terça-feira, 20 de março de 2018

Os qualia*

Vicentini analisa os qualia fazendo uma polarização entre intuição e ciência e enfatizando que, usando tal noção como crítica ao fisicalismo, deixamos de lado sua conceituação. Seu ponto principal é: a partir do uso dos qualia pela tradição, seria possível tratá-los por uma abordagem fiscalista?
Intuição versus ciência. Para ele, há uma incongruência entre intuição e ciência. Por um lado, a intuição é a forma como experimentamos o mundo pelos sentidos, ou seja, o mundo como ele é, com seus odores, sabores e cores. Por outro lado, uma visão científica do mundo nos é apresentada como um conjunto de elementos básicos e enunciados de leis. Diante disso, há uma imagem do mundo que não tem lugar na descrição científica[i]. É aí que aparece o conceito de qualia que caracteriza a maneira como as coisas nos aparecem. Vicentini remete essa distinção ao século XVII, em um experimento de pensamento discutido pelos empiristas Locke e Berkeley.
Os limites do conhecimento teórico. A fim de mostrar que as ideias se originam dos sentidos, os empiristas ingleses propuseram um experimento do pensamento no qual se desejava saber se um cego, que de repente começasse a enxergar, poderia discriminar um cubo de uma esfera, apenas pela visão. A resposta dada é que não, já que a ideia das coisas visíveis se originava pela experiência visual[ii]. Do mesmo modo, não seria possível o conhecimento de um fato apenas pela descrição objetiva do vocabulário neutro da ciência. Entre a crença em nossas percepções qualitativas conscientes e a pretensão fisicalista que tudo pode ser conhecido objetivamente, a ciência não propicia uma visão completa do mundo.
A colocação do problema. Segundo Vicentini, qualia é um termo filosófico usado para denotar as características intrínsecas de nossas sensações obtidas pela introspecção e, como tal, se opõe à possibilidade de que a consciência caiba no cérebro, se opõe a uma consciência corporificada.[iii] Não obstante essa definição, Vicentini ressalta que a questão é mal formulada. Tais características intrínsecas teriam surgido nas décadas de 50 e 60 contra as teorias de identidade que reduziam a mente à matéria. Porém, para ele, há uma confusão no conceito de qualia que é usado para fazer a crítica ao fisicalismo. Do que questiona se a ideia de qualia seria intratável. Ou seja, ainda não se achou maneira de definir os qualia, como, por exemplo, explicar a outra pessoa o sabor do creme de cupuaçu se ela nem sabe que é uma fruta. Isso seria possível?
Dois problemas. Quais características que a tradição atribui ao conceito de quale? Vemos céu e mar igualmente azuis, como podemos afirmar que percebemos uma só cor? Fazemos isso comparando as duas sensações em nossa consciência e emitimos um juízo. Mas, como afirmar que outro observador tem a mesma sensação que a nossa ou até se tem alguma? Embora possa haver concordância verbal, a comparação das qualidades que experenciamos parece impossível. Tal impossibilidade sugere que os qualia são 1) de acesso somente privado, 2) inefáveis, dadas suas propriedades intrínsecas e 3) poderiam ser acessados diretamente por cada um de nós. Enfatiza Vicentini, qual o problema, então? Para ele, é o caso de saber se os qualia podem ser tratados por uma abordagem fisicalista, que seria crença dominante nas ciências da mente contemporâneas. A possibilidade de tratamento é a análise de argumentos para saber, primeiro, quais as propriedades dos qualia, através da literatura filosófica recente e, depois, se eles realmente existem. Vejamos o tratamento dado por Nagel e Jackson aos qualia para criticar o fisicalismo e a abordagem crítica de Dennett: intuições equivocadas e viciadas na visão cartesiana do mundo. Vicentini investigará se devemos aceitar os qualia como descreve a tradição ou colocar a questão em outros termos.
A abordagem de Thomas Nagel. Para Nagel, a ciência jamais alcançará o conhecimento do que é ser como algo (um morcego, por exemplo). Ele visa rebater a redução do mental ao físico e a dificuldade de abordar a consciência. Pois, se há ser consciente, existe algo que é ser como aquele organismo, mas isso é característica do caráter subjetivo pertencente intrinsicamente a quem experiencia o mundo. Então, há ignorância a respeito da ontologia desses estados mentais conscientes subjetivos pois, para cada estado consciente, há seu próprio ponto de vista, porém a ciência busca o ponto de vista objetivo e comum[iv]. Não podemos conhecer a experiência de um órgão dos sentidos que se comporte como sonar, pois não temos tal estrutura perceptiva e não podemos nem ao menos imaginar, já que a imaginação também é dependente de nossas experiências. Isso é um limite da capacidade humana de conhecer, porque “não podemos sentir como um morcego sem sermos também um morcego”. As nossas percepções são percepções para nós e não sabemos como a orientação espacial é sentida por um morcego. Há um tipo de experiência que escapa aos métodos científicos, onde o caráter subjetivo se contrapõe ao caráter objetivo da ciência moderna.
A abordagem de Frank Jackson. Seguindo a mesma linha, Jackson argumenta que o Fisicalismo ignora aspectos informacionais do mundo, como a nossa atividade consciente. Por mais informações físicas que tenhamos, elas não dão conta dos qualia, denotados por ele como sensações corpóreas e experiências perceptivas. Vicentini pergunta, por exemplo, se conseguimos descrever o aroma de uma flor[v]. Através do experimento do quarto de Mary, Jackson propõe a situação onde uma pessoa é confinada, desde o nascimento, em um quarto fechado sem contato com cores, com uma TV em preto e branco. Ela se torna uma neurofisióloga muito respeitada e sabe tudo sobre as cores e mesmo seus efeitos em nosso cérebro. A questão é, ao sair do quarto, Mary sabe que o sol é amarelo, mas ela tem acrescida uma nova informação do mundo ao ver o sol amarelo? Respondendo afirmativamente, Jackson se contrapõe ao fisicalismo, posicionando-se a favor dos qualia. Para Vicentini, tal argumentação está mais preocupada com uma crítica ao fisicalismo do que a conceituação dos qualia.
A abordagem de Daniel Dennett. Finalizaremos, por agora, com as pesquisas Dennett que apontam para uma aporia no tratamento dos qualia, pelo menos da forma como conceituados pela tradição. Lançando mão do experimento de pensamento dos qualia invertidos, originalmente proposto por Locke, seria impossível comparar a experiência subjetiva de duas pessoas ao ver uma cor. Não entraremos no detalhe dos experimentos, mas uma cirurgia poderia ser feita em uma pessoa e ela acordaria vendo o sol azul e a grama vermelha, porém não saberíamos se o que mudou foi algo no seu nervo ótico ou na memória das cores.
Então, concorde-se ou não com os qualia, esse é um importante conceito usado na filosofia da mente que nos ajuda pensar cada teoria a partir de seu tratamento. 


