domingo, 21 de janeiro de 2018

Uma história de exclusão na filosofia*


Foucault vai tratar de uma história de exclusão na filosofia que teria começado com Aristóteles. Antes dele, Platão discutiu com os sofistas, que seriam aqueles homens que se utilizariam da retórica e da persuasão para exercer o poder. Para Platão, que considerava que o discurso em sua essência deveria ser verdadeiro, o sofista seria um simulador e seu discurso não trataria da verdade, seria mera aparência, falsidade.  Foucault considera Aristóteles o fundador da filosofia, já que ele teria sistematizado esse tipo de conhecimento como sendo um modo de organizar o discurso. Se Platão teria discutido com os sofistas, Aristóteles teria tratado do sofisma, mostrando o que eles seriam e como se produziriam. Se, para Platão, o discurso do sofista seria um discurso falso que pareceria verdadeiro, para Aristóteles o sofisma não seria um discurso racional e seria rechaçado. Para Foucault, a filosofia aristotélica seria um discurso racional e argumentado, o discurso do Logos, ao passo que o sofisma seria, de acordo com Aristóteles, a dedução de uma conclusão de maneira incorreta. Haveria afirmações verdadeiras e falsas e os sofismas, que estariam excluídos do discurso filosófico.
Entretanto, Foucault vai se colocar do lado dos sofistas, tratando o discurso como um exercício das palavras e usado nas relações de poder. Se, em sua visão, na análise do discurso por Aristóteles ele consideraria o sofista como quem utilizaria a palavra de maneira ambígua, Foucault argumenta que o sofisma é um jogo de palavras, mas com estratégia política. De acordo com Foucault, para Aristóteles, o discurso seria da verdade e independente da política. Foucault considera que Aristóteles teria criado uma ordem de discurso excluindo outros que pudessem estabelecer um confronto. Tal ordem de discurso como conhecimento da verdade teria perdurado até Hegel e, a partir de Nietzsche, seria possível sair dessa lógica. A filosofia de Nietzsche permitiria ampliar os limites da própria filosofia.
Foucault mostra que a Metafísica começa com o seguinte enunciado: “Todos os homens desejam por natureza saber”. Enunciado universal (Todos) e restrito aos seres humanos. Enunciado que vincularia desejo e saber incitando um prazer ao se contemplar a natureza. O conhecimento da verdade passaria pelas sensações corpóreas provocando seu acúmulo na memória. Então, pela experiência, os homens usariam esse conhecimento empírico armazenado na memória para, através de um ato de razão, não repetir os mesmos erros e mudar a sua ação. O quarto e último estágio seria o conhecimento da verdade, acessível somente àqueles com mais saber. Tal conhecimento é a ciência filosófica, desejo de saber independente da utilidade. A filosofia seria uma ciência inútil, mas de máxima virtude, que nos leva do prazer corporal em direção à felicidade: a eudaimonia.
Para Foucault, esse desejo de conhecer a verdade exclui outros discursos, como o desejo de saber utilitário do sofista. Para ele, não se separa verdade e poder, e o próprio poder fabrica a verdade. Foucault se vale de Nietzsche para argumentar que não há verdades puras, as verdades são fabricadas por batalhas. De fato, a primeira batalha pelo poder teria se dado entre Platão e os sofistas e, se Aristóteles fabricou a verdade filosófica, ela se manteve ao longo de lutas através do tempo. Foucault usa o modelo nietzschiano para fazer estudos históricos, como as relações de poder se dão nas práticas sociais. Como fez Nietzsche na genealogia da moral, Foucault fará uma genealogia das relações de poder dentro de uma ordem de discurso, para verificar o que é considerado verdade, falsidade ou mesmo o que está fora dessa ordem em dada sociedade e momento histórico. A investigação sobre o discurso mostrará os modos em que os discursos se organizam e são controlados em toda a sociedade e os procedimentos para proibir ou rejeitar determinados tipos de discursos.


(*) Conforme informações fornecidas pelo Prof. Dr. Gustavo Adolfo Romero, em: “81565 - Michel Foucault, filósofo de la verdad. Un estudio de sus cursos en el Collège de France”.  1º Summer School da FFLCH: Janeiro/2018.

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