportamento. A encruzilhada se dá porque, por um lado, se o entendimento é interno, não temos acesso; e por outro, se é externo, parece dissolver-se em critérios insuficientes. É um pouco do que nossa série e nossos amigos filósofos estão tentando ajudar a clarificar.

Como formulação final do Experimento do Entendimento sem Garantia podemos ter:

Demonstra-se que, mesmo sob condições ideais de percepção, competência linguística e adequação pragmática, não há critério conclusivo para afirmar que um enunciado foi compreendido.

O experimento visa testar se o entendimento é um fato comportamental, semântico, intencional ou normativo — ou se ele emerge apenas da articulação reflexiva entre esses níveis.

O que a máxima procura fazer é isolar conceitualmente o entendimento como problema filosófico, sem apelar para a ignorância, má-fé ou supor erro empírico.



[ii] Lembrando que por método e falta de tempo, temos usa o orientando (ou o estagiário) fazer o levantamento na base de conhecimento mundial - o estagiário Gemini e/ou ChatGPT.

[iii] Nota-se que é diferente de perguntar se (B) entendeu o que (A) disse.

[iv] Quando o ato comunicativo funciona no plano da ação, isto é, a conversa avança sem conflito imediato, houve sucesso pragmático. Porém, isso não quer dizer que houve acordo semântico, que os interlocutores associaram o mesmo sentido relevante, que as palavras significaram a mesma coisa para falante e ouvinte. Não basta usar as mesmas palavras, os mesmos critérios também devem ser partilhados.

[v] A expressão “paradoxo do entendimento invisível” não é canônica na literatura filosófica. Ela é empregada aqui como uma reconstrução conceitual que sintetiza tensões clássicas presentes no argumento da linguagem privada (Wittgenstein), na crítica carnapiana aos pseudoproblemas e na tese quineana da indeterminação do significado.