(*) Análise de Vicentini, Max Rogério. O problema dos qualia na filosofia da mente. Dissertação de Mestrado: Campinas, SP, 1998.
[i] Em algum aspecto essa polarização pode remeter à fenomenologia de Husserl.
[ii] Embora predominante, o esquema empirista considerava que a mente era uma folha em branco que se servia da experiência para escrever conceitos no cérebro. Mariano nos mostra que o cérebro não é uma tábula rasa, e mesmo bebês já tem uma importante maquinaria conceitual. Porém, embora o cérebro consiga ligar as experiências de todo o aparelho sensorial, o experimento de Locke tem validade, pois a visão sem uso se degenera em um cego. Cf A vida secreta da mente, de Mariano Sigman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017. P. 15.
[iii] E a consciência encarnada de Merleau-Ponty?
[iv] Para Vicentini, não fica claro como Nagel afirma que morcegos têm consciência. Ainda mais que, considerando-se a subjetividade própria de cada um e que não se pode comprovar, Nagel se aproxima de uma visão solipsista, mas atribui consciência ao morcego. Muito embora, para Vicentini pareça anti-intuitivo negar que não a tenham, mesmo com argumentos comportamentalistas inconclusivos.
[v]  E, adicionamos, um sentimento de tristeza ou de angústia? No sentido epifenomenalista, um sentimento que causa um choro é uma causação descendente do mental ao corporal?

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