quarta-feira, 4 de março de 2026

Carnap antes da semântica

Apresenta a evolução do fenomenalismo para a sintaxe lógica

Contexto histórico. De acordo com Emmendorfer[i], Ernest Mach, através de uma espécie de sensorialismo radical, influenciou a primeira fase de Carnap, a fenomenalista, expressa no Aufbau[ii] (1928). A proposta era que os objetos mais simples seriam qualidades sensíveis (“este vermelho” - Erlebnisse), constituindo uma base auto psicológica do sistema construcional. Carnap (e Neurath) também foram influenciados pelo convencionalismo de Poincaré e o holismo de Duhem. Os empiristas lógicos, reunidos no Círculo de Viena, davam muita importância à investigação lógica da linguagem, como sabemos. 

Emmendorfer pontua que, para os empiristas, o significado estaria ligado à experiência e só poderia ser confirmado ou infirmado pela verificação. É uma tese reducionista, segundo ela, que se vincula à tese extensionalista do Aufbau. No manifesto “A concepção científica do mundo”, distinguiam-se dois tipos de sentenças: as analíticas, cujas verdades são determinadas pelas regras da linguagem, e as sintéticas a posteriori, que se apoiam nos dados empíricos coletados por observação. Caberia à filosofia esclarecer o sentido das sentenças. 

O reducionismo de Carnap, ela continua, consistia em reduzir enunciados empíricos a mais elementares, os dados vivenciados e categorizados como proposições protocolares. Entretanto, de acordo com a visão de Neurath, proposições protocolares serviriam para descrever o mundo, não se confundindo com as próprias vivências. Conforme citação: “E a elaboração das proposições protocolares são convenções nas quais são tomados os dados empíricos e a partir disso é feita a redução” (p. 61). Visava-se uma linguagem ideal construída convencionalmente pela escolha ou descarte das proposições protocolares, elementares para formar a base das teorias[iii]

No artigo “A superação da metafísica por meio da análise lógica”, como observa com Emmendorfer, Carnap se utiliza de critérios para atribuir significado aos conceitos. Isso é feito através de proposições simples como “x é um mamífero”, na qual “x” pode ser substituído por “este cachorro” e validando contra as características da classe dos mamíferos. Pela análise, então, se chega na significatividade da palavra dada, decompondo e reduzindo proposições.

A fase fenomenalista de Carnap. Conforme acima, Emmendorfer destaca classificação de Stein que associa essa fase ao Aufbau. Na obra, há uma genealogia de conceitos, a partir dos quatro níveis tratados no texto da nota [ii]. Segundo Emmendorfer, o reducionismo tem um viés lógico, de um constituinte suficiente e outro dispensável e um viés epistemológico, de um núcleo e uma parte secundária.

Dado o exemplo que ela utiliza “Se eu franzir a testa, então estou pensando em algo”, pelo lado lógico, há um constituinte suficiente que é “pensar em algo” - por experiências anteriores sei que o constituinte secundário (franzir a testa) é um conhecimento por familiaridade, aspecto físico que me leva ao mental, o núcleo (pensar em algo). Por outro lado, o aspecto físico de “franzir a testa” é reduzido epistemologicamente ao “pensar em algo”, isto é, o conhecimento de “franzir a testa” está contido em “pensar em algo”, em termos de redução lógica.[iv] 

Carnap, buscava, nessa fase, uma reconstrução do mundo mediante uma base auto psicológica[v], mas depois passa a se preocupar com a forma da linguagem, a sintaxe, se utilizando de uma metalinguagem que analisa linguisticamente uma linguagem objeto. 

A fase sintática de Carnap. Já em 1934, influenciado pela metamatemática de Hilbert e Tarski, Carnap constrói uma teoria geral das formas linguísticas, por meio de uma sintaxe lógica. Há uma metalinguagem que possibilita transformar proposições de uma linguagem objeto através de regras da lógica simbólica. Aí já não se utilizam as vivências como base do significado das proposições, projeto do Aufbau, mas a linguagem simbólica, ainda que com a mesma ideia do esclarecimento das teorias científicas.

Na leitura de Emmendorfer, é uma passagem do reducionismo fenomenalista para uma análise lógico-sintática e independente da noção de significado com destaque para o princípio da tolerância, sobre o qual regras são formadas pela conveniência de cada teoria. Aí ainda há linguagem extensional, mas também se abre espaço para uma linguagem lógica. Nesse momento, então, o projeto de esclarecimento de controvérsias filosóficas é menos factual, lidando com os objetos e mais formal, por meio de signos.

Nessa época, a semântica ainda não é tematizada como teoria do significado; a análise permanece formal e sintática. A virada semântica só ocorrerá quando o problema da verdade e da referência entrar no centro da reflexão.



[i] Na página 54 de O significado em Frege e Carnap. Ela atribui as fases de Carnap a uma definição de Sofia Stein em sua tese de doutorado. Usaremos o capítulo 2 aqui.

[ii] Exploramos aqui: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/02/aufbau.html. O artigo discute a obra Aufbau (A Estrutura Lógica do Mundo), de Rudolf Carnap, defendendo que o projeto deve ser compreendido como uma reconstrução racional de caráter lógico-linguístico, e não apenas como um sistema epistemológico ou empirismo ingênuo. O autor explica que Carnap propõe um sistema construcional onde conceitos de diferentes domínios (auto psicológico, físico, hetero-psicológico e cultural) são reduzidos a uma base comum por meio da lógica, utilizando um "solipsismo metodológico" que busca objetividade através de propriedades estruturais da experiência. Ao final, o texto contrapõe as críticas de Quine, argumentando que o fundacionismo de Carnap não é dogmático ou infalível, mas sim uma escolha metodológica e convencional baseada na clareza das regras lógicas e na tolerância linguística. (resumo Gemini em 01/03/2026). 

[iii] Não passaremos por Wittgenstein e o Tractatus pois este tema já foi explorado nesse espaço em outras oportunidades. 

[iv] Pensar em algo é derivado de franzir a testa já que franzir a testa aponta para pensar em algo, conforme Emmendorfer, embora saibamos que “franzir a testa” também possa ser um truque. 

[v] Os objetos auto psicológicos são os elementos mais básicos do sistema construcional, ponto de partida epistêmico e estrutural. Eles são os conteúdos imediatos da experiência própria do sujeito. São dados pré-objetivos, por exemplo, uma mancha visual marrom que vejo agora e não o objeto físico cadeira. Eles têm primazia epistêmica absoluta, para Carnap, porque são dados diretos, não dependem de hipóteses e permitem construção de outros objetos. Importa salientar que não são vistos por Carnap como ontologicamente mais reais, mas de um ponto de vista lógico. Então, a cadeira é uma construção lógica sobre padrões de experiência. Eles são autopsicológicos porque são objetos definidos exclusivamente em relação ao fluxo de experiência do próprio sujeito e daí para a linguagem pública, o mundo físico e a intersubjetividade. Conclui-se que, no Aufbau, o mundo físico não é o fundamento e a ordem não é mundo → experiência, mas experiência → mundo. (burilando ChatGPT...)