Apresenta a evolução do fenomenalismo para a sintaxe
lógica
Contexto histórico.
De acordo com Emmendorfer[i], Ernest Mach, através de
uma espécie de sensorialismo radical, influenciou a primeira fase
de Carnap, a fenomenalista, expressa no Aufbau[ii] (1928). A
proposta era que os objetos mais simples seriam qualidades sensíveis
(“este vermelho” - Erlebnisse), constituindo uma base auto psicológica do
sistema construcional. Carnap (e Neurath) também
foram influenciados pelo convencionalismo de Poincaré e o holismo
de Duhem. Os empiristas lógicos, reunidos no Círculo de
Viena, davam muita importância à investigação lógica da linguagem,
como sabemos.
Emmendorfer pontua que, para os
empiristas, o significado estaria ligado à experiência e só poderia ser
confirmado ou infirmado pela verificação. É uma tese reducionista, segundo
ela, que se vincula à tese extensionalista do Aufbau. No
manifesto “A concepção científica do mundo”, distinguiam-se dois tipos de
sentenças: as analíticas, cujas verdades são determinadas pelas regras da
linguagem, e as sintéticas a posteriori, que se apoiam nos
dados empíricos coletados por
observação. Caberia à filosofia esclarecer o sentido das
sentenças.
O reducionismo de Carnap, ela continua,
consistia em reduzir enunciados empíricos a mais elementares, os dados
vivenciados e categorizados como proposições protocolares. Entretanto, de
acordo com a visão de Neurath, proposições protocolares serviriam
para descrever o mundo, não se confundindo com as próprias vivências. Conforme
citação: “E a elaboração das proposições protocolares
são convenções nas quais são tomados os dados empíricos e a partir
disso é feita a redução” (p. 61). Visava-se uma linguagem
ideal construída convencionalmente pela escolha ou descarte das
proposições protocolares, elementares para formar a base das teorias[iii].
No artigo “A superação da metafísica por
meio da análise lógica”, como observa com Emmendorfer, Carnap se
utiliza de critérios para atribuir significado aos conceitos. Isso é feito
através de proposições simples como “x é um mamífero”, na qual “x” pode
ser substituído por “este cachorro” e validando contra
as características da classe dos mamíferos. Pela análise, então,
se chega na significatividade da palavra dada, decompondo e reduzindo
proposições.
A fase fenomenalista de Carnap.
Conforme acima, Emmendorfer destaca classificação de Stein que associa essa
fase ao Aufbau. Na obra, há uma genealogia de conceitos, a partir dos quatro
níveis tratados no texto da nota [ii]. Segundo Emmendorfer, o reducionismo tem um
viés lógico, de um constituinte suficiente e outro dispensável e um viés
epistemológico, de um núcleo e uma parte secundária.
Dado o exemplo que ela utiliza “Se eu
franzir a testa, então estou pensando em algo”, pelo lado lógico, há
um constituinte suficiente que é “pensar em algo” - por experiências
anteriores sei que o constituinte secundário (franzir a testa) é
um conhecimento por familiaridade, aspecto físico que me leva ao
mental, o núcleo (pensar em algo). Por outro lado, o aspecto físico de
“franzir a testa” é reduzido epistemologicamente ao “pensar em algo”, isto
é, o conhecimento de “franzir a testa” está contido em “pensar em algo”,
em termos de redução lógica.[iv]
Carnap, buscava, nessa fase, uma
reconstrução do mundo mediante uma base auto psicológica[v], mas depois passa a se
preocupar com a forma da linguagem, a sintaxe, se utilizando de uma
metalinguagem que analisa linguisticamente uma linguagem objeto.
A fase sintática de Carnap. Já
em 1934, influenciado pela metamatemática de Hilbert
e Tarski, Carnap constrói uma teoria geral das
formas linguísticas, por meio de uma sintaxe lógica. Há uma
metalinguagem que possibilita transformar proposições de uma linguagem objeto
através de regras da lógica simbólica. Aí já não se utilizam as vivências como
base do significado das proposições, projeto do Aufbau, mas a linguagem
simbólica, ainda que com a mesma ideia do esclarecimento das teorias
científicas.
Na leitura de Emmendorfer, é uma passagem
do reducionismo fenomenalista para uma análise lógico-sintática e independente
da noção de significado com destaque para o princípio da tolerância, sobre o
qual regras são formadas pela conveniência de cada teoria. Aí ainda há linguagem
extensional, mas também se abre espaço para uma linguagem lógica. Nesse
momento, então, o projeto de esclarecimento de controvérsias filosóficas é
menos factual, lidando com os objetos e mais formal, por meio de signos.
Nessa época, a semântica ainda não é tematizada como teoria do significado; a análise permanece formal e sintática. A virada semântica só ocorrerá quando o problema da verdade e da referência entrar no centro da reflexão.
[i] Na página 54 de O
significado em Frege e Carnap. Ela atribui as fases de Carnap a uma
definição de Sofia Stein em sua tese de doutorado. Usaremos o capítulo 2 aqui.
[ii] Exploramos aqui: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/02/aufbau.html. O artigo discute a obra Aufbau (A
Estrutura Lógica do Mundo), de Rudolf Carnap, defendendo que o projeto deve
ser compreendido como uma reconstrução racional de caráter lógico-linguístico,
e não apenas como um sistema epistemológico ou empirismo ingênuo. O autor
explica que Carnap propõe um sistema construcional onde conceitos de diferentes
domínios (auto psicológico, físico, hetero-psicológico e cultural) são
reduzidos a uma base comum por meio da lógica, utilizando um "solipsismo
metodológico" que busca objetividade através de propriedades estruturais
da experiência. Ao final, o texto contrapõe as críticas de Quine, argumentando
que o fundacionismo de Carnap não é dogmático ou infalível, mas sim uma escolha
metodológica e convencional baseada na clareza das regras lógicas e na
tolerância linguística. (resumo Gemini em 01/03/2026).
[iii] Não passaremos por
Wittgenstein e o Tractatus pois este tema já foi explorado nesse
espaço em outras oportunidades.
[iv] Pensar em algo é derivado de
franzir a testa já que franzir a testa aponta para pensar em algo, conforme
Emmendorfer, embora saibamos que “franzir a testa” também possa ser um
truque.
[v] Os objetos auto psicológicos
são os elementos mais básicos do sistema construcional, ponto de partida
epistêmico e estrutural. Eles são os conteúdos imediatos da experiência própria
do sujeito. São dados pré-objetivos, por exemplo, uma mancha visual marrom
que vejo agora e não o objeto físico cadeira. Eles têm primazia epistêmica
absoluta, para Carnap, porque são dados diretos, não dependem de hipóteses e
permitem construção de outros objetos. Importa salientar que não são vistos por
Carnap como ontologicamente mais reais, mas de um ponto de vista lógico. Então,
a cadeira é uma construção lógica sobre padrões de experiência. Eles são
autopsicológicos porque são objetos definidos exclusivamente em relação ao
fluxo de experiência do próprio sujeito e daí para a linguagem pública, o mundo
físico e a intersubjetividade. Conclui-se que, no Aufbau, o mundo físico não é
o fundamento e a ordem não é mundo → experiência, mas experiência → mundo.
(burilando ChatGPT...)